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​Leïla Slimani, as mulheres e o melancólico silêncio

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Leïla Slimani aborda a violência, o silêncio e a solidão das mulheres em seus trabalhos (foto: Joel
Leïla Slimani aborda a violência, o silêncio e a solidão das mulheres em seus trabalhos (foto: Joel

Leïla Slimani foi vencedora do Prêmio Goncourt 2016 por sua segunda obra, o best-seller Canção de Ninar. O livro inicia a partir de uma história real, da babá dominicana Yoselyn Ortega, que matou as duas crianças de que cuidava em Nova York, em 2012. Nesta dura narrativa sobre a destruição de uma família, Slimani aborda as relações de poder, os preconceitos entre classes e culturas, o papel da mulher na sociedade e as cobranças envolvendo a maternidade.

Após conquistar sucesso mundial, a autora partiu para um novo projeto: transformar seu primeiro trabalho em uma ferramenta de voz para as mulheres de seu país, o Marrocos. Lançado em 2014, o elogiado Dans le Jardin de l’Ogre abordava o imenso desejo sexual de Adèle, uma mãe casada, que passa a sofrer de ninfomania. Após o lançamento, Slimani começou a receber mensagens de mulheres encorajadas a falar a partir do caso de Adèle. Estas vozes deram origem à sua primeira não ficção, lançada em 2017: Sexe et Mensonges é uma exploração da opressão sexual no Marrocos e foi baseada nos depoimentos de dezenas de mulheres. Adèle, diz Slimani, tornou-se uma metáfora extrema de muitas marroquinas, “que lutam para reconciliar a realidade de suas vidas privadas com a narrativa pública de uma vida em que todos precisam ser casados ou virgens.”

Em comum a todas as obras, um profundo questionamento da solidão e do silêncio aos quais mulheres podem vir a se sujeitar. Em entrevista, Slimani fala sobre Canção de Ninar e diz que suas obras foram criadas para abordar estas mulheres “devoradas por uma forma de melancolia, por uma forma de violência, aspectos que escondem.”

Leïla Slimani traz este silenciado universo ao Fronteiras do Pensamento 2018. Segunda convidada do ano, a autora sobe ao palco do projeto em junho. Garanta sua participação nas conferências desta edição, que propõem a temática O mundo em desacordo: democracia e guerras culturais, e que acontecem em Porto Alegre e São Paulo.


O ponto de partida para este livro foi um episódio trágico acontecido em Nova Iorque. Uma babá assassinou a criança que tinha à sua guarda. Quais foram os aspectos dessa história que a atraíram?
Leïla Slimani: Na verdade, antes da tragédia, já tinha vontade de escrever sobre a figura da babá, fazendo dela a personagem central. Por quê? Porque a ama é alguém com um papel muito particular numa família. Ela ocupa-se das crianças, ama-as, cria-as, muitas vezes ensina-as a falar, a andar, mas ao mesmo tempo está numa posição complicada, porque as crianças que vê crescer não são suas, a ama está no interior da família, mas não faz verdadeiramente parte dela. Sempre achei que nestas relações havia matéria para um romance, mas não encontrava a forma de abordar o assunto. Ao ler aquele episódio criminal, pensei: ora aí está um ponto de partida.

E é literalmente um ponto de partida. O crime de infanticídio — hediondo, brutal — é descrito nas três primeiras páginas. Por que escolheu começar assim o romance?
Leïla Slimani: Em primeiro lugar, quis captar desde logo a atenção do leitor. Colocar na sua cabeça as perguntas difíceis de responder. Por que razão decidiu aquela mulher matar as crianças? No princípio, há um efeito de choque. E esse choque vai fazer com que se queira ir mais longe na tentativa de compreender o que terá acontecido. No fundo, quis que o leitor se tornasse, ele mesmo, um investigador. A partir daí, todos os pequenos pormenores da vida cotidiana se transformam em pistas para entender o mistério. É uma investigação psicológica, mas também uma radiografia dos fatos aparentemente insignificantes do cotidiano. E com um efeito de real: tudo o que se passa na vida destas pessoas pode acontecer também na vida do leitor.

De início, Louise parece a babá perfeita. Os sinais da sua perturbação psicológica vão surgindo muito gradualmente. Esse movimento lento foi um desafio narrativo?
Leïla Slimani: Sem dúvida. Acho mesmo que foi o aspecto mais difícil do livro. Criar essa progressão, pouco a pouco, em fragmentos. Não quis que ela se tornasse inquietante de forma brusca. Há pequenos indícios de que algo de errado se passa, mas nunca sabemos bem o quê. Em termos de escrita, o principal desafio foi mostrar que a Louise não cai de repente no abismo da loucura, vai deslizando para lá.

A inquietação que o livro provoca nasce em larga medida da ausência de uma explicação razoável para o crime. 
Leïla Slimani: Para mim era a única forma de contar a história. E foi por isso que fiz questão de deixar a personalidade da babá envolta numa aura de mistério. Por muito que investiguemos, um crime destes é sempre inexplicável. Nunca conseguiremos compreender por que razão alguém chega ao ponto de matar crianças. Por outro lado, o papel de um romancista não é encontrar todas as explicações. É antes tentar reconstituir o que se passou. Cabe a cada leitor construir depois um sentido para o que é contado.

Seria fácil reduzir Louise ao estereótipo do monstro, mas o romance nunca vai por esse caminho.
Leïla Slimani: Pois não. Ela cometeu um ato monstruoso, sim, mas tem outras dimensões. É um ser humano complexo. Acho que o papel do escritor, ao contar a história de um pretenso monstro, é mostrar que ele nunca se resume ao crime que cometeu, por repugnante que seja.

Você acaba de ter um filho, neste momento com poucas semanas de vida. Quando chegar o momento, vai ser capaz de deixá-lo ao cuidado de uma babá?
Leïla Slimani: Sim. Sem problema nenhum. Há uma babá que vai se ocupar do meu filho. Ela já tratou, aliás, da minha filha. Está comigo há muitos anos. E não se parece nada, mas mesmo nada, com Louise... [risos]

Sabe por acaso se ela leu este livro?
Leïla Slimani: Leu, sim. E disse que eu era maluca por imaginar coisas tão horríveis. Mas como também leu o meu primeiro romance, já sabia que eu tenho uma imaginação muito negra.

Esse primeiro romance, Dans le Jardin de L’Ogre, tem uma protagonista — Adèle, uma mulher incapaz de controlar as suas pulsões sexuais — que escapa igualmente ao que se designa como normalidade social. O que aproxima Louise e Adèle? E o que as afasta?
Leïla Slimani: O que têm de mais próximo é a solidão. Só mostram aos outros uma aparência perfeita, doce, como se estivessem bem, quando na verdade são outra coisa, são mulheres devoradas por uma forma de melancolia, por uma forma de violência, aspectos que escondem. A diferença é que Adèle se esforça, apesar de tudo, por pertencer ao mundo dos outros. Repare que deixei o fim do livro em aberto. Não sabemos se ela vai conseguir voltar a corresponder ao que esperam dela. Adèle não tem pulsões violentas para com os outros, só para consigo. Por seu lado, Louise não conseguiu construir uma vida pessoal. Ela é capaz de um paroxismo de violência de que Adèle seria incapaz.

Você viveu metade da sua vida no Marrocos e metade na França. Considera-se mais francesa ou mais marroquina?
Leïla Slimani: Nem uma coisa nem outra. Considero-me cem por cento marroquina e cem por cento francesa. Vivo na França, mas a minha mãe continua no Marrocos. Vou lá muitas vezes. Aquela é a minha cultura, a minha comida, as minhas paisagens. Amo os dois países como amo os meus dois filhos.

Sente a pressão de ter chegado à ribalta da literatura francesa surpreendentemente depressa, ganhando o Prêmio Goncourt logo ao segundo romance?
Leïla Slimani: É preciso não pensar nisso. Fazer as coisas com sinceridade. Escrever só quando temos mesmo vontade, quando queremos mesmo dizer qualquer coisa. Não tenho a atração da ribalta, dos projetores. Eu gosto da minha vida simples, como ela é, de ter tempo para me ocupar dos filhos, viajar, estar com os amigos, divertir-me. Tenho toda uma vida fora da esfera literária. Dito isto, o Goncourt foi uma enorme, uma belíssima surpresa. Foi maravilhoso, porque me permitiu chegar a leitores a que de outra forma nunca chegaria.

(Entrevista via Expresso)