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Michel Houellebecq: "Não se trata de prever o futuro, mas de capturar o medo presente."

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Cena do filme O sequestro de Michel Houellebecq (2014)
Cena do filme O sequestro de Michel Houellebecq (2014)

A quarta-feira de sete de janeiro de 2015 abriu uma chaga na vida da França e, também, de Michel Houellebecq.

Neste dia, chegava às livrarias Submissão, seu mais recente romance, no mesmo momento em que oito jornalistas do semanário Charlie Hebdo eram metralhados por dois jovens muçulmanos radicais, inconformados com a forma com que o profeta Maomé era tratado nas charges do jornal.

Antes mesmo de chegar ao grande público, a obra já provocava polêmica nos círculos intelectuais de Paris. Ao mesmo tempo, Houellebecq foi acusado, por alguns, de xenófobo. Por outros, de dar suporte à forte presença do Islã na França.

A história se passa em 2022, com a chegada ao poder de Mohammed Ben Abbes, um político moderado do partido da Irmandade Muçulmana que vai governar em coalisão com os principais partidos da França. Seu Primeiro-Ministro é o centrista François Bayrou, personagem real da vida política francesa. A trágica sincronicidade do atentado ao Charlie Hebdo com o lançamento do livro transformou Michel Houellebecq, imediatamente, em um sucesso de vendas. Desde então, o escritor se retraiu, mas não abandonou o personagem que interpreta de si mesmo – um tipo sombrio, que observa com indiferença o que acontece à sua volta.

Se a França de fato passa por uma crise existencial, como afirmam algumas de suas cabeças mais conceituadas, Houellebecq é, em última instância, sua melhor ilustração.

Em entrevista ao Programa Milênio, o escritor francês, conferencista do Fronteiras do Pensamento Porto Alegre 2016, fala sobre as fronteiras entre realidade e ficção apresentadas na obra Submissão, esboçando um amplo panorama sobre o mundo contemporâneo.

Começo com uma citação: “Procuramos sempre, entre os romancistas, um fragmento da verdade deste mundo, em que somos jogados e que nos angustia." Foi o que escreveu seu amigo Bernard Maris, jornalista e economista morto no Charlie Hebdo. O convido a falar sobre os fragmentos de verdade que podemos encontrar em Submissão.
Michel Houellebecq:
O livro não foi escrito para descrever o que vai acontecer. Tem mais a ver com o que as pessoas temem que aconteça. Se você pensar nisso, pegar os livros premonitórios mais conhecidos, Admirável mundo novo, 1984, verá que não se trata de prever o futuro, mas de capturar o medo presente.

Mas não tenho a impressão de que temos medo, quando lemos o seu livro... Temos uma constatação muito séria, por exemplo, quando falamos do declínio da Europa.
Michel Houellebecq:
Sim, tem gente que tem medo. Que tem medo do Islã. Na França e na Europa em geral. Têm medo de serem dominados pelo Islã. É um medo real.

O vejo como um excelente cronista da contemporaneidade. Seus personagens circulam por um mundo real, os atores da política, da vida pública, estão todos aí. No entanto, você conta uma história do ponto de vista de um observador, de uma solidão absoluta.
Michel Houellebecq:
Nem tanto... No começo, as coisas vão bem... Ele tem vários elementos na vida e, no final, não tem mais nada.

De todo jeito, é um personagem que não tem muito prazer. Um pouco indiferente ao que acontece à volta dele.
Michel Houellebecq: Ah sim, ele não quer saber de política. Nada. Tem muita gente que é assim. Para ele, tanto faz. O que acontece é que a política se interessa por ele. Quer dizer, acontecimentos históricos reais terão um impacto na vida dele. Mas a primeira reação dele é ficar estupefato, indignado que a história possa influenciar a vida dele.

Esse personagem é totalmente fictício ou talvez tenha fragmentos de verdades suas?
Michel Houellebecq:
Não apenas minhas, são muitas pessoas que não têm nenhum interesse por política, que não ligam, não votam, não se interessam, não é problema deles.

Você vota?
Michel Houellebecq: Não. Acho que nunca votei na vida.

Então, posso dizer que esse personagem não é ficção, é alguém que tem fragmentos de verdade.
Michel Houellebecq: Sim, mas não é especialmente a minha verdade. Tem muita gente que não vota e minha paixão não era essa quando eu era jovem.

Será que isso tem a ver com o que Bernard Maris chama, no livro, “O reino do individualismo absoluto"? Você concorda, por exemplo, com uma ideia que é muito clara no livro, de que a economia liberal quebrou tudo que é coletivo, que a sociedade pode morrer pela economia?
Michel Houellebecq:
Sim, mas isso é uma visão economicista, de um homem econômico, que vive em função de seus interesses, racionalmente. Mas, antes de destruir o coletivo, isso destrói coisas mais profundas. Destrói a visão que as pessoas têm de si mesmas.

Em entrevistas, você fala da religião e de um vazio muito forte que as pessoas experimentam no Ocidente hoje.
Michel Houellebecq:
Sim, mas não dá pra detalhar, porque não sabemos o que nos falta. Este algo a mais. Se é a ideia da vida após a morte, se é o coletivo... A sensação de algo coletivo, que é oferecido pela religião. Pode ser o medo da morte, mas pode ser algo muito mais concreto. O fato de que a vida seja organizada, com rituais a cumprir, todos os dias, que haja uma estrutura de vida.

Isso dá sentido à vida?
Michel Houellebecq: Sentido é um pouco demais. Digamos que a organiza.

A manifestação pós-Charlie, em 11 de janeiro, foi sobretudo a maior manifestação já vista na França. Como descreveria esse 11 de janeiro? Marcou você?
Michel Houellebecq: Menos do que o 7 de janeiro.

E como o 7 de janeiro marcou você?
Michel Houellebecq:
Primeiro, perdi um amigo e todos que estavam lá. Você sabe, as pessoas que foram assassinadas eram pessoas muito conhecidas. Bernard Maris menos, mas Cabu e Wolinsky eram os dois cartunistas mais famosos da França. Então, todo mundo entendeu bem o que estava acontecendo. Eles foram mortos pelos desenhos que fizeram e para proibir outros do tipo. As pessoas participaram porque há uma ligação com a liberdade neste país. O que chamamos de liberdade de expressão. Acho que a liberdade de expressão nunca foi atacada de forma tão selvagem na história da França.

O 7 de janeiro o obrigou, e obrigar no sentido de algo que você precisa fazer, a fazer uma releitura do que tinha escrito em Submissão?
Michel Houellebecq:
Digamos que o livro, talvez, seja de um otimismo exagerado, porque mostra uma situação em que um político, dotado de uma verdadeira genialidade política, o muçulmano Ben Abbes, consegue controlar os extremistas.

... E ser apoiado por todos os partidos, pelos dois partidos da França.
Michel Houellebecq: Isso não é o mais difícil. O mais difícil é, na contracorrente, conseguir criar uma espécie de união entre os próprios muçulmanos. Nada indica que alguém capaz disso possa surgir. Então, é bem possível que o futuro seja bem mais sombrio do que escrevi em meu livro. Além disso, não sei o que pode acontecer se o islamismo se multiplicar mesmo. Os extremistas querem provocar uma guerra civil. Podem conseguir. Mas ninguém pode dizer ao certo o que vai acontecer. Não existe uma personalidade federativa no Islã.