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Marcelo Gleiser ganha 'Nobel' do diálogo da ciência com espiritualidade

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O ganhador deste ano do Prêmio Templeton, uma espécie de Nobel do diálogo entre a ciência e a espiritualidade, é o físico brasileiro Marcelo Gleiser, 60, do Dartmouth College (EUA).

A láurea rende a seu vencedor 1,1 milhão de libras esterlinas (cerca de R$ 5 milhões), valor que supera o do próprio Nobel, por “uma contribuição excepcional à afirmação da dimensão espiritual da vida, seja por meio de insights, descobertas ou obras práticas”.

É justamente por esse diálogo que Gleiser que se tornou um dos conferencistas mais assistidos e pedidos do Fronteiras do Pensamento ao longo destes 13 anos de projeto. Suas conferências cruzaram áreas do pensamento e do cosmos, mostrando ao público como os mistérios do universo são os mesmos que habitam em todos nós.

Não deixe de assistir aos vídeos de Gleiser ao longo da notícia para compreender por que o físico foi merecedor do prêmio.


Conhecido do grande público por seus best-sellers sobre cosmologia, pelas aparições na TV e pelas colunas em jornais e revistas, Gleiser é o primeiro brasileiro e latino-americano a ser agraciado com o Templeton.

Em entrevista à Folha, por telefone, ele contou que estava sabendo que tinha sido o escolhido desde o final de dezembro, mas a fundação responsável pelo prêmio pediu sigilo ao longo dos últimos meses. “Eles são superprotetores nessa questão”, diz o físico nascido no Rio de Janeiro. O anúncio oficial do prêmio coincide com o aniversário de Gleiser.

Apesar do prestígio associado à láurea, o Templeton também costuma ser criticado por cientistas que defendem formas mais radicais de ateísmo. São figuras como o zoólogo britânico Richard Dawkins, para quem a premiação é dedicada exclusivamente a cientistas “dispostos a falar alguma coisa legal sobre religião”.

Gleiser afirma estar tranquilo quanto a isso. Diz que receber o prêmio é uma honra enorme. “Essas pedradas eu já recebo faz muitos anos, porque sou uma voz que celebra a pluralidade do conhecimento”, argumenta.

“A ciência é a melhor metodologia que existe para descrever a realidade do mundo físico, mas existem outras formas de se relacionar com o mundo que não podem ser desprezadas. Eu sempre convido as pessoas a conversar comigo sobre isso.”

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Gleiser hoje se define como agnóstico, mas não como ateu. “No fundo, eu considero o ateísmo inconsistente com o método científico, por ser uma espécie de crença na não crença”, explica.

“Eu não vejo nenhuma evidência que possa comprovar a existência de Deus, mas também não acho que seja possível descartá-la. É preciso manter a cabeça aberta porque a gente não conhece suficientemente o Universo.” 

Marcelo Gleiser livro

Nos últimos anos, em livros como A Ilha do Conhecimento e A Simples Beleza do Inesperado, Gleiser tem explorado a ideia de que existiriam limites intrínsecos para o que a ciência e a razão humanas podem descobrir sobre o Cosmos.

“A gente nunca vai poder ter um conhecimento final sobre o Universo, mas eu enxergo isso como uma coisa positiva. A ciência é um flerte com o mistério. Einstein definia isso como o sentimento religioso cósmico, que seria a fonte de toda a arte e de toda a ciência.”

Conheça a mais recente obra de Gleiser, A Simples Beleza do Inesperado

Para Gleiser, muitos cientistas que atacavam o fenômeno da religião de forma rasa também não levam em conta o senso de comunidade e dignidade que a fé traz para bilhões de pessoas no mundo todo.

“E são coisas que essas pessoas provavelmente não teriam fora das religiões. Negar isso empobrece a nossa humanidade – somos seres multidimensionais.”

O físico carioca defende que parte da credibilidade da ciência é abalada quando os pesquisadores abandonam uma posição humilde e mais transparente em favor de uma posição de autoridade absoluta sobre todas as questões.

“É lógico que o aquecimento global é um fato, que as vacinas fazem bem, mas não dá para fingir que a ciência tem todas as respostas sobre as origens do Universo ou da vida na Terra.” 

No ramo da cosmologia, alguns cientistas têm defendido que é preciso abraçar a ideia de que não existe um só Universo, mas sim uma infinitude deles, formando um Multiverso cujas leis podem variar infinitamente. Isso explicaria por que o funcionamento do nosso Cosmos parece ter sido “ajustado” com tanta precisão, a ponto de favorecer o surgimento da vida – um dos últimos argumentos de quem busca indícios científicos de uma inteligência por trás do Universo.

Se a ideia do Multiverso estiver correta, dizem eles, esse argumento cairia por Terra – apenas teríamos dado a sorte de estar num universo favorável à vida entre inúmeros que não o são.

“Isso faz meio que parte do marketing da área. Físicos como o britânico Bernard Carr dizem que, se você não quer Deus, tem de aceitar o Multiverso. Eu acho isso bem problemático – dá a impressão de que os cientistas modernos se esqueceram da filosofia, ao contrário do que acontecia com a geração de Einstein.”

Gleiser, porém, abandona o tom conciliatório ao criticar grupos que desejam misturar crenças religiosas com aulas de ciência nas escolas. “É uma coisa trágica, que traz o pior da relação da ciência com a religião, que é uma tentando ofuscar a outra.”


Marcelo Gleiser

Formado em física pela PUC-RJ, Gleiser é professor titular de física, astronomia e filosofia natural no Dartmouth College, nos EUA, desde 1991. Também é autor de 14 livros e colaborou com a Folha de S.Paulo por 17 anos. Foi conferencista do Fronteiras do Pensamento em Salvador, Florianópolis e Porto Alegre.

(Via Folha de S.Paulo)