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José Eduardo Agualusa e as paredes que nos separam da(s) história(s)

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José Eduardo Agualusa é autor de Teoria Geral do Esquecimento
José Eduardo Agualusa é autor de Teoria Geral do Esquecimento

O ano é 2018 e muros ainda são erguidos para nos afastar do outro. Estes muros não apenas repelem o suposto inimigo, eles emparedam histórias e escondem verdades que precisam ser apagadas pelo esquecimento.

Esse é ponto de partida que conduz a narrativa de Teoria geral do esquecimento, livro de José Eduardo Agualusa que ficou entre os finalistas do Prêmio Man Booker em 2016. Na ficção, que se passa em 1975 em Luanda, Agualusa conta a história de Ludovica (Ludo), uma mulher que ergue uma parede separando seu apartamento do resto do edifício onde vive – e assim nos guia por uma narrativa em que o humor serve como antídoto à trágica história angolana. Em um livro sobre o medo do outro, o amor e a nossa capacidade de redenção, Agualusa usa seu típico tom poético para narrar a complexa história de uma África quase esquecida.

Em entrevista, ele conta que, após a publicação de Teoria geral do esquecimento, recebeu cartas de pessoas de todo o mundo, dizendo que se trancaram em seu quarto por medo do outro. "Não há outros", diz ele convencido de que estamos cada vez mais cegos às obviedades sobre o ser humano. "Sempre me pareceu que um ser humano só pode ser salvo por outro ser humano".

José Eduardo Agualusa é o próximo conferencista do Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre e em Salvador, onde dá início à série especial de conferências. Garanta sua presença na cidade de sua preferência. 

agualusa

AGUALUSA E O ABSURDO DO MEDO DO OUTRO
Sonia Fernández Quincoces | El País

Falamos com um dos mais importantes escritores angolanos e que acaba de ser traduzido para o espanhol e para o catalão. Em Teoria geral do esquecimento, mostra como "os outros somos nós".

Aqui e ali, as histórias parecem se repetir, mas nunca são as mesmas. José Eduardo Agualusa me enviou uma destas narrativas, que foi publicada neste mesmo jornal no começo do mês. Trata-se de uma família, Os Rufino, que reside em um povoado próximo a Granada e que decidiu enclausurar-se após o assassinato de uma das filhas até que o último dos seus membros morreu, sem ter saído de casa, meio século depois. "Eles perderam a fé na humanidade", diz o artigo, a título de explicação.

Agualusa me envia, acho que emocionado, pela coincidência com a história da protagonista de seu último romance, traduzido para o catalão e para o espanhol, Teoria geral do esquecimento. Ludo, como se chama a personagem, aterrissa em Luanda momentos antes de ser declarada a independência, que será seguida por uma guerra civil. No começo, fica com sua irmã e cunhado, mas depois também escolherá trancar-se em sua casa por décadas.

Os Rufino, nascidos em Granada, e a portuguesa Ludo têm muito em comum; isolam-se de um mundo que rejeitam, que temem ou com o qual se decepcionaram, em que não querem mais estar, e todos vivem alheios, mas ao mesmo tempo sem poder evitar fazer parte, ainda que de maneira diferente, dos acontecimentos históricos que acontecem fora das paredes de suas casas. Mas Agualusa, além disso, aproveita a narrativa sobre a família de Granada para responder a uma das perguntas que mais lhe fazem.  

>> Agualusa, Marcelo Gleiser, Lipovetsky e Karnal: participe das conferências do Fronteiras Salvador 2018

A história dos Rufino tem um momento "sobrenatural". Dizem que quando transferiram o cemitério da cidade tiveram que mover o túmulo da jovem, cujo cadáver estava intacto, isto é, como o tinham deixado meio século antes, e que se transformou em cinzas, levadas pelo vento, quando se moveu o caixão. "Que lindo! Puro realismo mágico", exclama o escritor. "E aconteceu na Espanha. Então, eu acho que o realismo mágico tem a ver com o mundo rural, não com a África ou com a América Latina, mas com o mundo rural". E destaca o que ouvimos tantas vezes: que essas situações são parte da realidade cotidiana para aqueles que as vivem... tanto lá como aqui. Então ele suaviza e confessa que "na realidade, o realismo mágico não me interessa muito. Estou mais interessado no absurdo, estou muito mais interessado em como o absurdo se instala em países como Angola, onde as autoridades públicas têm pouca presença, as pessoas mantêm um relacionamento normal com ele. O absurdo surge em situações de vazio de Estado".

TENTANDO ENTENDER A MALDADE

Outro dos interesses na obra original de Agualusa são os sonhos, "eles são parte da realidade. São muito importantes, quando eu vou dormir eu vou trabalhar", diz ele. O mundo dos sonhos tem uma grande força em seus livros, que usam uma voz poética muito cuidadosa. Especificamente em Estação das chuvas, esse gênero literário é mencionado como "o caminho mais óbvio de afirmação cultural" que lhes foi deixado quando lhes tiraram tudo, "dignidade, terra, homens". O que se reflete em toda a sua narrativa, tanto na antologia de histórias Catálogo de luzes quanto em seus 5 romances traduzidos para o espanhol até o momento, sem contar os que foram publicados nos países latino-americanos.

Em suas obras, aparece um escritor comprometido, que mostra personagens perseguidos e questões relacionadas aos direitos humanos, e também a contracorrente, interessado em sempre contar o outro lado da história, o oculto. "Se você me pergunta o que estou procurando quando leio, devo responder que acho que estou querendo me surpreender. Procuro algo novo, uma janela para outro mundo, se a questão é por que escrevo, então devo dizer que escrevo para tentar entender o outro, para tentar entender a maldade, porque a bondade é muito fácil de entender".

Não é de estranhar, então, que da quantidade de personagens que geralmente aparecem em suas narrações, Monte seja o preferido (um policial que aparece em vários dos romances do autor, incluindo Teoria geral do esquecimento, e que deseja ser esquecido): "é o que mais gosto porque é o mais complexo, faz coisas terríveis, mas ao mesmo tempo vem de um tempo de grandes ideais. Isto acontece muito em Angola: pessoas que fizeram coisas muito ruins, mas em nome de grandes ideais. Estou interessado em entender essas pessoas. Eu acho que principalmente uma pessoa muito má é aquela que não consegue se colocar na pele do outro", afirma. Nesse sentido, ele acrescenta que a leitura produz o efeito oposto: melhora as pessoas porque nos ajuda a ter empatia.

No entanto, em Angola não é fácil ser escritor. "Se você pensa diferente, você está indo contra o estado. Lá é muito difícil ser iconoclasta. Na Espanha, é muito fácil ser, você pode falar mal de alguém, sobre qualquer assunto, e as pessoas não estranham. Mas em Angola é um pouco diferente. Comigo isso aconteceu quando eu disse que a poesia de Agostinho Neto (primeiro presidente angolano) foi medíocre; foi um grande escândalo, lá é muito fácil ser escandaloso. Basta pensar, não precisa ser diferente, basta pensar, para ser escandaloso. De qualquer forma, isso também está mudando", explica.

ESQUECER OU LEMBRAR

Teoria geral do esquecimento se baseia em uma mentira que Agualusa apresenta como verdade. Nesse sentido, ele explica: "a verdade tem algo de totalitário. É algo que pertence a um país totalitário. Não existe uma verdade única, existem várias versões da verdade, ao contrário de Angola, onde existe apenas uma. Mas esta situação também está mudando rapidamente: a sociedade civil está mais ativa e estão tornando possível a reviravolta".

Nesse sentido, falamos sobre os diferentes modos de narrar a realidade. A história convulsiva e brutal de Angola, cheia de violência e muito sangrenta, aparece em suas obras, sem roubar acontecimentos como os de 27 de maio de 1977. "Estou interessado em história, primeiro porque posso conhecer melhor o presente se conheço o passado e, depois, estou interessado na pequena história: como as pessoas viveram medos históricos".

Um dos eventos que aparecem no romance é o colonialismo, que "faz parte da identidade angolana, construiu a identidade angolana". Agualusa acrescenta que "no meu país fala-se o português, língua materna para uma porcentagem muito alta de angolanos". Depois, com a independência, "havia uma visão que dizia: um único povo, uma única nação ... uma visão muito totalitária e muito próxima da colonial. Os portugueses podiam acreditar nisso porque têm uma identidade única, uma unidade étnica, mas em Angola não é possível, existem muitos povos diferentes com muitas identidades, o que é uma grande riqueza". Depois disso, começou a longa e terrível guerra civil.

Teoria geral do esquecimento mostra muitas das facetas dessa guerra, sempre a partir de um tom que foge do dramatismo. E depois? "Na questão da guerra, Mia Couto defende o esquecimento, por muito tempo, pelo menos, ele pensou assim. Há questões muito difíceis de explicar para as pessoas do Ocidente. Em Moçambique, há uma ideia de que quando se fala de guerra, tenta-se despertar os demônios, os espíritos, então é melhor deixar os espíritos maus adormecidos", explica. "No entanto, Angola é muito diferente de Moçambique, por várias razões, uma das quais é que a presença urbana é mais antiga em Angola. Em Moçambique, a tradição oral é muito forte. Lá, a mitologia camponesa é mais forte", diz ele. "Pessoalmente, eu acho que é importante conversar, só conversando se pode perdoar."

OS OUTROS SOMOS NÓS

"Ser angolano é ser otimista, não há outro modo de ser angolano. Eu não gosto de generalizar. Mas se generalizo, digo que o otimismo é um modo de ser angolano. Quando estou fora do país, é algo de que sinto muita falta: a alegria das pessoas", afirma Agualusa. E o anterior aparece neste romance finalista do Man Booker International 2016, que é o que a sua mãe mais gosta, porque quase todos os personagens, mesmo os maus, têm uma segunda oportunidade. "As pessoas mudam", acrescenta. "Você não pode ser julgado por um crime que cometeu há vinte anos, porque pode ter mudado. Eu gosto dessa ideia de que as pessoas têm a opção de mudar, de melhorar".

Esse modo de pensar também o leva a considerar o livro como um meio para a mudança. "No Brasil, nas prisões, existe uma lei que diz que para cada livro que você lê, você é privado de uma semana de prisão. É um bom começo. Os livros, a ficção, têm o poder de melhorar as pessoas", ilustra. "Isso pode mudar a situação política também, as pessoas no poder não leem ficção, mas pessoas próximas ao poder sim", acrescenta.

Escrito em 2012, no entanto, a história de Teoria geral do esquecimento é mais atual do que nunca quando se fala de medo do outro e da xenofobia que é, nas palavras do autor, "mais forte no mundo do que em Angola, onde houve uma certa abertura". Depois de publicá-lo, Agualusa conta que recebeu cartas de pessoas dizendo que se trancaram em seu quarto por medo do outro: histórias que podem acontecer em Nova York, Madri ou em qualquer outro lugar. "Não há outros", ele diz convencido, e parece fazer suas as palavras do escritor afro-americano James Baldwin: "Sempre me pareceu que um ser humano só pode ser salvo por outro ser humano". O angolano nos mostra que podemos estar cegos. Por isso aparece a infância, como no resto da sua narrativa, porque "as crianças nos mostram coisas que são completamente evidentes e nos ensinam a ver o mundo", diz o escritor, "as crianças nos devolvem a visão".

José Eduardo Agualusa

José Eduardo Agualusa, um dos mais importantes escritores em língua portuguesa da atualidade, é pioneiro em um tipo de ativismo inovador, que revela a tragédia de seu país: o ativismo pelo sonho.

Em uma realidade dilacerada por uma ditadura de décadas, em que o otimismo é o último recurso para prosseguir, as pessoas precisam voltar a sonhar, defende o escritor, mundialmente conhecido por reunir realidade e ficção em tramas que ora denunciam questões sociais ora celebram a capacidade humana de inventar universo.

Agualusa é o próximo conferencista do Fronteiras do Pensamento. Assista ao escritor em Porto Alegre ou Salvador. Acesse o libreto especial do conferencista.