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José Eduardo Agualusa: "Não tenho a menor intenção de morrer"

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Agualusa vem ao Fronteiras POA e Salvador (foto: Rosa Cunha)
Agualusa vem ao Fronteiras POA e Salvador (foto: Rosa Cunha)

O sobrenome significa “água calma e limpa”, mas a natureza inquieta do garoto nascido em Huambo, Angola, se revela na quantidade de livros publicados até o momento: 30, sendo 13 romances e mais outras obras de poesia, contos e coletâneas.

Traduzido em mais de 30 idiomas, José Eduardo Agualusa é detentor de vários prêmios, como: o Independent Foreign Fiction Prize por O Vendedor de Passados (2002), que virou filme nas mãos de Lula Buarque de Hollanda, protagonizado por Lázaro Ramos e Alinne Moraes; e o Prêmio Literário Internacional Impac, de Dublin, pela obra Teoria Geral do Esquecimento (2017). Mas, mesmo sendo um autor consagrado, garante que o prazer de escrever ainda é o mesmo que sentiu quando publicou o primeiro romance, A Conjura (1989 em Portugal; 2009 no Brasil).

Agualusa desembarca na capital baiana na próxima semana para participar, no dia1º de agosto, do Fronteiras do Pensamento. Em Salvador, os demais convidados são: o filósofo francês Gilles Lipovetsky e o historiador e escritor brasileiro Leandro Karnal(17/9) e o professor e escritor brasileiro Marcelo Gleiser (15/10). 

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Em entrevista exclusiva concedida ao jornal A Tarde, Agualusa falou do seu processo criativo, dessa época de “neopuritanismo” que estamos vivendo e sobre as guerras,que define como “o clímax da estupidez humana”.

Apaixonado pela literatura de Jorge Amado, defende o escritor baiano das acusações de machismo e racismo: “Ele nos mostrou como utilizar a mitologia africana para inventar uma ficção original”. Agualusa também confessa que moraria em Cachoeira, no Recôncavo baiano. Inteligente e bem-humorado, garante não ter talento para morrer e diz não se reconhecer como senhor, mas apenas como um menino. Sem dúvida, um menino genial!

Acredito que um bom texto é como a melodia de uma canção que nos conduz, do início ao fim, de maneira harmoniosa. Sob este ponto de vista, qual seria a melodia da sua escrita?
Sim, penso o mesmo, e talvez o mais difícil quando se começa a escrever um novo romance seja encontrar essa melodia. Os meus romances são muito diferentes uns dos outros. Não seguem uma única melodia. Tenho romances sombrios e romances solares, acho que os livros absorvem a luz dos ambientes nos quais são escritos. E talvez,também, a música desses lugares.

Depois de mais de 30 livros publicados, o prazer de escrever ainda é o mesmo ou ele se modifica? O que te mobiliza?
O prazer é o mesmo. O deslumbramento que resulta de ver um romance a desenvolver-se, as diferentes histórias se amarrando umas às outras, o conjunto ganhando coesão e vida própria, isso felizmente não mudou. Continuo a não saber como acontece. Felizmente, não sei como acontece.

O senhor transita entre vários gêneros literários: romance, contos, poesia, teatro e agora música também. O processo criativo é o mesmo para cada um deles ou existe algum menos aflitivo?
Aflitivo é ser tratado por senhor –a sério, não me reconheço nessa forma de tratamento. Lembro um amigo, que deixou a nossa pequena cidade e foi para Nova Iorque e se queixava muito: “Lá ninguém me trata por menino”. Como eu o compreendo. Eu gostaria de ser sempre tratado por menino.

Quanto à aflição, não sinto aflição nenhuma enquanto trabalho. Etimologicamente, a palavra trabalho vem do nome de um antigo instrumento de tortura. Escrever para mim não é uma tortura. É um prazer imenso. Uma alegria. Por outro lado, tenho dificuldade em distinguir gêneros. Não acho que transito entre gêneros, eu simplesmente os ignoro. Não gosto de fronteiras. Eu me sirvo da poesia para escrever ficção e da ficção para escrever letras para canções. Por que separar em gêneros? Bom é misturar tudo. Ser os gêneros todos ao mesmo tempo.

O livro A Sociedade dos Sonhadores Involuntários levou seis anos para ser finalizado. O tempo que leva para concluir uma história te causa angústia, de alguma forma?
Como disse antes, não sou um escritor angustiado. Aliás, não sou uma pessoa muito propensa à angústia. Enfim, a burocracia me angustia, a burrice e o aquecimento global. Trump me angustia; o Brasil de hoje me angustia. A maldade me angustia, imigrantes morrendo afogados no Mediterrâneo, o apartheid se consolidando em Israel,etc. Talvez por isso eu escreva. E talvez esteja resultando. Talvez eu não seja uma pessoa angustiada porque escrevo. Terapia literária. Cada livro é uma experiência diferente; alguns chegam, mas nós ainda não estamos prontos para eles. Temos de crescer para os merecer. E quando finalmente os merecemos, eles irrompem como as flores nas  areias do deserto do Namibe, depois das primeiras chuvas.

O sonho serve como fonte de inspiração para os universos que o senhor cria. Mas qual o mundo real dos seus sonhos?
Outra vez a questão das fronteiras. Por que separar o sonho da realidade? Os meus sonhos são parte da minha realidade.

Você vai participar do Fronteiras do Pensamento, que vai discutir o tema O Mundo em desacordo – democracia e guerras culturais. Você vivenciou uma guerra na sua infância e hoje vemos muitas guerras acontecendo. Que lição ou lições você tirou desse período?
Em Angola atravessei várias guerras, desde que nasci até aos meus 40 anos. Guerras, todas elas, são o clímax da estupidez humana. Cada guerra é uma derrota da humanidade inteira. Uma queda.

As novas tecnologias ampliaram os horizontes e nos permitiram ter conhecimento de outras culturas, mas, ao mesmo tempo, vivemos uma época de muita intolerância. Estamos vivendo um retrocesso?
Sim, estamos recuando em várias frentes. Estamos sobretudo atravessando um momento de extrema confusão ideológica onde, por vezes, até o que parece um avanço pode ser um recuo ou o que parece um recuo talvez seja um avanço.

Não tenho certeza, por exemplo, de que o neopuritanismo que estamos vivendo seja um avanço – embora possa parecer, porque se manifesta em nome da boa causa da igualdade entre gêneros. Também não tenho certeza de que condenar romances escritos há 50 anos, ou há 100 anos, porque padecem de tiques racistas, numa época em que o racismo era o pensamento dominante, não tenho certeza de que isso seja um avanço. É fácil compreender quem partilha as nossas ideias; o difícil é compreender quem está do outro lado – mas é isso que temos de tentar.

Você já se declarou fã de Jorge Amado. Qual a sua relação com a Bahia, atualmente?
Sim, eu amo Jorge Amado. Eu e muitos outros escritores africanos, de diferentes gerações, de vários países, não apenas dos países de língua portuguesa. Somos uma irmandade. Nos encontramos pelo mundo, em festivais de literatura, em Bamako, Luanda ou Paris, e logo nos reconhecemos.

Jorge Amado fez algo extraordinário, nos mostrou como utilizar a mitologia africana para inventar uma ficção original. Não foi Juan Rulfo quem inventou o realismo mágico latino-africano – foi o Jorge Amado. Respeito! Fico muito irritado com essa onda atual, sobretudo de alguns meios acadêmicos, de acusar Jorge Amado de machista ou racista ou pior.

Você já morou em Olinda e no Rio de Janeiro, alguma possibilidade de termos Agualusa morando em Salvador ou em alguma cidade baiana?
Gostaria de morar em Cachoeira. O Recôncavo baiano é cenário de alguns contos meus, e até de um romance – Nação Crioula. Cachoeira ou Olinda são da mesma família de Benguela ou da Ilha de Moçambique, onde me tenho demorado mais nos últimos tempos. São cidades com uma alma forte, uma alma mulata, exuberante e alegre e cheia de vida.

Você declarou que poderia morrer em Benguela ou em Olinda. Qual a frase que gostaria que constasse na sua lápide?
Sim, mas preferia não morrer. Daria um péssimo morto. É que não tenho mesmo o menor talento, não consigo ficar quieto e, além disso,cada vez gosto mais da vida – mesmo com o Trump, mesmo com o Temer, até mesmo com o Bolsonaro. Vou confessar uma coisa: não tenho a menor intenção de morrer. Se isso acontecer, será sempre à revelia. Então, podem escrever na minha lápide: “Eu Não Estou Aqui”.

(Via A Tarde)

CONHEÇA OS CONFERENCISTAS E AS DATAS DO FRONTEIRAS BRASKEM DO PENSAMENTO 2018

Conferência José Eduardo Agualusa 01 agosto (quarta-feira)
Debate Especial Gilles Lipovetsky e Leandro Karnal 17 setembro (segunda-feira)
Conferência Marcelo Gleiser 15 outubro (segunda-feira)

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JOSÉ EDUARDO AGUALUSA 01 de agosto

josé eduardo agualusa

José Eduardo Agualusa é conhecido por reunir realidade e ficção em tramas que ora denunciam questões sociais ora celebram a capacidade humana de inventar universos. Ele faz de suas obras portas para a liberdade de expressão - e de transformação -, convidando seus leitores a resistirem frente à realidade e insistirem no sonho de uma nova vida. Agualusa vem ao Fronteiras nos trazer importantes lições para os brasileiros de hoje: reaprender a acreditar e a lutar por profundas transformações.

DEBATE ESPECIAL: GILLES LIPOVETSKY E LEANDRO KARNAL 17 setembro

lipovetsky

Filósofo francês, Gilles Lipovetsky tem a habilidade de tornar visíveis as relações entre diversos fenômenos da atualidade, abrindo ramificações que investigam temas fundamentais, como a decadência das tradições que antes guiavam nossas vidas, o desencantamento por ideologias políticas e o culto ao prazer e à felicidade imediatos. Tudo isso é abordado em suas reflexões, sem deixar de lado os aspectos emocionais que surgem da hipermodernidade: a solidão, o sentimento de vazio, a ansiedade e a depressão são problemas que o pensador atribui ao nosso tempo.

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Um dos mais populares intelectuais do Brasil, o historiador Leandro Karnal é presença frequente na televisão, nas rádios, revistas e jornais. Nas mídias sociais, vídeos de palestras do pesquisador e professor da Unicamp são viralizados e suas análises são compartilhadas por milhares de pessoas. Karnal combina sagacidade e bom humor para estimular brasileiros a refletirem sobre temas cruciais para a compreensão da realidade do país e para o conhecimento do ser humano.

Leandro Karnal se une a Gilles Lipovetsky neste grande debate sobre quem somos atualmente e para onde estamos caminhando enquanto sociedade brasileira e enquanto humanidade.

MARCELO GLEISER 15 outubro

marcelo gleiser

Marcelo Gleiser mostra como as mais complexas teorias sobre o universo estão interligadas ao nosso cotidiano. Sua postura congregadora reúne diversas áreas do conhecimento e faz desse brasileiro um dos principais intelectuais públicos do país, responsável por muitos dos vídeos mais assistidos do Fronteiras.

Marcelo Gleiser encerra o Fronteiras Salvador mostrando como, apesar das aparentes diferenças, somos todos movidos pelas mesmas forças e questionamentos.