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Joshua Greene: "Resolver problemas como o aquecimento global requer cooperação em escala global"

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Joshua Greene é o conferencista do Fronteiras São Paulo no dia 30 de maio.
Joshua Greene é o conferencista do Fronteiras São Paulo no dia 30 de maio.

Joshua Greene tem transformado o estudo da moralidade ao escanear cérebros enquanto apresenta desafios éticos para os participantes de suas pesquisas. A partir de seus experimentos, Greene fez algumas descobertas reveladoras sobre como indivíduos contemplam temas que envolvem conceitos de "certo" ou "errado" e sobre como diferentes redes neurais respondem de formas diferentes, dependendo do grau de envolvimento da pessoa no dilema ao qual é exposta.

O que é surpreendente em sua obra, Moral Tribes, é a evolução do foco no indivíduo para o coletivo. Greene, que dirige o Laboratório de Cognição de Harvard, argumenta que compreender o funcionamento da moralidade não é criar um guia para o indivíduo. Compreender a moralidade é apontar caminhos para as pessoas serem capazes de criar grandes sociedades e vidas comunitárias. Ainda, para que as comunidades consigam interagir de forma eficaz umas com as outras. Para Greene, trata-se de uma questão sobre o futuro da sociedade. “Resolver problemas como o aquecimento global requer cooperação em escala global”, diz o cientista. “A lealdade, remanescente das comunidades mais primitivas, pode ajudar colocar as coisas no caminho certo.”

O que é a moral?
Joshua Greene:
A moral diz respeito às regras – tanto as explícitas quanto as implícitas – que governam nosso comportamento. As emoções morais, como raiva, culpa, vergonha, repugnância, empatia, gratidão e admiração, são incentivos e recompensas psicológicas que ajudam a controlar nosso comportamento social.

Como?
Joshua Greene: A função geral da moral é guiar a ação de forma intuitiva, inconsciente. As emoções fazem o raciocínio para você de maneira que não seja preciso perder tempo pensando, para que não se corra o risco de cometer um erro que nos prejudique. As emoções disparam os alarmes que dizem “Não vá lá!” ou “Ajude aquela pessoa agora!”. Eu também acho que quando nós dizemos que é melhor salvar cinco vidas em vez de uma, essa relação de 5 para 1 é representada de alguma forma emocional no cérebro.

Em seus estudos, o senhor afirma que os seres humanos são dotados de um senso moral inato. Quais são as evidências que apoiam essa tese?
Joshua Greene: Há evidências que apoiam firmemente a tese de que a moral humana tem importantes componentes inatos. Quando você olha para os nossos parentes vivos mais próximos – os chimpanzés e os bonobos – parece que eles têm vidas sociais complexas e são governados pelos mesmos tipos de emoções que governam nossas vidas sociais. A explicação mais simples para esssa convergência é que nós dividimos um ancestral comum que tinha determinadas características morais ou proto-morais. Também há padrões interessantes entre culturas que são consistentes com o aspecto inato da moral. Por exemplo, trabalhos do laboratório do psicólogo Marc Hauser, também da Universidade Harvard, mostraram que as pessoas do mundo todo distinguem entre ferir alguém propositalmente em relação a ferir alguém como a consequência colateral de um outro ato. Apesar de as próprias pessoas não entenderem por que fazem essa distinção.

As pesquisas realizadas pelo senhor, usando imagens de ressonância magnética do cérebro, também sugerem que já nascemos com um senso moral?
Joshua Greene: Sim, meu próprio trabalho mostra que os julgamentos morais dependem tanto de sistemas neurais ligados à emoção quanto a outro relacionados à cognição, ao raciocínio lógico. Essa separação entre emoção e cognição não é única aos humanos. Ela é construída em estruturas do nosso cérebro, que dependem dos nosso genes. Portanto, a moral humana não poderia ser o que é se não fossem os fatores genéticos que produziram essas estruturas.

O envolvimento de emoções no julgamento moral prova que a moral é biológica e não construída pela sociedade?
Joshua Greene: Isso não é uma prova de nada. E de alguma maneira a moral precisa ser biológica porque todo comportamento é uma atividade cerebral. Mas você pode não pode aprender a capacidade a experienciar uma emoção.

Se a moral é inata, como explicar as diferenças entre culturas e até entre gerações?
Joshua Greene: Do mesmo modo como a linguagem varia de cultura para cultura e de pessoa para pessoa. A capacidade para aprender a linguagem é inata e é provável que algumas características específicas da linguagem humana também sejam. Mas isso não significa que todo mundo vai sair do útero falando inglês ou chinês. A língua precisa ser aprendida.

Como o ambiente e a cultura influenciam na moral? Como explicar, por exemplo, que o racismo e a escravidão tenham sido aceitos durante determinados períodos da História e hoje sejam totalmente abominados?
Joshua Greene:
Essa é uma grande pergunta, eu gostaria de saber a resposta. Eu acho que isso tem em parte a ver com o escopo da moral. Muito do que nós pensamos como progressos morais não são tanto mudanças na moral básica, mas alterações na nossa percepção do que está dentro dos limites da moral, de quem é considerado pela moral.

Por que a discussão sobre a origem moral é importante hoje?
Joshua Greene: Resolver problemas como o aquecimento global requer cooperação em escala global. A lealdade, remanescente da comunidades mais primitivas, pode ajudar colocar as coisas no caminho certo.

(Entrevista via Época)