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José Eduardo Agualusa lança 'A sociedade dos sonhadores involuntários'

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Agualusa é um dos conferencistas confirmados no Fronteiras Porto Alegre, que inicia na próxima segunda-feira (14)
Agualusa é um dos conferencistas confirmados no Fronteiras Porto Alegre, que inicia na próxima segunda-feira (14)

A sociedade dos sonhadores involuntários, mais recente livro do angolano José Eduardo Agualusa, é uma ode ao poder dos sonhos. Na sátira política, produzida ao longo de seis anos, quatro personagens lidam com seus sonhos e tentam reagir às condições de desmoronamento de um país sob o totalitarismo.

O livro se inspira no caso de perseguição política que ficou conhecido como 15+2, ocorrido em Angola, em 2015. Na ocasião, 15 jovens ativistas foram presos acusados de planejar uma rebelião contra o presidente da República. O grupo se reunira para discutir formas pacíficas de protesto e ler um livro sobre como acabar com ditaduras.

Em entrevista, Agualusa fala sobre a obra, sobre o que gosta e não gosta no Brasil e define a literatura como uma sociedade “talvez de sonhadores voluntários, ou seja, de pessoas que se treinam para sonhar”.

Acredita que A sociedade dos sonhadores involuntários estabelece diálogos com seus livros anteriores, como O vendedor de passados e Teoria geral do esquecimento?
Sim. Até mais do que isso. São livros que pertencem a uma mesma família. São sátiras políticas que partem da realidade, mas que namoram com a poesia, com o fantástico e o onírico. Neste último romance, o narrador, o jornalista Daniel Benchimol, vem da Teoria geral do esquecimento.

“Eu não quero o veleiro, eu quero a viagem. Não quero o disco, quero a canção.” Escrever pode render tanto prazer quanto ser lido?
Escrever é o prazer principal. Ser lido é consequência eventual desse prazer. Se um livro tiver dado grande prazer ao seu autor, então, muito provavelmente, agradará também a alguns leitores.

Um dos narradores sonha com conversas, entrevistas, “versos soltos”. Você já escreveu o que sonhou? Chega a anotar os seus sonhos e utilizar as anotações em seus livros?
Sim. Neste livro, quase todos os sonhos descritos foram experimentados por mim. Escrevo um diário no qual, entre muitos outros detalhes, tomo nota de alguns sonhos.

“Sonhos nos ajudam a organizar o pensamento”, afirma uma das personagens, Moira. Para você, funciona assim? Os sonhos podem ajudar a organizar um livro, por exemplo?
Sem dúvida alguma. Eu realmente sonho com os personagens, com os enredos e até com alguns diálogos. Sonho quase sempre com os finais dos romances.

“Não gosto de nada que venha do Brasil.” As exceções, para um dos personagens, são três: Paulinho da Viola, Pelé e Mangueira. E você, o que mais gosta no Brasil? Abre as mesmas exceções?
Esse personagem é uma caricatura de muitos angolanos que afirmam odiar o Brasil, mas amam a música popular brasileira, desfilam em escolas cariocas, torcem pela seleção brasileira de futebol etc. Eu gosto do Brasil. Sempre gostei. Se me perguntar do que não gosto fica mais fácil responder. Olhe, não gosto do Temer, por exemplo.

O que você sonha para Angola e para o Brasil?
O mesmo: uma democracia avançada, liberta da corrupção. Com uma democracia autêntica, que não pudesse ser confundida com uma qualquer cleptocracia, tanto Angola quanto o Brasil poderiam prosperar rapidamente. Infelizmente, acho difícil que isso aconteça sem um investimento sério e continuado em educação e cultura. Sem que todos os angolanos e brasileiros possam ter, por exemplo, acesso aos livros.

“Os caminhos impossíveis, aqueles que dão medo, são os únicos que merecem ser explorados.” Quais caminhos, possíveis ou impossíveis, ainda há a percorrer na literatura? E na vida?
A vida é um imenso território, com infinitos caminhos por explorar. Sendo a literatura uma expressão da vida, haverá também caminhos com os quais ainda nem sequer sonhamos.

“Escrever – como toda viagem – é procurar o espanto”, você escreveu em sua coluna semanal em O Globo. Como continuar à procura do espanto sem se repetir?

O mundo é vastíssimo. A vida é vasta como o mundo. Tudo o que é vivo me espanta, tudo na vida me encanta. São muito mais as interrogações do que as respostas. Hão de ser sempre, é claro. No dia em que me deixar de espantar, nesse dia terei desistido de viver. Suponho que não corro o risco.

A literatura também é uma sociedade de sonhadores involuntários?
Talvez de sonhadores voluntários, ou seja, de pessoas que se treinam para sonhar. Profissionais do sonho, digamos assim. É isso que somos.

(Via Uai)