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Laís Bodanzky: “A arte contribui para formar um cidadão mais crítico, que sabe debater ideias”

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Quem trabalha com arte no Brasil por vezes é levado a desbravar o outro lado do balcão, onde se move o aparato burocrático responsável por gerir políticas públicas voltadas à área da cultura. Foi o que fez a cineasta Laís Bodanzky, que encerrou em junho de 2021 seu mandato de dois anos na presidência da Spcine, empresa da prefeitura de São Paulo voltada ao desenvolvimento dos setores de cinema, televisão, games e novas mídias. 

Diretora de títulos importantes e premiados do cinema nacional, entre eles “Bicho de Sete Cabeças”, “Chega de Saudade” e “Como Nossos Pais”, Laís se dedica agora à finalização de seu próximo longa-metragem, “A Viagem de Pedro”, drama histórico intimista estrelado por Cauã Reymond, no qual ela parte de um roteiro original para reinventar um episódio real: o que teria ocorrido a bordo do navio que levou Dom Pedro I de volta a Portugal, em 1831, após o monarca abdicar o trono do Brasil em favor de seu filho Dom Pedro II.

Em entrevista exclusiva ao Fronteiras do Pensamento, Laís fala sobre sua experiência como gestora pública, avalia a situação do setor audiovisual no Brasil e adianta detalhes de seu primeiro filme de época, ainda sem previsão de lançamento.

Que balanço você faz desta experiência de trocar de lado no balcão, de cineasta e produtora que deixa o set para atuar como gestora de políticas do setor audiovisual à frente da Spcine, justo num período de impasses do setor junto ao governo federal e de paralisação das atividades por conta da pandemia?

Eu sempre estive envolvida, desde a faculdade, no debate sobre políticas públicas para o audiovisual. Quando recebi o convite para dirigir a Spcine, eu me senti no dever, me senti capaz. Em paralelo com meu lado realizadora, eu desenvolvi junto com o Luiz Bolognesi o projeto Tela Brasil, de exibição e educação audiovisual nas periferias do Brasil durante 15 anos. Eu tinha esse foco na importância da educação audiovisual, de dar espaço para novos realizadores criativos, que não têm recursos, não têm acesso aos cursos, às ferramentas, achava que de uma certa forma é um tipo de política pública. A gente tem a imagem de que o poder público é essa coisa abstrata, que vai lá alguém e faz acontecer. Na verdade, somos nós mesmos que vamos para o lado de lá e depois voltamos para o lado de cá. É muito importante que tenham pessoas específicas das áreas ocupando esses cargos técnicos. A área do audiovisual sempre foi muito engajada, no sentido de organizar políticas cinematográficas. Os cineastas nunca foram só artistas, produtores de bens culturais. Por ser uma arte que é uma indústria, que envolve muita gente, e naturalmente envolve muitos recursos, o cinema sempre foi muito organizado politicamente para garantir justamente uma parceria com o poder público. Não foi do nada que surgiu a Agência Nacional de Cinema (Ancine), foi fruto de três anos de Congresso Brasileiro de Cinema, debatendo, estudando, estruturando o que a indústria do audiovisual precisava para se firmar de vez, uma vez que ela vinha de um grande trauma que foi o fim da Embrafilme, na era Collor, em se fechou as portas sem colocar absolutamente nenhum projeto no lugar. O cinema brasileiro e os artistas sempre foram engajados. Um exemplo é o Glauber Rocha, que durante a ditadura não deixou em nenhum momento de dialogar com o poder público e levantar recursos para os próprios filmes. 

E durante a ditadura, com a Embrafilme, foram realizados grandes filmes brasileiros.

Exatamente, filmes importantíssimos para nossa cinematografia. As pessoas que trabalhavam na Embrafilme eram do próprio setor, não chegou gente que não entendia do assunto. Então, a minha ida para a Spcine, foi um movimento natural. Como é um setor muito complexo, é importante que tenham pessoas ali que entendam do assunto, para fazer um desenho mais próximo do que seria o ideal, mas nunca é o ideal. Como realizadora e produtora, eu fiz a ponte, consegui explicar para a prefeitura a importância dessa indústria e me escutaram. O contrário também foi muito importante, entender como funciona a máquina pública e explicar para o setor o que é possível realizar dentro de determinadas regras, que são também muito rigorosas. Esse diálogo, quando a gente tem uma pessoa do setor ocupando o outro lado do balcão, é muito importante, é muito saudável. Um exemplo contrário disso é o que acabou de acontecer na Cinemateca Brasileira, quando você coloca pessoas que vão lá cumprir apenas a formalização de um cargo e não entendem do que se trata. O incêndio é muito simbólico em relação a isso. Não adianta falar “ah, vamos fazer manutenção do ar-condicionado”. Tem de saber quem está fazendo a manutenção. Se você não entende do material que está ali dentro, não sabe o que fazer na hora do incêndio. É uma área muito especializada. 

Você mencionou o projeto de cinema itinerante Tela Brasil. Qual a importância de iniciativas como essa na educação e formação de espectadores que não têm acesso à experiência do cinema?

O audiovisual é contemporâneo desta sociedade de telas. Levar o audiovisual para a escola como ferramenta é muito importante, independentemente de falar “queremos que surjam novos artistas, novos cineastas”. Não precisa surgir novos artistas nem novos cineastas. A arte contribui para formar um cidadão mais crítico, um cidadão com opinião, que sabe debater ideias. O cinema é uma ferramenta perfeita porque quando você assiste a um filme, além do entretenimento, ele traz algum conteúdo sobre o qual você pode conversar. A discussão de pontos de vista torna um cidadão mais atuante, mais consciente. A Spcine já tinha, e a gente deu continuidade, 20 salas de cinemas nas periferias de São Paulo, dentro das escolas. É um projeto único na América Latina, porque você tem um circuito na periferia com a qualidade do cinema de shopping, com a mesma tecnologia das salas comerciais. 

Como você avalia o impacto da pandemia no setor audiovisual?

O audiovisual foi a área que mais sofreu, mas também foi a que mais lucrou. Se você pegar as 10 empresas que mais lucraram na pandemia, no mundo, tem duas plataformas de streaming. É muito dinheiro. E as plataformas estão no Brasil porque o país é o quinto mercado consumidor de audiovisual no mundo. A gente contribui para esse lucro e nada mais justo que esse lucro também fosse revertido para nossa indústria, mas como não tem a regulação do vídeo sobre demanda no Brasil esse não é um tema. As plataformas perceberam que o brasileiro gosta muito de produção nacional. A gente já sabia disso. Na TV aberta, quando passa um filme brasileiro, é recorde de audiência. As plataformas estão cada vez mais contratando produções brasileiras para o público brasileiro. Então, o audiovisual no Brasil continua sendo feito. A diferença é que os criativos dessas produções trabalham como prestadores de serviço e não participam nem da propriedade intelectual, nem patrimonial desses produtos. 

Nem quando esta produção feita no Brasil, com profissionais brasileiros, circula pelo mundo todo? 

Zero participação. No cinema, eu decido o destino do meu filme, vai ser meu filme para sempre. Mas, uma vez que eu faça para uma plataforma de streaming, ele não me pertence mais. E as plataformas, como estão chegando, não conhecem as produtoras. Elegeram mais ou menos umas 10 produtoras brasileiras e contratam sempre as mesmas. E as outras produtoras, que não estão conseguindo mais fazer a sua produção independente, porque a Ancine está parada, o Fundo Setorial está tá parado, estão fechando suas portas. A produção independente de um país precisa existir porque é também um pensamento independente, é um discurso independente. Quando a gente deixa a escolha dos projetos ser feita pelas plataformas de streaming, aí você tem uma curadoria. Elas vão decidir o que tem que ser feito, você não tem uma produção espontânea, um pensamento espontâneo que é o que justamente torna uma indústria fértil, porque o audiovisual precisa do risco, precisa do novo e a ousadia normalmente vem da produção independente. 

Como você destacou, o setor audiovisual passa no Brasil por uma fase de letargia em relação às políticas de fomento gerenciadas pelo governo federal, assim como todo o setor cultural. Qual sua avaliação sobre esse quadro?

Governos inteligentes e mais antenados com o que está acontecendo na economia no mundo percebem que a economia criativa pode ser o carro-chefe de um país. A Coreia do Sul assumiu a economia criativa como a sua primeira economia, também a Inglaterra, a Colômbia. Tem um valor simbólico, que é muito importante, mas também tem o valor econômico. No Brasil, a economia criativa contribui com cerca de 3% do PIB, é muita coisa. Com um olhar inteligente, sem esse olhar meio tosco do atual governo para a cultura, você pega o exemplo de Nova York, que criou uma film commission e começou a atrair filmagens para a cidade, através de incentivos. A cidade começou a ser filmada porque os produtores querem filmar onde é mais barato. E todo mundo conhece Nova York mesmo sem nunca ter pisado lá. Os restaurantes ganharam, os hotéis ganharam. Todo mundo ganha. E não tem nada a ver com ser de direita ou de esquerda. Um governo de direita deve valorizar a cultura, valorizar o seu audiovisual tanto quanto um governo de esquerda. Grudou essa bobagem de que a cultura é da esquerda, e aí vem um governo de extrema-direita que quer aniquilar a cultura por achar que a cultura é da esquerda. A cultura pertence ao país.

Diante da explosão do consumo de filmes e séries via streaming, e com os cinemas ainda com restrições para receber público em muitos países, você acredita que o mercado audiovisual irá se direcionar cada vez mais para as plataformas digitais?

Já era uma tendência, a pandemia só pisou no acelerador. Não dá, você não segura uma indústria desse tamanho. O público quer e esse encontro é natural e espontâneo. E as plataformas perceberam que não devem mais produzir apenas séries, mas filmes também, a experiência de uma história curta com começo, meio e fim, de uma hora e meia, duas horas de duração. É um formato muito interessante porque traz muito glamour, e as plataformas precisam do glamour do cinema, por isso elas querem invadir o tapete vermelho do Oscar.

O cinema tradicional, segundo especialistas, deve seguir como palco para grandes lançamentos e também como espaço para nichos cinéfilos. Você concorda?

Sinceramente, eu acredito sim. A gente não pode esquecer que o cinema surgiu dentro de um parque de diversões, como mais um brinquedo. Só que aí ele foi crescendo para além do parque e virou também um cinema de reflexão, de debate. A tendência é de que você tenha sim o formato presencial para grandes eventos ou então no formato cinemateca para esses cinéfilos que querem fazer uma reflexão para além do entretenimento, um público mais restrito mesmo. Agora, não acho que a produção independente vá desaparecer, ela vai ser consumida também dentro de casa.

Você está com um filme novo a caminho, “A Viagem de Pedro”, realizado antes da pandemia. Após ficar conhecida com suas tramas urbanas contemporâneas, o que a levou a dirigir um drama histórico, com os desafios de produção que um filme de época exige?

Eu sempre tive esse desejo de fazer um filme de época, foi uma das coisas que me atraiu, não para reproduzir um fato histórico, mas fazer uma reflexão sobre o comportamento de uma época. O meu cinema é um cinema, muitas vezes, de personagem. Eu me debrucei sobre o Dom Pedro I, queria entender ele. É a viagem deste homem em crise, em seu momento de reflexão. Foi interessante entender também que muitas questões daquela época são atuais. O filme não tem nenhuma pretensão de reproduzir fatos históricos, aliás não reproduz nenhum. É totalmente intimista, a gente fica dentro de um barco com o personagem. Essa viagem de volta à Europa é um dos poucos momentos da vida dele que ninguém registrou. De certa forma, eu usufruí da liberdade de poder imaginar o que teria acontecido nessa viagem. Se você pegar os livros de história, eles falam “a nau partir e ele chegou na Europa”. Nas entrelinhas entre um parágrafo e outro eu fiz um filme.