Voltar para Entrevistas

Mary Robinson: "Um sétimo do planeta acorda faminto todos os dias"

As ideias que movem o mundo em um único lugar. Cadastre-se e receba mensalmente o melhor do Fronteiras

Cadastrado com sucesso

“Precisamos aumentar em pelo menos 70% a produção de alimentos até 2050". Esta frase passou a ser repetida após a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) lançar o alerta, em 2009, mas a preocupação não é nova.

A relação entre o crescimento populacional e alimentos tem sido discutida desde a Revolução Industrial, época em que Thomas Malthus, ao observar o crescimento demográfico no Reino Unido e as tecnologias agrícolas daquele momento, concluiu que o ritmo dos dois era incompatível.

Durante o século XX, o desenvolvimento do agronegócio, a indústria de fertilizantes, máquinas cada vez mais potentes transformaram o campo. O problema, agora, não é tanto de quantidade, mas de eficiência, porque, por mais que a produção tenha aumentado, “ mais de um bilhão de pessoas – aproximadamente um sétimo do planeta – acordam famintas todos os dias“, como lembra Mary Robinson, ex-presidente da Irlanda e integrante do grupo The Elders.

Os desafios para tornar a produção sustentável são enormes. Para produzir as toneladas de cereais e outras tantas de carne precisamos usar grandes quantidades de água. A química desgasta o solo e, para acomodar os cultivos, florestas são desmatadas.

Além disso, mudanças climáticas estão alterando o regime das colheitas, a produção de biocombustíveis compete com a de alimentos e o foco na produção de cereais – como milho, arroz, trigo e soja – afetou outros cultivos. As sementes transgênicas – promessa de colheita perene – viraram objeto de disputas por direitos de propriedade intelectual e encareceram muito a produção, dificultando a manutenção dos pequenos produtores locais.

A dependência de uma logística de entrega criou desertos alimentícios. Para completar o cenário, a FAO, em relatório de 2011, alertou para o desperdício de quase um terço do que é produzido para consumo.

Como equacionar os esforços para combater a mudança climática e disponibilizar alimentos em quantidade e qualidade suficientes para uma população que continua a aumentar? Qual a importância dos pequenos produtores para transformar essa realidade?

Por mais que a segurança alimentar seja pouco abordada em nosso cotidiano, é crucial para o rumo da humanidade nos próximos 40 anos. O tema, que passa por áreas tão diversas e essenciais quanto meio ambiente, direitos humanos, economia, política e tecnologia, é a base da entrevista Silio Boccanera com Mary Robinson ao programa Milênio. Confira abaixo:

Ao discutir mudanças climáticas, muitas vezes ouvimos falar do impacto que terão na produção de alimentos no futuro, mas a senhora e seu grupo realizaram pesquisas que mostram que elas já estão tendo um impacto agora. Fale-nos sobre isso.
Mary Robinson:
Na verdade, foi como passei a trabalhar com mudanças climáticas. Eu trabalhava com outra organização que não pretendia ser permanente. Nós mostramos de maneira pioneira, que levando uma abordagem de direitos humanos ao alimento, à água, à saúde e à cooperação, ajudaríamos os pobres. E nós nos concentramos nos países africanos. E eu continuava ouvindo como as coisas estavam piores. Não temos mais estações. Temos longos períodos de seca e depois inundações.

Na Libéria, minha amiga Ellen Johnson-Sirleaf disse: “Mary, não posso planejar minhas estradas, pois as estações chuvosas não chegam mais como antes." Como eu visitava vários países africanos todos os anos, eu via um padrão de piora na condição dos pobres por causa do clima. E, quanto mais eu lia e mais via aquilo, mais claro ficava que a situação piorava. E não era só o clima, mas também o desmatamento e mau uso do solo. Mas, para as pessoas pobres e já vulneráveis, aquela pequena mudança tinha consequências muito graves.

E a senhora viu isso mais nos países em desenvolvimento.
Mary Robinson:
Exato. E assim que chegamos à justiça climática, através dessa percepção da injustiça dos impactos das mudanças climáticas sobre os pobres, que são os menos responsáveis por elas. Temos que ser honestos quanto a isso, e as pessoas precisam perceber que é isso que estamos fazendo. Nós tentamos ter políticas de ajuda ao desenvolvimento, mas o que estávamos fazendo é piorando a vida dos pobres.

O problema de alimentar as pessoas é um problema de distribuição ou de produção insuficiente?
Mary Robinson:
É, com certeza, um problema de distribuição, em muitos casos. Mas nós precisamos de alimentos nutritivos, ou seja, de segurança alimentar e nutricional... Eu estive na Somália em julho de 2012. Eu tinha estado lá em 1992, como presidente da Irlanda, porque havia uma crise entre os senhores da guerra de lá, e a população não estava tendo acesso à comida, que não chegava nem aos depósitos de alimentos, em Baidoa e Mogadíscio. Então eu fui até lá e pedi que os senhores da guerra deixassem os alimentos chegarem aos depósitos. Desta última vez em que estive lá, tudo estava pior.

Não é vergonhoso que tantas pessoas nos países ricos sofram de obesidade, enquanto há mais de um milhão de crianças morrendo de fome?
Mary Robinson:
Nós estamos falando de cerca de 1 bilhão de pessoas, incluindo crianças, que acordam com fome todas as manhãs. É 1/7 da população mundial. Estamos falando de 1/3 das crianças dos países em desenvolvimento que estão abaixo do peso ou com atraso no crescimento. O atraso no crescimento é um problema da primeira infância que deixa sequelas nas crianças, elas nunca atingem seu potencial físico e intelectual. Para qualquer mãe ou avó, como eu, pensar nisso é algo terrível.

E nós temos 1 bilhão de pessoas acima do peso, obesas. Então, nosso mundo tem um problema crônico de equilíbrio alimentar. E nós precisamos tratar do excesso de consumo em programas de mitigação e mudança de hábitos e estilos de vida.

O Brasil tem uma posição privilegiada em termos de produção de alimentos, pois somos autossuficientes nessa área, mas a situação em outros países não é a mesma. Qual a senhora acha que é a razão disso? Solo ruim, má exploração do solo, as próprias mudanças climáticas, uma combinação disso tudo?
Mary Robinson:
Exato. E como isso é complicado, e como a ciência lida com probabilidades, eu acho que há essa capacidade de negar a ciência, de tentar ignorá-la, de tentar desacreditá-la e esse ceticismo com relação à ciência. E, por muito motivos, eu acho que devemos focar mais nas pessoas, no impacto que isso está tendo agora nas pessoas. Não poderemos negar a realidade da vida delas. Esse é um dos motivos pelos quais sentimos que contar essas histórias é importante. Mas lidar com essas questões requer algo complexo, mas também requer revelar o que queremos dizer com igualdade, com responsabilidades comuns, mas diferenciadas, e com respeito pelas capacidades de cada um.

O que as pessoas realmente acham de igualdade e justiça? O que podemos fazer? Podemos dar acesso à eletricidade ao 1,4 bilhão de pessoas que não têm luz em casa, às 2,7 bilhões de mulheres que cozinham com carvão e acendem o fogo com óleo animal? Isso é parte da igualdade e das responsabilidades comuns, mas diferenciadas.

Tem que vir tudo junto.
Mary Robinson:
Sim. A igualdade, a adaptação para a igualdade, o financiamento à igualdade, o acesso às tecnologias e a transferência de tecnologia.

Estamos testemunhando a um fenômeno na África em que empresas e países estrangeiros compram as terras para produzir alimentos, não para os africanos, mas para uso próprio. E não são só os chineses. Os árabes também têm feito isso. Isso é preocupante?
Mary Robinson:
Isso me preocupa. Mas o que mais me preocupa é a desapropriação da terra. Pessoas pobres estão perdendo suas terras e, quando protestam, elas são presas, como no Camboja, e são chamadas de “terroristas", porque tentam evitar que suas terras sejam tomadas. Nós precisamos que os governos tenham boas políticas de terras, nós precisamos que os pobres tenham direito à terra, principalmente as mulheres. 80% dos camponeses na África são mulheres, e elas têm 5% da terra.

Há uma discrepância entre seu trabalho e produtividade e a garantia sobre a terra. Isso não ajuda a dar poder a elas. E, se nós quisermos dar mais poder às mulheres, estimulando a igualdade de gênero, precisaremos trabalhar melhor a propriedade da terra. E deter as desapropriações e grandes apropriações. Às vezes, para produzir biomassa, eles usam áreas que poderiam ser usadas para produzir alimentos.

E a senhora acha que dar poder às mulheres na agricultura irá acrescentar uma vantagem a elas?
Mary Robinson:
Na verdade, quando falo sobre dar maior poder às mulheres, não digo especificamente na agricultura. Dar maior poder às mulheres pode mudar drasticamente o desenvolvimento de um país. E nós vimos exemplos disso. Às vezes um país com a Índia, por exemplo, progride quando as mulheres assumem o poder. As mulheres precisam ter maior poder em todas as áreas, mas a agricultura é uma área muito importante, pois é a que produz a maior parte dos alimentos e é onde está a maior parte da pobreza.

No Brasil, há um debate sobre a produção de alimentos. Há quem defenda que fique nas mãos do agronegócio, pois as empresas os produzem com eficiência, em larga escala, enquanto outros dizem que devemos priorizar a produção familiar. Qual é a solução? Uma combinação dos dois?
Mary Robinson:
Eu acho que é importante dar ao pequeno proprietário segurança e tentar melhorar as oportunidades para ele, incluindo aí o acesso à energia. Mas o agronegócio tem que cumprir seu papel. Não falo isso por ideologia, mas por uma questão de direitos humanos.

É preciso acabar com a discriminação, dar apoio aos pequenos produtores, garantir que seus direitos sejam respeitados, dar apoio aos indígenas, garantir que eles estejam bem informados e que participem de todas as discussões, trabalhando com eles, pois a tendência do agronegócio, muitas vezes, é atropelar os pequenos proprietários e os indígenas, que não têm a escritura de propriedade da terra. Esse é o perigo. Por isso os governos precisam regulamentar e monitorar a situação.

Quando se discute segurança alimentar e a necessidade de alimentar as pessoas do mundo, o que a senhora acha dos transgênicos? Eles têm um lugar? São alimentos do tipo Frankenstein ou são uma alternativa?

Mary Robinson: Eu acho que há diferentes tipos de tecnologias que ajudam a produção. Algumas podem ser muito boas, mas os que envolvem produtos químicos ou questões de propriedade intelectual, a questão das sementes... Não sou especialista na área, mas ouvia pessoas muito temerosas, além de experiências negativas, principalmente na Índia, onde há muita preocupação com os rumos da Revolução Verde.

(Texto por Rodrigo Bodstein | Entrevista por Silio Boccanera/ Milênio)