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John Gray: "Querer a paz perpétua leva a grandes matanças"

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John Gray (foto:
John Gray (foto:

John Gray é um pensador provocativo e prolífico. O filósofo britânico criticou as ideias do psicólogo canadense Steven Pinker e seu livro Os anjos bons da nossa natureza – cuja ambição é provar que o mundo se tornou mais pacífico nos últimos séculos e prosseguirá no caminho da concórdia. Gray ironiza Pinker, cuja obra considera nula, e prevê que as novas tecnologias, tidas como aliadas do progresso, desenvolverão novas formas de violência. Conferencista do Fronteiras do Pensamento 2015, John Gray conversou por telefone com a Época, de seu escritório em Bath, Inglaterra.

Época: Steven Pinker escreve que morre menos gente em guerras, e o senhor diz que ele está errado. Continuamos a ser tão violentos como éramos no passado?
John Gray:
O número de mortes em campos de batalha realmente caiu, e isso não aconteceu porque a sociedade ficou mais pacífica. A medicina se tornou melhor e as guerras industriais entre grandes Estados, que assolaram o século XX, diminuíram, porque as grandes potências temem o uso de armas nucleares. Há apenas um equilíbrio do terror. Além disso, medir as mortes em guerras é fácil. Mas e as vidas que foram encurtadas por causa delas? E as pessoas que tiveram de fugir de cidades destruídas, como na Síria, para campos de refugiados? E os que morrem antes da hora em consequência da guerra? Tais vidas não deveriam ser contadas? Ainda assim, seria difícil quantificá-las. Essas pessoas estão espalhadas pelo mundo. Algumas emigram, outras morrem nesses campos, outras adoecem e outras se matarão. O custo humano da guerra é incalculável. A precisão quantitativa de Pinker não passa de ilusão. É apenas essa ilusão, e o medo de novas guerras nucleares, que derrubou o número de mortos. A proporção de não combatentes ou civis mortos ainda cresce, como numa longa guerra em curso no Congo, em que 90% dos mortos pertencem a essa categoria.

Época: O senhor critica a visão de que a sociedade se tornou mais altruísta. Um mundo em que os povos estão mais conectados não nos levará a uma convivência mais pacífica?
Gray:
Acho improvável. Os conflitos se espalharam para outras regiões. Uma das consequências do conflito na Líbia é que há uma enormidade de refugiados e imigrantes desembarcando na Itália. Com a ajuda dos americanos, França e Reino Unido derrubaram o regime de Muammar Khadafi. Ele era um tirano, mas isso levou o governo líbio ao colapso, e lá agora reina uma anarquia. Se houvesse altruísmo, você poderia esperar que a Europa ajudasse os imigrantes. Não é o caso. Há vozes ressonantes a favor de políticas para reduzir o número de refugiados ou mesmo para enviá-los de volta para casa. Graças à globalização, os conflitos tradicionais ou multifacetados têm um efeito cascata maior que no passado. Paradoxalmente, um mundo mais fragmentado como antigamente era mais estável. Sofremos com a Grande Depressão americana nos anos 1930, mas China e Índia sofreram menos, por estarem fora do mercado global. Hoje, todo o mercado é interligado. Os países estão conectados à Arábia Saudita e a outros produtores de petróleo. Um país como a Venezuela sofrerá mais deterioração em razão das políticas de preço do petróleo na Arábia Saudita, aprofundando sua miséria. Esses efeitos não existiam no passado. Não deixam o mundo mais pacífico, apenas mais frágil.

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ÉPOCA: O senhor é famoso por ter previsto várias crises. Como a violência evoluirá e como lidaremos com ela?
Gray:
O futuro pode ser diferente do passado por causa das novas tecnologias. Algumas delas limitarão certos tipos de violência, mas outros surgirão. Rússia, China e Estados Unidos já se envolveram em conflitos cibernéticos com vários outros países. Se esses ataques continuarem, custarão vidas. Desligar estações de força ou derrubar aviões, desestabilizar aeroportos ou mercados financeiros resultará em profundas revoltas sociais. A violência vai passar por uma metamorfose, vai florescer e prosperar. O mal às vezes recrudesce por um tempo, e melhorias reais surgem. Mas o mal reaparece uma, duas ou três gerações depois com outro nome. Como a prática maligna da tortura. Nunca é erradicada. A maior democracia liberal do mundo, os Estados Unidos, faz isso sob a alcunha de técnica avançada de interrogatório, o waterboarding (forma de interrogatório que simula um afogamento), considerado tortura na Segunda Guerra Mundial.

ÉPOCA: O senhor diz que Pinker também erra ao dizer que países avançados são mais pacíficos. Por quê?
Gray:
Rejeito a ideia de que a guerra é um sintoma de nações atrasadas – ou que as avançadas tendem ao pacifismo. Um exemplo contrário é a terrível sucessão de guerras no Sudeste Asiático, que ocorreram a partir dos anos 1940. Não apenas no Vietnã, mas também no Camboja ou no Laos. Elas não foram promovidas pelos países pobres do Sudeste Asiático. Eram guerras neocoloniais, promovidas, combatidas e financiadas por nações avançadas. Todas elas. Elas aconteceram porque a região se tornou um teatro para o conflito entre grandes potências globais, exatamente como acontece hoje na Ucrânia. Deixar presos na solitária por longos períodos é uma forma de tortura, e nisso reside o sistema prisional americano, o maior do globo. Nada disso é mencionado em qualquer livro de Pinker – embora eu possa estar errado. Ele escreve livros muito longos; eu prefiro escrever livros mais curtos.

ÉPOCA: O que pode ser feito para controlar a violência?
Gray
: Procurar uma solução definitiva é uma ilusão. A violência está enraizada nas relações humanas e no próprio ser humano. É impossível eliminá-la. E a política é apenas uma sucessão de remédios provisórios e temporários para males permanentes e recorrentes. Um dos grandes erros do século XX foi a tentativa de buscar uma condição permanente de paz. Muita gente acreditou que o mundo poderia tornar-se permanentemente pacífico se fosse composto de democracias. Diziam: “Se pudéssemos nos livrar dos tiranos, de Saddam Hussein, no Iraque, de Bashar al-Assad, na Síria, de Khadafi, na Líbia, e ter mais democracias, extinguiríamos as guerras e haveria uma paz perpétua". Para produzir esses resultados, iniciavam guerras selecionadas, de troca de regime. De forma parecida, um bolchevique ou um maoista diria que precisamos de uma guerra revolucionária. Ou matar várias pessoas em prol da paz no mundo. É uma das grandes loucuras que permanecem neste século. Olhar para a paz perpétua é perigoso. Geralmente, nos leva a grandes matanças e mais violência.

ÉPOCA: O que acha da ideia de que as novas tecnologias de informação podem ser usadas para promover a paz?
Gray:
As novas mídias apenas transferem ideias e imagens mais facilmente, a custo baixo. Os jornais não tornaram o mundo racional nem evitaram o nazismo. As rádios não preveniram os massacres do século XX. As pessoas diziam que fotocopiadoras e, depois, câmeras de vídeo preveniriam massacres. Se fossem filmados e distribuídos, os governos pensariam duas vezes antes de cometê-los. Isso é mito, como vimos no massacre da Praça da Paz Celestial, na China. As imagens foram espalhadas pelo mundo, vimos o que aconteceu – e isso não produziu o mínimo efeito. Além disso, muitas ideias venenosas são promovidas na internet, como racismo e seitas. Nenhuma nova tecnologia vai fazer qualquer diferença. Todas elas são ética e politicamente ambíguas. Podem ser usadas para diferentes propósitos, e elas sempre são. Elas tendem ainda a silenciar a sociedade, deixando-a mais acomodada.

ÉPOCA: Os genocídios do século XX não serviram de lição? Ou o senhor acha que grandes conflitos entre grandes nações podem eclodir agora tão facilmente como no passado?
Gray
: Não há conflitos como no passado, mas é muito provável que haverá genocídios. Os ataques do Estado Islâmico contra os yazidis tinham um aspecto genocida. Eles tentavam acabar com uma cultura inteira. As forças ocidentais destruíram o Estado iraquiano e geraram uma situação de anarquia, na qual o Estado Islâmico se ergueu. A humanidade não aprendeu as lições do século XX. Uma delas era que deslocamentos econômicos tendem a produzir políticas tóxicas – formas de fascismo e ideologias de extrema-direita. A Zona do Euro produz uma massa gigantesca de desempregados na Grécia, na Espanha, na Itália, na França. Dá origem a partidos de extrema-direita como os dos anos 1930. Por exemplo na Grécia, com o Aurora Dourada, um partido nazista, e na França, com a Frente Nacional, de extrema-direita. A lição é que se devem evitar períodos com 25% da população desempregada. É preciso reverter isso quase que a qualquer custo. Mas, na Espanha, o desemprego entre jovens supera 50%. Na verdade, as lições do século XX vêm caindo no esquecimento.

(Via Época)