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Mario Vargas Llosa e a banalização da cultura

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Há outros analistas da sociedade contemporânea que falam da cultura do espetáculo, mas você vai mas além: trata-se da civilização do espetáculo, então?
Mario Vargas Llosa:
A impressão que tenho é que não é apenas uma dimensão, mas todo o conjunto da vida em sociedade está afetado por isso que poderíamos chamar a frivolização, a banalização. A cultura procura hoje, mesmo que não o deixe explícito, sobretudo divertir, entreter. E, tradicionalmente, não era essa a função da cultura. A cultura tentava responder às grandes perguntas: que fazemos neste mundo? Temos um destino ou não? Somos realmente livres ou somos seres movidos por forças que não controlamos?

Toda essa problemática, que era à qual a cultura procurava dar resposta, praticamente se extinguiu hoje em dia, desapareceu.

E nesse processo você acusa os intelectuais contemporâneos de uma inação absoluta, de viverem olhando para o próprio umbigo.
Mario Vargas Llosa: Diferentemente do que ocorria com as gerações anteriores, hoje em dia, a maior parte dos escritores não acredita que a literatura deva tratar desse tipo de assunto. Consideram que isso é pretencioso e, além do mais, que é ilusório imaginar que a literatura possa ajudar a resolver esse tipo de problema, e preferem concentrar-se em uma especialidade.

Fazem literatura e aceitam que a literatura tenha um papel modesto dentro da vida da sociedade. E creio que isso também se reflete na pouca ambição exibida por boa parte da literatura de nosso tempo. Não fixa a si própria grandes objetivos. Diferentemente dos escritores do passado, os escritores de hoje, em grande parte, não escrevem para a eternidade, para sobreviver à morte. Contentam-se com que a literatura cumpra uma função mais ou menos imediata, e seja uma literatura de consumo, no sentido mais explícito da palavra.

(…) Eu nasci para a literatura numa época em que era inconcebível que o escritor não se comprometesse. Defendia determinados pontos de vista, criticava outros, mas, desta maneira, contribuía de algum modo para a vida cívica, a vida social de seu tempo. Essa é uma atitude que hoje parece completamente obsoleta. Os escritores mais jovens não pensam que essa deva ser a função de um escritor.

Em que medida o jornalismo influiu nessa civilização do espetáculo?
Mario Vargas Llosa: Creio que foi determinante. Claro que não nego que exista um jornalismo sério, que sobrevive a duras penas num mundo onde o jornalismo, tal como a cultura em geral, busca sobretudo entreter, divertir. E isso levou a que o jornalismo marrom, o que se imiscui na vida privada das pessoas, tenha a importância que tem em nossa época.

Ocorre tanto nas sociedades mais avançadas, com maior nível de educação, como nas sociedades mais subdesenvolvidas. Simplesmente é o que se passou na Inglaterra: o jornalismo de escândalo, o jornalismo marrom, o jornalismo que além de tudo cometeu crimes e transgrediu a lei, e que tinha um público tão gigantesco num país tão culto como a Inglaterra é um indício do que digo.

Isso causou um dano enorme, porque o jornalismo, sobretudo o de televisão, o de revistas de fofocas, que chega a um público muito grande, exerce de fato uma influência na maneira de ser e na maneira de pensar das pessoas, e creio que foi um dos grandes instrumentos de difusão dessa civilização do espetáculo que caracteriza nosso tempo.

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