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Karen Armstrong fala de seu mais recente livro "Fields of Blood"

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"Mahatma Gandhi, Dorothy Day, Martin Luther King, Jr., Nelson Mandela e Desmond Tutu. Por pior que esteja, o mundo estaria em muito pior estado nos dias de hoje sem eles. Nem todos foram santos; como a maioria de nós, eles tinham defeitos, mas as suas vidas nos lembram do que uma pessoa é capaz de fazer para superar aparentes barreiras insuperáveis de ódio." - Karen Armstrong

Karen Armstrong passou sete anos em um convento. Hoje, a ex-freira é considerada uma das principais especialistas em temas de religião, em particular sobre judaísmo, cristianismo e islamismo.

Em seu mais recente livro, Fields of Blood, ela argumenta que a religião não merece toda a culpa pela violência que o mundo vive hoje ou pela violência presente na história do desenvolvimento do mundo. Na entrevista a seguir, concedida ao jornal The New York Times, Armstrong conta sobre os motivos que a inspiraram a escrever o livro, sua reação aos acontecimentos do 11 de Setembro e sobre o passado da religião. Confira alguns trechos da entrevista.

The New York Times: Você escreveu muitos livros sobre vários aspectos da religião. Houve algo em particular que a inspirou a escrever sobre religião e violência?
Karen Armstrong: Desde o 11 de Setembro me pedem que comente as atrocidades motivadas por religião que regularmente pontuam nossas notícias. Repetidamente, sou informada categoricamente de que a religião tende cronicamente à violência e tem até sido a causa de todas as maiores guerras da história – uma observação estranha, já que as duas Grandes Guerras Mundiais foram claramente travadas devido a um nacionalismo secular e não por religião. Entretanto, a agressividade da religião é comumente tida como um fato evidente por si próprio e parece central para a nossa consciência secular ocidental. Eu mesma costumava acreditar nisso, mas, através dos anos, o meu estudo da fé mundial me convenceu de que precisamos urgentemente reavaliar essa ideia preconcebida e ganhar uma percepção mais precisa da nossa difícil situação neste mundo perigosamente polarizado.

The New York Times: Você escreveu no início que a concepção ocidental do termo “religião" é “idiossincrática e excêntrica". O que você quer dizer com isso? E como isso influencia o resto do seu pensamento?
Karen Armstrong
: Nossa noção ocidental de religião enquanto uma busca individual, um conjunto codificado de crenças e práticas que estava essencialmente separado de todas as outras atividades, foi uma inovação radical. Nenhuma outra cultura teve nada como isso e muitas pessoas nos países não ocidentais ainda a acham estranha e perversa. Até por volta de 1700, a religião permeou tão completamente a totalidade da vida, que tirar “religião" de “política" seria como tentar extrair o gin de um coquetel. Portanto, no meu livro eu argumento ser impossível afirmar que a religião foi historicamente responsável por mais violência que qualquer outra instituição, uma vez que antes do período moderno não havia atividades seculares.

The New York Times: Se os gregos, romanos e outros não separavam a religião da vida secular, se elas eram distinguíveis de várias formas, por que a religião não pode ser tão facilmente culpada (ou creditada) quanto a política pelos desenvolvimentos da história recente?
Karen Armstrong
: Ela certamente pode. Porque religião e política eram inseparáveis, estavam inevitavelmente implicadas na guerra e na coerção que caracterizavam qualquer Estado. Não estou afirmando que a religião nunca teve culpa, mas simplesmente que ela nunca foi a única ou até a principal causa de violência de Estado ou de terrorismo. Outros fatores: políticos, econômicos, sociais, pessoais – sempre estiveram envolvidos e devem ser levados em conta. Isso ainda é verdade hoje: se quisermos mudar corações e mentes, necessitamos descobrir o que de fato está neles e não simplesmente o que pensamos que deveria estar.

The New York Times: Você tem sido franca a respeito do comediante Bill Maher, o escritor Sam Harris e outras pessoas proeminentes que se opõem a religião em geral e têm criticado o Islã dos dias atuais. Você pensa que há justificativa em criticar a direção de uma fé ou algumas de suas declarações públicas? Ou isso tem sido sempre um problema político no fundo?
Karen Armstrong
: Temos o dever de falar claramente quando encontramos injustiça, crueldade ou corrupção – seja religiosa ou secular –, mas devemos fazê-lo com imparcialidade, precisão e justiça. (Sei muito pouco sobre Bill Maher; a história não recebeu muita cobertura no Reino Unido. Mas o incidente me foi rapidamente explicado em uma entrevista). Se falarmos com o objetivo de ferir, tornaremos a situação pior: em minha pesquisa, descobri que, quando um grupo fundamentalista é atacado, ele invariavelmente se torna mais extremo. Meu problema com alguns dos atuais críticos do Islã é que seu criticismo não é preciso, justo ou bem informado. Tenho certeza de que eles não tinham essa intenção, mas, na Europa dos anos de 1930 e 1940, aprendemos o quão perigoso e, em última análise, destrutivo esse tipo de discurso pode ser.

The New York Times: Você escreve que as Cruzadas foram “certamente inspiradas em convicções religiosas", mas outros fatores estavam envolvidos. É esse o caso mais claro de violência inspirada em religião na História?
Karen Armstrong
: Curiosamente, após a primeira Cruzada, a religiosidade tendeu a ser substituída por interesses mais materiais, e, por volta do século XIII, o impacto político de uma Cruzada na Europa era normalmente mais importante do que o resultado na Terra Santa. Contemporâneos acreditavam que as “Guerras de Religião" dos séculos XVI e XVII foram as mais devastadoras guerras já travadas pela fé, já que foram totalmente inspiradas por disputas teológicas da Reforma. Entretanto, católicos e protestantes frequentemente lutavam pelo mesmo lado; essas também foram guerras políticas que determinaram a configuração da Europa moderna.

The New York Times: Você também afirma que as Cruzadas foram influenciadas por “uma mitologia cristã distorcida". O que você diria aos críticos que venham a argumentar que é trapacear em uma discussão como essa quando se diz que crenças religiosas foram “distorcidas" e quando não foram?
Karen Armstrong
: Verdade, qualquer tradição possui múltiplas formas, seja ela secular ou religiosa: nunca é possível falar de um cristianismo ou um Islã “essencial". Entretanto, algumas interpretações são mais autênticas que outras: os cruzados convenientemente esqueceram que Jesus disse aos seus seguidores para amarem seus inimigos, e não exterminá-los. No entanto, tais falhas não invalidam uma tradição por completo. A teoria dos direitos humanos naturais foi uma realização triunfante, apesar do fato de que seus primeiros defensores – Thomas More, Alberico Gentili e John Locke – se recusavam a estender esses direitos aos povos nativos do Novo Mundo.

The New York Times: Em que ponto da história a vida religiosa e a vida secular começaram a se separar mais claramente, e desde que tempo você considera que fica mais fácil distinguir o papel de cada uma na violência ou qualquer outro fenômeno social?
Karen Armstrong
: As vidas religiosa e secular se tornaram oficialmente distintas no século XVIII, primeiramente nos Estados Unidos e então na França revolucionária. No mundo islâmico, onde a secularidade era um produto importado, isso foi imposto nos séculos XIX e XX tão rapidamente, e normalmente com tanta crueldade, que em muitos locais foi descreditada. No Oriente Médio, ainda é difícil separar a religião da política: na ideologia do Hamas, por exemplo, os temas islâmicos se fundem sem problemas com o nacionalismo secular e a ideologia de Terceiro Mundo.

The New York Times: Como podemos desembaraçar os aspectos religiosos, se é que você os enxerga, nas atrocidades em massa do século XX, incluindo o Holocausto?
Karen Armstrong
: Em alguns aspectos a nação se tornou um valor supremo: não é mais aceitável morrer pela religião, mas é admirável morrer pelo seu país. No Estado-Nação, a etnia, a cultura e o idioma podem se tornar sacralizadas, e o Holocausto foi o mais terrível exemplo do pecado que aflige o nacionalismo, a sua intolerância às minorias que não se encaixam no perfil nacional. Uma sombria revelação do que ocorre quando o sentido de santidade inviolável de cada indivíduo se perde. Na religião convencional, a cultivação da transcendência – Deus, Dao, Brahma ou Nirvana – auxiliou as pessoas a apreciarem a finitude humana. Mas se uma ideologia humana, como, por exemplo, o Comunismo, se torna o valor supremo, não há nada que possa impedir a violência por atacado do Gulag.

The New York Times: O 11 de Setembro mudou a direção do seu pensamento a respeito de religião e violência?
Karen Armstrong
: O horror do 11 de Setembro foi completamente inconcebível. Entretanto, paradoxalmente, naquele dia terrível fiquei repetindo a mim mesma: “então era disso que eu tinha medo". Eu havia publicado recentemente um livro sobre fundamentalismo, que concluiu que esses movimentos representavam “um desapontamento, alienação, ansiedade e raiva generalizados que nenhum governo poderia ignorar com segurança". Eu também estava consciente de que nós (e aqui falo enquanto britânica) estávamos implicados em resultado de nossas políticas colonialistas. Isso não era apenas problema deles; também estávamos envolvidos. Então, não houve mudança no meu pensamento, mas uma sombria confirmação e um medo, que ainda reside em mim hoje, do que pode vir a ocorrer.

The New York Times: Que sinais de esperança você vê em um mundo que normalmente parece violentamente divido por diferenças entre os povos, incluindo, mas não se limitando à religiosidade?
Karen Armstrong
: De muitas formas, o século XX foi um século terrível, mas houve gigantes que efetivamente deram voz ao ideal de compaixão, o que foi uma força tão potente na história da religião quanto qualquer guerra santa: Mahatma Gandhi, Dorothy Day, Martin Luther King, Jr., Nelson Mandela e Desmond Tutu. Por pior que esteja, o mundo estaria em muito pior estado nos dias de hoje sem eles. Nem todos foram santos; como a maioria de nós, eles tinham defeitos, mas as suas vidas nos lembram do que uma pessoa é capaz de fazer para superar aparentes barreiras insuperáveis de ódio.