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Leandro Valiati: “É triste ver que parte da sociedade ataca seus próprios valores culturais em um processo autodestrutivo”

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Leandro Valiati cumpre uma reconhecida trajetória acadêmica e profissional defendendo a economia criativa como uma peça fundamental na engrenagem do desenvolvimento econômico e social do Brasil. É um setor que movimenta por ano mais de R$ 170 bilhões, segundo mapeamento realizado em 2018 pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan).

O economista gaúcho projetou-se nacionalmente como referência nesta área coordenando o Núcleo de Estudos em Economia Criativa e da Cultura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e hoje vive na Inglaterra, onde é professor e pesquisador em Gestão de Artes e Indústrias Criativas no Instituto de Práticas Culturais da Universidade de Manchester – sua formação inclui passagens também por instituições da França e da Espanha.

O segmento da economia criativa é amplo e capilarizado. Tem como parte mais visível as atividades relacionadas ao entretenimento, mas abriga atividades que vão do design à tecnologia. Em entrevista exclusiva ao Fronteiras do Pensamento, Valiati comenta o forte impacto da pandemia de coronavírus no setor, um dos últimos que deverá se recompor de forma efetiva, e analisa a importância das políticas públicas voltadas à produção cultural.

Quanto a linha de produção e consumo da economia criativa movimenta no Brasil e como esse valor se posiciona entre os outros índices do mapa econômico?

Eu prefiro tratar esse segmento econômico como Indústrias Criativas, tendo em vista que o termo Economia Criativa nos leva muito mais a um processo do capitalismo contemporâneo do que a um segmento produtivo específico. Considerando os setores econômicos correspondentes a atividades culturais (música, teatro, cinema, dança, arte contemporânea, entre outros), atividades ligadas à produção simbólica de valor agregado à tecnologia (publicidade, software, games, moda etc) e ao patrimônio, temos um montante de alta expressividade, correspondendo a aproximadamente 3% do valor agregado ao PIB na economia nacional. Em relação ao mercado de trabalho, estamos falando de 5 milhões de empregos em 150 mil empresas. Mas o principal impacto não se revela exatamente nos números, há certamente subdimensionamento por conta de dificuldades estatísticas e de captura das especificidades setoriais. O impacto mais relevante é o de que essas atividades estão conectadas com tendências avançadas da economia contemporânea, representando setores que têm uma conexão direta com novas tecnologias de informação e comunicação, qualidade no mercado de trabalho, salários mais altos, posição mais alta nas cadeias globais de valor e alta produtividade.

 É possível estimar os prejuízos do setor com a paralisação das atividades em razão da pandemia? 

As estimativas ainda não são precisas, mas a tendência é grave. Há um fechamento de empresas muito acentuado, queda quase absoluta na venda de ingressos e falência do modelo de negócios de financiamento estatal. As consequências já são graves e serão ainda mais em uma retomada econômica pouco planejada no pós-pandemia, especialmente para o setor cultural. Contudo, há laços entre o setor cultural e outros setores da economia muito importantes, como turismo, publicidade, serviços, por exemplo, que fazem com que a crise da cultura afete outros setores econômicos. Há pouca clareza sobre isso no debate local, com muitos riscos para cidades menores.

 O que sustenta existir no Brasil a percepção de que investimento público em cultura desassiste, numa outra ponta, áreas como saúde e educação?

É uma visão míope e atrasada. Em um primeiro nível, não faz sentido pensar em uma política pública competitiva entre distintas áreas, pois sempre há complementaridades intersetoriais relevantes. Em um segundo nível, há claras evidências e estratégias em diversos países sobre a relação positiva entre arte e saúde mental (estudos indicam que a economia em recursos gastos em atendimento de saúde é expressiva quando práticas artísticas são incluídas no protocolo de tratamento) e excelência na educação (arte, games, consumo cultural são ferramentas de extrema importância para o conhecimento e educação de qualidade). Ainda, há evidências de que espaços culturais promovem a mudança do perfil de cidades e bairros, diminuindo a violência e ampliando ganhos em serviços e no setor imobiliário. Enfim, cultura e arte irrigam a economia e promovem valores multidimensionais amplos para uma sociedade.

 Na Inglaterra, onde o senhor vive, existe um modelo de inserção da cultura na sociedade visto como modelar. Redes de comunicação públicas como a BBC, na TV e na rádio, sempre fomentaram e difundiram a música, o cinema, a literatura e o teatro nacionais. Por que esse modelo de serviço público nunca foi expressivo no Brasil?

Acredito que existem vários caminhos para a valorização da arte local. Um sistema público de disseminação, como a BBC por exemplo, abre espaços importantes do autoconhecimento dentro do país e de seus valores. Por outro lado, o sistema brasileiro, majoritariamente privado, é de alta qualidade técnica e de conteúdo, o que indica que um sistema de regulação que abra mais espaço para conteúdo local poderia ser mais eficiente.

 Na sua avaliação, por que se criou no Brasil, sobretudo no atual governo, essa relação de hostilidade contra a cultura e os artistas, emaranhados na polarização política que rachou o país?

Os artistas têm naturalmente voz ativa e visibilidade pública e em redes sociais, e isso os torna alvo majoritário de um sistema polarizado. É triste ver que parte da sociedade ataca seus próprios valores culturais em um processo autodestrutivo. O Brasil é o país da tolerância, da diversidade e da criatividade e acredito que esses valores vencerão a fase de trevas.

 De que forma os mecanismos de fomento cultural da União, Estados e municípios podem ser aperfeiçoados, em vez de eliminados?

Não é de hoje que o país precisa de uma revisão profunda do sistema de fomento público à cultura, para torná-lo mais eficiente, democrático, estruturante e com sistemas de controle mais ágeis. Contudo, esse tipo de discussão reduzida a alguns casos de corrupção, que devem ser punidos exemplarmente, e julgamento subjetivo de conteúdo, o intervencionismo, vão em direção oposta a isso, contribuindo ainda mais para a crise e falência do modelo. 

 Entidades privadas, de grandes empresas a igrejas, fazem uso da renúncia fiscal. Curiosamente, tem quem diga que não quer “seu dinheiro” apoiando uma exposição da arte, mas ignora que este dinheiro também pode socorrer empresas com má gestão. É uma comparação pertinente?

Totalmente. Acredito que seria muito saudável que todos os benefícios fiscais da economia brasileira se tornassem tema de discussão, assim como os da cultura, que, diga-se, é um dos últimos setores dessa lista em termos de renúncia fiscal.

Nos países que já retomaram os grandes eventos, o risco de um passo atrás em razão de novas variantes do coronavírus lhe parece real? 

A incapacidade de prever o comportamento da pandemia só permite análises de curtíssimo prazo. Nesse mês em que converso com você, agosto de 2021, os eventos no Reino Unido continuam acontecendo mesmo com a variante Delta, mas ressalte-se que mais de 60% da população já conta com vacinação completa, as duas doses.

 Após tantos meses diante de telas, as pessoas tendem a buscar a interação coletiva numa plateia ou podem consolidar a acomodação de se divertir sem sair de casa?

Não voltaremos ao mesmo lugar pré-pandemia, isso é certo. Contudo, a experiência coletiva ao vivo jamais será substituída. Acredito que chegaremos a um modelo híbrido com aumento do consumo cultural de forma horizontal entre online e ao vivo. 

 A pandemia abriu novas frentes para o entretenimento via plataformas digitais, como as lives musicais e os espetáculos teatrais online. O público em isolamento social gostou, mas o resultado se mostrou frustrante para artistas que não contaram com patrocínio, diante da dificuldade de monetizar seu trabalho. Este modelo poderia ser aperfeiçoado para conviver com os eventos presenciais?

Isso é uma questão de política pública. Há um desequilíbrio muito grande na capacidade de acesso e monetização nas plataformas digitais entre diferentes artistas. Há uma vital necessidade de apoio e democratização na oferta, assim como na demanda. Na minha visão, a regulação e o equilíbrio nesses novos mercados é o grande tema para a política pública de financiamento à cultura para o pós-pandemia.

 Os pequenos e médios exibidores de cinema sentem seu negócio ameaçado pela nova dinâmica de lançamentos nas plataformas digitais imposta pela pandemia. Ainda é cedo para dizer, como tantas vezes já se disse, que o cinema como conhecemos não será mais o mesmo? 

Acredito que é muito cedo. Tenho visto uma retomada importante do cinema em sua reabertura. Me parece que, assim como as plataformas de streaming não inviabilizam a música ao vivo, o cinema segue o mesmo caminho. Mas claro, há que se pensar o modelo da estrutura de exibição.

  De países como França e Argentina podemos pegar como exemplos mecanismos de proteção e estímulo ao cinema local. O setor audiovisual brasileiro projetou-se muito nas últimas décadas com a atuação reguladora da Ancine e os mecanismos de fomento como o Fundo Setorial. Mas, assim como na antiga Lei Rouanet, problemas pontuais são usados para justificar a quase paralisação do setor. Haverá luz para esse impasse?

Acredito que o impasse tem três níveis. Um deles é o técnico (controle), que precisa ser resolvido e amparado pela legislação. Outro é o conceitual: a Ancine é uma agência de regulação, mas também de fomento, na minha visão. Deve então se posicionar como tal, procurando soluções para além de sua responsabilidade fiscalizatória. O terceiro, e mais importante, é o político: os policy makers (gestores de políticas públicas) do Brasil precisam ter noção da força econômica da indústria audiovisual e entender que têm responsabilidade de manter esse setor ativo na economia brasileira.

 Por que se vê pouco no Brasil a prática do patrocínio direto e do mecenato para apoiar a cultura?

Em um sistema confuso, colapsado e que jamais criou mecanismos sólidos de coinvestimento, é natural que as empresas sejam desincentivadas a pensar em novos modelos. Quem tem responsabilidade de organizar o jogo é o governo e a partir disso não tenho dúvidas de que esse modelo prosperaria no Brasil.