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Leymah Gbowee: Não estou interessada em ser um ornamento

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"Costumo dizer que o maior aliado na questão da violência contra a mulher é o homem. O homem não pode aceitar de outro homem a prática da violação sexual."

Prêmio Nobel da Paz, a ativista liberiana Leymah Gbowee foi encarregada de organizar o movimento que ajudou a colocar fim à Segunda Guerra Civil da Libéria (2003), Leymah ficou mundialmente conhecida como Guerreira da paz. Leia, abaixo, sua entrevista exclusiva à revista Muito

Quando criança, a liberiana Leymah Roberta Gbowee, 42, era chamada de red (vermelha), por sua pele ser mais clara do que a de outras crianças. Desde que se tornou conhecida no mundo, ganhou novo apelido: Peace Warrior, guerreira da paz. Adolescente, no início da guerra civil na Libéria – quando grupos armados tomaram o poder e nele permaneceram até 2003, deixando um saldo de 250 mil mortos e 50% da população feminina vítima de estupro –, Gbowee e sua família foram forçadas a percorrer o país, testemunhando o que ela chama de ponto de virada. “Passei de criança a adulta em poucas horas".

No final dos anos 1990, matriculada na faculdade de assistência social, Gbowee iniciou um trabalha voluntário focado na reabilitação de crianças-soldado, que seria embrião do seu ativismo. “Uma noite sonhei com uma voz que me dizia para reunir mulheres, pois, juntas, iríamos acabar com a guerra. Acordei, corri para a igreja e contei ao pastor. Ele disse: 'O sonho é seu, você deve honrá-lo'". Gbowee mobilizou centenas de liberianas para pôr fim ao conflito. Vestidas de branco, rezaram, fizeram greve de fome e sexo, ocuparam as ruas para apressar a saída do ditador Charles Taylor.

Sua história está narrada no livro Mighty be our powers (lançado pela Cia. das Letras, com o título Guerreiras da paz), no documentário Pray the Devil back to hell (Reze para o diabo voltar ao inferno - 2008), no seu discurso na entrega do Nobel da Paz – que recebeu ao lado de Ellen Johnson Sirleaf, atual presidente da Libéria, e da ativista iemenita Tawakkol Karman – e nas palestras que tem feito pelo mundo.

De que forma a condenação de Charles Taylor a 50 anos de prisão, no ano passado, repercutiu para a senhora?
Leymah Gbowee:
Houve muitos esforços diferentes na Libéria para tirar Charles Taylor do poder. As mulheres liberianas estiveram na vanguarda do movimento, porque foram nossas casas e comunidades que foram destruídas, foram as nossas crianças que foram mortas ou recrutadas e, para muitas de nós, foram nos nossos corpos que as guerras foram travadas. Muitas lutas se reuniram na Women in Peacebuilding Network (Mulheres em rede de consolidação da paz), organização que ajudei a fundar para acabar com a guerra civil liberiana.

Eu percebi que precisávamos construir coalizões entre diversas comunidades para um objetivo: a Libéria sem Charles Taylor. Entendi que a Libéria dividida apenas empoderava Taylor, dava força a ele para espalhar a discórdia, a desconfiança e a violência. Fizemos declarações públicas e transmitimos condenações tanto às negociações de paz paralisadas quanto à guerra contínua. Muitos dos nossos protestos aconteceram no Mercado do Peixe, onde mulheres locais vendiam seus produtos, onde Taylor tinha que passar todos os dias, entre o caminho de casa e o escritório executivo. Durante dias, nós protestamos, rezamos e cantamos ao sol, expondo todos os elementos para acabar com a guerra.

Como única porta-voz, eu era a face pública do protesto e chamei a atenção de Charles Taylor, do presidente do Parlamento e de outras figuras políticas, militares e religiosas para as nossas exigências. Isso culminou na exigência de uma reunião diretamente com Charles Taylor para insistir que ele também participasse das negociações pela paz. Quando soubemos que Charles Taylor iria se juntar a alguns grupos rebeldes para negociar a paz em Gana, nós juntamos o pouco que tínhamos e viajamos para o país, para garantir que tivéssemos sucesso.

Entregaram-me um discurso belíssimo para ler para Taylor, mas eu decidi que o discurso era muito estéril. Ele precisava ouvir as verdades sobre a nossa realidade. O discurso era muito político, muito bonzinho. A primeira coisa que Taylor nos ofereceu foram cadeiras, mas escolhemos sentar no chão. Eu disse a ele que estávamos sentando no chão porque “quando seus garotos vêm para atirar, não vamos correr com cadeiras. Vamos correr sem nada". Quando os líderes rebeldes tentaram fugir das negociações, colocamos pacificamente barricadas nas saídas para assegurar que eles não iriam embora. Levou muitos anos e levaram muitas mortes para colocar Taylor atrás de uma mesa, mas ele finalmente o fez. Mas, o capítulo na guerra civil da Libéria não está concluído ainda.

Taylor não foi condenado pelo inferno que ele fez a Libéria passar. Ele foi condenado por apoiar forças rebeldes que mataram milhares em Serra Leoa em seus onze anos de guerra. Então, Taylor ainda não teve de responder por seus crimes na Libéria. Acredito, de verdade, que, para a Libéria conseguir se mover pacificamente em direção ao futuro, devemos reconhecer isso de forma responsável e seguir em frente com o passado. A condenação de Charles Taylor é uma peça dessa equação, mas ainda há muitas faltando.

Para usar uma expressão do documentário Pray the Devil back to hell, “a paz é um processo, não um evento", como a senhora avalia o governo de Ellen Johnson Sirleaf, que chegou ao poder na Libéria, há dez anos, no rastro do movimento liderado pela senhora?
Leymah Gbowee:
Quase dez anos se passaram e a Libéria ainda está se recuperando da devastação causada pela guerra. Nossos setores de saúde e educação estão em extrema carência para atender 3,5 milhões de liberianos. A presidente Sirleaf foi a primeira eleita ao cargo após a guerra, com grandes esperanças de que iria romper com as administrações passadas e criar um governo responsável e transparente. Mas, como diz um velho ditado, a ausência de guerra não é paz; paz é um lugar muito mais distante de chegar e ainda não está claro se a administração de Sirleaf está disposta a enfrentar esse desafio.

E qual é a principal questão a ser resolvida na Libéria hoje?
Leymah Gbowee:
A Libéria continua a ser um dos países mais pobres do mundo. E, apesar de nossos recursos naturais, não é provável que os liberianos colherão os frutos que as corporações internacionais estão colhendo. Uma das minhas primeiras críticas à administração Sirleaf é o tipo de desenvolvimento que se tem priorizado.

Não se pode olhar apenas para a infraestrutura se as pessoas não têm o suficiente para comer. Do que adianta os jovens estarem empregados no setor corporativo se cada aluno liberiano falhou no exame de admissão para a universidade? As questões prioritárias aos liberianos, hoje, devem ser a educação de qualidade e a comida na mesa.

No ano passado, a senhora fundou a ONG Gbowee Peace Foundation. Quais as principais ações desenvolvidas atualmente?
Leymah Gbowee:
A ONG atua em duas frentes: educação e desenvolvimento de liderança. Nós provemos mais de 40 jovens com bolsas de estudos integrais para universidades na Libéria e no exterior, e também para as escolas primárias e secundárias na Libéria. Nosso modelo é fornecer suporte completo aos alunos para que eles sigam seus estudos, oferecendo transporte, livros e materiais, estágios, mentores, habitação e retirando do caminho qualquer outro obstáculo que eles possam ter. Também treinamos os jovens para ensinar a seus colegas sobre planejamento familiar. Eu viajo muito para envolver o maior número de pessoas possível sobre a paz, planejamento familiar e direitos das mulheres.

Como ativista da participação feminina na política, como a senhora vê a situação da mulher hoje, em que existem presidentes como Angela Merkel e Dilma Rousseff?
Leymah Gbowee: É verdade que surgiram algumas figuras femininas emblemáticas. Mas, quando olhamos para o número total de mulheres em posição de comando, vemos que isso ainda é muito raro. Há uma enorme lacuna na proporção de mulheres na liderança. Ainda vivemos num mundo basicamente masculino.

O movimento feminista ainda mostra força e promessa ou a senhora o vê tornar-se mais controverso e dividido?
Leymah Gbowee: O movimento feminista está vivo na África, no Oriente Médio e em muitas economias em desenvolvimento ao redor do mundo. Tanto homens como mulheres têm há muito experimentado as promessas não cumpridas de liderança e estão percebendo que as mulheres devem, no mínimo, ter um assento na mesa. Acho que, apesar dos contratempos, as mulheres continuarão a avançar. Na medida em que mais homens empurrarem suas filhas para a escola e para a construção de lares seguros, a ampliação dos direitos para as mulheres não falhará.

Países como Líbia, Síria e Egito passam hoje por crises políticas e sociais semelhantes às da Libéria do passado. Que papel a senhora acha que as mulheres podem ter no Oriente Médio?
Leymah Gbowee: As mulheres no Oriente Médio deram passos importantes. Mas, passada a primeira fase, elas recuaram. No Egito, por exemplo, quando Mubarak deixou o poder, graças à participação feminina efetiva, todas voltaram para casa. Acho que elas devem se encorajar a protestar ainda mais, porque a única coisa que eu sei sobre a mudança da dinâmica de qualquer país, especialmente no que se refere às questões das mulheres, é que ninguém pode fazer isso por você. No Egito, na Tunísia, no Irã, as mulheres saíram do espaço muito cedo. Eu acho que elas precisavam de um protesto contínuo para afirmar: “Nós estamos aqui, nós somos parte dessa coisa". Elas não devem esperar por Hillary Clinton ou pelos Estados Unidos. Cabe a elas traçar um curso para si.

Em apenas três anos, o número de casos de estupro no Brasil triplicou, o que coloca o país em situação semelhante à da Índia. Como vencer a violência contra a mulher quando essa é uma questão, sobretudo, cultural?
Leymah Gbowee: A violência contra a mulher, eu costumo dizer, é um fenômeno democrático, pois não encontra barreiras geográficas. E as pessoas, em todo lugar, vão indagar sempre qual é a participação da mulher na história. Persiste a cultura em que a mulher não tem o direito de dizer não. Portanto, a mulher tem que se entender como sujeito de direito, entender que as relações afetivas não podem ser pautadas no medo ou na agressividade. Mas também, de outro lado, é necessária uma legislação capaz de combater a impunidade. A mulher precisa ter a segurança da Justiça. A imprensa tem um papel muito importante nisso se ela for capaz de fazer a denúncia, de acompanhar os procedimentos, ela tem o papel de consolidar uma nova cultura.

Costumo dizer que o maior aliado na questão da violência contra a mulher é o homem. O homem não pode aceitar de outro homem a parcimônia da prática da violação sexual. Os homens precisam ser os primeiros a lutar pela recriminação dessas condutas. Uma das primeiras coisas que você vê em nossa sociedade – na maioria das sociedades africanas, por exemplo – é que há sempre um lugar privilegiado para meninos. Sua educação reforça o patriarcado de uma forma muito forte.

No livro Teoria geral do esquecimento (2012), o escritor angolano José Eduardo Agualusa aborda o olhar que o mundo tem sobre a África, baseado na interpretação superficial do continente. Em que momento desse olhar externo a senhora acha que estamos?
Leymah Gbowee: A África tem que batalhar para se afirmar naquilo que é possível e não esperar que as pessoas do mundo cheguem até ela para descobrir. Portanto, há um trabalho interno que temos que fazer. O maior desafio para África, neste momento, é capacitar seus jovens para o trabalho. Estou otimista de que, nos próximos anos, seremos capazes de obter bons líderes, em posições verdadeiras de poder. Os nossos recursos naturais e o capital humano que temos podem ser uma fonte de crescimento econômico e uma paz verdadeiramente sustentável.

E qual é a sua opinião sobre as políticas do governo de Obama para o continente? Eu fui uma daquelas que ficaram muito felizes quando o presidente Obama foi eleito, por causa da mudança de ponto de vista sobre o povo negro. Sua presidência está servindo, em minha opinião, como inspiração, especialmente para os jovens negros. Eu acho que, em termos de engajamento e compromisso com a África, ele tem feito o melhor que as circunstâncias permitem.

O Prêmio Nobel ajudou a trazer mais pessoas para a sua luta?
Leymah Gbowee: O Prêmio Nobel é uma plataforma global que legitima os esforços para trazer mudanças positivas para o mundo. Mas, ninguém pode comer um prêmio. Depois que eu soube que havia sido nomeada como Nobel, eu pensei: “E agora? Acho que os meus esforços podem ganhar mais atenção, sim, com o prêmio. Mas, eu não estou interessada em ser um ornamento. Eu quero que as minhas ações possam se traduzir diretamente em benefícios tangíveis para as pessoas. Quando eu falo no exterior, às vezes eu acho que sou percebida como apenas outra senhora africana de boa aparência, que distrai o ouvinte com sua franqueza.

Como uma africana que conseguiu extrapolar as fronteiras do seu espaço, é claro que posso ampliar os esforços para defender a paz, para acabar coma violência de gênero e promover os direitos das mulheres e meninas de onde vim. Mas, todo meu esforço é para que isso se converta, de fato, em um bem palpável.

Tudo começou com um sonho que a senhora teve em 2002. O que tem sonhado ultimamente?
Leymah Gbowee:
Bem, eu sonho todas as noites. E o sonho mais comum, aquele que é mais recorrente e que me acompanha durante o dia, é o sonho com o bem-estar dos meus filhos. Eu tenho seis filhos, cujas idades variam entre a de uma criança e a de um estudante universitário. Como toda mãe, eu me esforço para equilibrar a minha militância e a minha vida familiar. Me preocupa se eu sou, de fato, a mãe que eu quero ser. Eu sonho que eles, meus filhos, entendam que eu fiz tudo para fazê-los orgulhosos, para torná-los seguros, para fazê-los dizer, quando chegar a hora: a mamãe lutou pela paz.