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José Eduardo Agualusa: para reaprender a sonhar

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"Enquanto escrevo este texto um amigo meu morre de fome em Luanda. Luaty Beirão, 33 anos, está sem comer desde o passado dia 21 de setembro, em protesto contra a sua prisão e a de outros 14 jovens, há cerca de três meses, sob a acusação absurda de tentativa de golpe de Estado."

Em 2015, José Eduardo Agualusa escrevia ao jornal O Globo uma Carta de Amor para Luaty Beirão. Naquele ano, o rapper Luaty foi detido junto com outros ativistas por acusação de conspiração contra o governo de José Eduardo dos Santos.

Durante o tempo em que esteve preso, e antes de avançar para uma greve de fome que durou 36 dias, Luaty manteve um diário que resultou na obra Sou eu mais livre, então, lançada em 2017. Podemos dizer que a prisão do músico deu origem não a um, mas sim a dois livros, lançados quase que simultaneamente. O outro vem de um amigo, o também angolano Agualusa.

Uma fábula com fundo de verdade, A Sociedade dos Sonhadores Involuntários, obra de José Eduardo Agualusa, é uma sátira política sobre o movimento de contestação causado pela prisão de Luaty Beirão. No livro, um jornalista angolano sonha com pessoas que não conhece e se envolve com quem, como ele, têm ligação especial com os próprios sonhos. A certa altura, a filha do jornalista, assim como Luaty, acaba presa depois de se envolver em movimento de protesto contra o ditador do país.

A Sociedade dos Sonhadores Involuntários trata de histórias que têm em comum o sonho - enquanto esperança e espaço de rebelião -, reforçando um ensinamento esquecido no mundo tão focado nas diferenças: quando formamos uma comunidade com os mesmos sonhos, temos o poder de transformar a realidade.

José Eduardo Agualusa vem ao Fronteiras do Pensamento trazer importantes lições para os brasileiros de hoje: reaprender a acreditar e a lutar por profundas transformações. Garanta sua participação em Porto Alegre (06/08) ou Salvador (01/08).

Sonhos são pouco valorizados hoje em dia?
Agualusa: Sim. O Sidarta Ribeiro disse que, desde sempre, os sonhos tinham uma utilidade prática para as pessoas, as pessoas pensavam naquilo que sonhavam. É uma função prática. Quando você sonha com a morte de sua mulher, por exemplo, pode estar fazendo o luto, preparando o luto dessa mulher. São sonhos práticos. A relação que tenho com os sonhos é bastante utilitária. E não é nada de extraordinário, porque acontece muito com escritores, criadores, artistas plásticos, músicos. Portanto, essa é uma utilidade prática dos sonhos.

Por que não valorizamos?
Agualusa: Acho que nossa sociedade contemporânea perdeu muitas tradições. No mundo urbano se perderam outros universos que se mantêm no mundo rural. Isso tem a ver com a rapidez que vivemos, provavelmente com a evolução de uma série de situações. Há questões que a própria ciência afastou, mas outras, provavelmente, não têm uma explicação. Há várias maneiras de olhar para os sonhos, não necessariamente de uma forma mágica, mas de uma forma prática.

Tem um momento em que o personagem, atingido por um raio, fala da memória, da perda de memória. Não valorizamos a memória também?
Agualusa: Acho que temos medo de pensar sobre isso. Nós somos nossa memória, cada um de nós é aquilo que se lembra. E nossa memória é muito frágil. Dá um certo medo pensar que somos tão frágeis, pensar a respeito de algo tão tênue. Faço um diário há 10 anos e quem faz diário tem uma percepção disso porque, lendo o diário, você vai lembrando de acontecimentos que sumiram da memória, inclusive de pessoas com as quais você conviveu e que se apagaram por completo. Você percebe que, ao se apagarem essas pessoas e esses momentos, muito de você desapareceu também. Somos a soma de todos os acontecimentos da nossa vida, das nossas vivências, mas lembramos de tão pouco. Não temos grande espaço para a memória.

>> Agualusa, Marcelo Gleiser, Lipovetsky e Karnal: participe das conferências do Fronteiras Salvador 2018

Olhando para Angola e para o Brasil, dois países tão ligados historicamente, o que você vê de semelhanças hoje?
Agualusa: Tem e não tem, porque são situações muito diferentes. O Brasil acompanha Angola na sua evolução, no seu crescimento, na sua gênese. São países que nascem ao mesmo tempo e vão alimentando um ao outro. Angola formou o Brasil, mas o Brasil também formou Angola ao longo dos séculos. Se Angola tem noção disso, o Brasil não tem. O Brasil foi também esquecendo Angola. Esquecendo sua origem. Mas, a meu ver, o que o Brasil tem de melhor é exatamente essa matriz africana, essas expressões culturais de matriz africana que vão da música ao candomblé, da capoeira ao carnaval. O que o Brasil tem de pior é uma expressão que vem ainda hoje do pior que o Brasil já teve, que é a escravatura, que é a formação das classes econômicas que ainda hoje dominam o país.

E em Angola é diferente?
Agualusa: Angola é um pouco diferente, é um país que teve escravatura sim, mas de uma forma bastante diversa, e que venceu o colonialismo português através das armas. O Brasil não teve propriamente que lutar, a independência foi dada pelos portugueses. Então, de certa maneira, a política que estava instalada e a classe colonial continuaram no poder como uma espécie de endocolonialismo que se completou no Brasil. Isso é diferente de Angola. Também temos um endocolonialismo, mas um pouco diferente, um pouco atenuado, porque houve uma independência conseguida de forma violenta, e a classe que chegou ao poder não era exatamente de portugueses. Mesmo assim, acho que é uma classe com uma certa expectativa de exploração colonial.

Ainda não conseguimos fazer uma discussão madura do que foi a escravidão?
Agualusa: Acho que, em termos de discussão acadêmica, ela tem sido feita.

Mas, e na sociedade, na classe média de forma geral?
Agualusa: Provavelmente não, porque isso se vê até hoje na relação entre as pessoas. Como você tem um país de maioria africana e esses africanos não estão representados no poder? Até na questão da representação isso se nota. E é um caso até extraordinário, porque não é o quarto mundo esses países que fizeram uma origem semelhante ao Brasil. Países como a Jamaica, que tiveram processo semelhante de formação, não têm essa relação que no Brasil persiste de desigualdade racial e de representação das pessoas no poder. Isso não existe lá de maneira nenhuma. É um pouco estranho.

Podemos dizer que Sociedade dos sonhadores involuntários tem um quê de fantástico?
Agualusa: Tem algo de onírico mesmo. Por isso é um livro sobre sonhos. É um livro onde os sonhos acabam triunfando. Eu cada vez tenho mais dúvidas sobre fronteiras do quem quer que seja, mas também essa fronteira do real e do não real. Nossos sonhos são reais dentro de nós, o que você sente enquanto sonha é completamente real, as emoções são reais, você acorda chorando, rindo ou com aquela tristeza, que é absolutamente real. O que é real e o que não é? Essa fronteira não é tão concreta como nós gostamos de imaginar que é.

(Entrevista via Correio Braziliense)

José Eduardo Agualusa

José Eduardo Agualusa, um dos mais importantes escritores em língua portuguesa da atualidade, é pioneiro em um tipo de ativismo inovador, que revela a tragédia de seu país: o ativismo pelo sonho. Em uma realidade dilacerada, em que o otimismo é o último recurso para prosseguir, os jovens precisam voltar a sonhar, defende o escritor, mundialmente conhecido por reunir realidade e ficção em tramas que ora denunciam questões sociais ora celebram a capacidade humana de inventar universos. Agualusa é o próximo conferencista do Fronteiras do Pensamento. Assista ao escritor em Porto Alegre ou Salvador. Acesse o libreto especial do conferencista.