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Joshua Greene: Como resolver discordâncias em tempos globais

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Joshua Greene no Fronteiras do Pensamento 2018
Joshua Greene no Fronteiras do Pensamento 2018

Em sua obra, Moral tribes: emotion, reason, and the gap between us and them, Joshua Greene explica que nossos cérebros evoluíram apenas para cooperar de forma tribal.

Nascemos com uma série de emoções sociais como empatia, vergonha, gratidão, vingança, indignação, que conseguem fazer com que sejamos suficientemente egoístas para prosperar como indivíduos e altruístas o bastante para manter coesos os grupos dos quais que somos membros.

Contudo, o mundo moderno exige a convivência de diferentes grupos e culturas em um mesmo lugar. Aqui, as linhas morais que nos separam se tornam mais salientes e desafiadoras.

“No problema básico da cooperação com pessoas próximas, pessoas da nossa própria tribo, as emoções morais funcionam bem. Mas, nossas emoções morais não evoluíram para solucionar problemas que dizem respeito aos outros”, diz Greene.

Nessa nova estrutura social das megalópoles e dos espaços digitais, a moral que utilizamos para nos relacionar com nosso círculo de amigos frequentemente se choca com a de outros grupos.

É o que Greene chama de tragédia da moralidade do senso comum. Segundo ele, o choque entre diferentes morais incompatíveis está por trás das guerras culturais que marcam nosso tempo e também de episódios mais graves de violência.

Como começar a mudar esta situação?

Em entrevista à Braskem, patrocinadora do site fronteiras.com e de nossas mídias sociais, Joshua Greene faz um diagnóstico do nosso tempo e compartilha conosco aqueles que considera os melhores caminhos para resolver a situação. Assista e leia abaixo.

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A internet é um exemplo de como as pessoas extrapolam o limites dos debates e da civilidade. No entanto, poderia ser a tecnologia uma das respostas para chegar ao consenso tão necessário aos dias de hoje? No que ela poderia nos ajudar?

Joshua Greene:
A internet é, obviamente, uma ferramenta incrível que pode ser usada para aproximar as pessoas, mas também para afastá-las.

Quando as pessoas se encontram em uma situação na qual não têm acesso a informações de qualidade - se estão vivendo sob um regime autoritário -, a internet pode ser maravilhosa, porque pode levar a elas a liberdade e a verdade que o regime deseja

Mas, em uma sociedade livre isso pode funcionar no sentido oposto. Se todos têm a liberdade para escolher suas fontes de informação - e tendemos a optar pelas pessoas que nos dizem o que gostamos de ouvir -, com o tempo, é possível que passemos a escutar apenas aquilo que queremos e isso pode afastar as pessoas.

Um dos grandes desafios do nosso tempo é descobrir como usar essa tecnologia em uma sociedade livre. Como informar as pessoas e levar a elas conhecimentos e entendimentos compartilhados, em vez de deixar que cada um escolha de onde quer tirar suas informações, deixando de falar com as pessoas que pensam de forma diferente.

Seu livro [Moral Tribes] fala sobre os paradigmas do “eu x eles” e do “nós x eles”. Quando o assunto são nossos instintos, o que fala mais alto?

Joshua Greene: Depende muito do contexto. Na vida cotidiana, o maior desafio se dá entre ser egoísta e pensar nos interesses dos outros. Temos muitos bons mecanismos, como uma boa educação em casa, boa formação, boas comunidades, capazes de tornar as pessoas menos egoístas e fazer com que se importem mais com os outros. Com o tempo, aprendemos essas lições de tal maneira que acabamos as internalizando. As lições se tornam parte de nossos sentimentos, fazem com que nos preocupemos com os outros.

Mas, quando se trata da sociedade de forma mais ampla, onde temos pessoas com posturas distintas em relação às mesmas coisas - em uma comunidade, você aprende que ser gay é algo terrível e, em outra, você aprende que não tem problema algum - então, precisamos decidir enquanto sociedade se há problema ou não. Então, as intuições das pessoas entram em choque e a intuição de alguém acabará prevalecendo.

Porém, a dúvida é se podemos fazer com que as intuições “certas” prevaleçam. A dúvida é o que significa “intuições certas”: são certas em um sentido objetivo mais amplo, são a vontade de Deus, ou existe outro entendimento do que é certo?

Minha esperança é que possamos alcançar um entendimento mútuo sobre o que é bom, em que nosso ponto comum não sejam nossas diferentes crenças religiosas, aquilo que vem de nossas tribos separadas, mas antes nossa capacidade comum de sofrermos ou de sermos felizes.

No mundo todo, independentemente do que as pessoas acreditam querer, o que desejam é uma boa qualidade de vida para si e para aqueles com quem se importam. O que elas querem é evitar o sofrimento de si mesmas e das pessoas com quem se importam.

Esse é o elemento mais básico que temos em comum. Se focarmos nisso, teremos a nossa melhor chance de resolver nossas discordâncias tribais, de resolver nossos instintos diferentes de forma positiva.

É possível controlar a emoção e utilizar mais a razão em debates sobre os grandes dilemas morais da atualidade? Ou estaremos fadados à tendência de defender com paixão aquilo que acreditamos, mesmo que prejudique outras pessoas?

Joshua Greene: Fazemos um pouco de cada coisa. Na maior parte do tempo, a maioria das pessoas têm sentimentos e estão bem dispostas a defendê-los. Mas, se você observar um período histórico mais longo, verá que os sentimentos podem mudar e que um bom debate pode prevalecer.

Assim, você pode ter uma sociedade com muito preconceito contra um determinado grupo e as pessoas buscarão racionalizar esse comportamento. Porém, com o tempo, o preconceito diminui. Hoje, nos Estados Unidos, o maior problema em termos de preconceito se dá na forma com que a maioria de cristãos brancos vê as pessoas negras ou a maneira como veem pessoas de outras religiões, como muçulmanos.

Contudo, se você olhar a história em retrospecto, verá que existem preconceitos que as pessoas costumavam ter e que hoje são inconcebíveis. Houve uma época em que os italianos ou as pessoas de descendência irlandesa eram consideradas cidadãos de segunda classe. Hoje, todos os veem simplesmente como norte-americanos.

Então, em determinado momento, tenho a impressão de que as pessoas estão simplesmente usando os seus preconceitos, mas, se utilizarmos bons argumentos, se levarmos essas ideias ao público, com o tempo, com cada nova geração, esses sentimentos vão diminuir até que sentimentos mais abertos e humanitários se tornarão o senso comum.

ASSISTA TAMBÉM | Joshua Greene – O ponto de partida para questões morais

Mesmo em meio a tantas discordâncias, valores e interesses diferentes, questões controversas precisam encontrar uma solução. Há dois maneiras para que o ser humano responda estas difíceis perguntas, aponta Joshua Greene neste vídeo exclusivo.

Para explicar estes caminhos, o professor e pesquisador de Harvard reflete sobre a possibilidade de uma moral absoluta e sobre a base comum da existência humana, as capacidades que todos nós compartilharíamos.

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