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Milton Hatoum: “O ritmo da literatura é o avesso do ritmo das redes sociais”

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Foto: Marcos Alves
Foto: Marcos Alves

As obras literárias passam por um processo de maturação durante a sua escrita. Antes de chegar aos leitores, existe uma organização prévia e várias mudanças que nem imaginamos. Em entrevista ao Portal da UFGM, o escritor amazonense Milton Hatoum conta um pouco de como funciona o percurso literário para ele, o que envolve não apenas sistematização, mas história de vida e experiências passadas. 

Na entrevista, Hatoum fala sobre a inevitável relação da literatura com o passado e sobre a excessiva dependência das redes sociais, que pode ser constatada inclusive entre escritores. Hatoum é autor da trilogia “O lugar mais sombrio”, que conta com dois livros publicados: “A noite da espera” e “Pontos de fuga”. O terceiro livro está em processo de conclusão. É autor, também, de destacadas obras da literatura brasileira, como “Dois Irmãos” e “Cinzas do Norte".

Leia a entrevista a seguir: 

O 2020 atípico parece ter alcançado os escritores de diferentes formas: alguns se tornaram extremamente produtivos, outros se ensimesmaram, recolheram-se. Como foi o seu ano de 2020 em relação à produção literária?
Milton Hatoum: Eu participei de muitas transmissões on-line, dezenas. Sobre literatura, principalmente, mas vi que a questão política inevitavelmente aparecia em conversas e diálogos com professores, com jornalistas. Na minha reclusão involuntária, eu também tentei terminar o último volume da minha trilogia. [Denominada “O lugar mais sombrio”, a trilogia já tem dois livros publicados]. 

Também escrevi várias crônicas e comecei a escrever outras coisas fora da trilogia. Eu tinha outra narrativa já esboçada, já muito adiantada, um romance que tem pontos em comum com a trilogia, mas que pode ser lido de forma independente. O Martin, um dos protagonistas da trilogia, aparece nesse romance, mas a história é ambientada na França e contada por uma mulher, amiga dele, que aparece no segundo volume. Então desenvolvi esse romance e também revisei todo o terceiro volume, que é bem mais curto que os dois primeiros. Eu trabalhei muito nisso – mas só quando pude, porque tem também o trabalho doméstico, o cuidado com a casa, as coisas que a gente tem de fazer para ajudar a família. Mas fiz também minhas leituras...

Já escolheu o título do último volume?
Milton Hatoum: Ainda não. O título às vezes surge antes, às vezes durante a escrita, às vezes depois. Acho que vai ser esse o caso. O que posso adiantar é que é um livro mais curto, que fala de lacunas deixadas pelos outros. Também escrevi o texto da orelha de um grande romance do século 20, Debaixo do vulcão, do Malcolm Lowry, que vai sair pela Alfaguara. E fiz a orelha do livro Da presença e da ausência, do Mahmoud Darwich, o poeta nacional da Palestina, que faleceu há alguns anos. O livro foi publicado pela editora Tabla, do Rio de Janeiro. Para quem gosta de prosa poética, é um grande livro. Além disso, trabalhei na revisão da tradução dos contos do Marcel Schwob reunidos em A cruzada das crianças, publicado pela Editora 34 (originalmente lançado pela Editora Iluminuras, em 1988). É um livrinho de contos fabuloso, que tem um prefácio belíssimo do Jorge Luis Borges. Não é um livro muito conhecido, mas é um clássico da literatura francesa.

Como você tem reagido à pandemia?
Milton Hatoum: Há momentos de paralisia total, de perplexidade, de revolta, angústia; vem tudo misturado, é uma tristeza profunda. Sobretudo quando você se acha impotente diante de tantas iniquidades, de tanta loucura destrutiva, e não tem como reagir a isso, a não ser nessas transmissões diretas, em alguns artigos. Ninguém estava preparado para uma calamidade como essa, global, que atingisse a todos e, sobretudo, o Ocidente. 

A pandemia mostrou que os sistemas de saúde dos países, mesmo os mais ricos, não estavam preparados para enfrentar uma situação como essa, que pôs a própria política de bem-estar social em questão. Mas, claro, há os mais protegidos e os menos protegidos. Aqui no Brasil isso tudo foi muito agravado pela irresponsabilidade do atual governo, que desprezou a gravidade do vírus, o negacionismo. Enfim, uma história já contada exaustivamente. Para quem pode se proteger, para quem pode ficar em casa, não precisa sair para trabalhar, a vida está sendo difícil, mas sem riscos, na medida em que você não se expõe. Aqui, os mais pobres, os negros, os indígenas, os mais vulneráveis estão sofrendo muito.

Como avalia a condução da crise pelo atual governo?
Milton Hatoum: Este governo é um inventário de aberrações! Olha, eu vivi sob a ditadura durante minha juventude e parte da minha vida adulta, e eu nunca vi um governo tão medíocre, tão irresponsável e tão mentiroso quanto este. Ele se alimenta das mentiras! Se bem que ele é herdeiro do regime militar, com características muito fortes da ditadura. A presença maciça de militares, o autoritarismo com raízes na extrema-direita, de tintas fascistas, inclusive. Seu projeto é mesmo de destruição, de destruição do pouco que tínhamos conquistado desde o governo Fernando Henrique Cardoso, passando pelos anos de Lula e Dilma. Somos governados por pessoas que só pensam nelas, pela família do presidente, que sabemos de onde vem, sua origem. Eles me lembram muito aquele conto Os irmãos Dagobé, do Guimarães Rosa, os terríveis e facinorosos irmãos Dagobé. É um conto incrível, que fala de crueldade, loucura e violência.

Por outro lado, houve também uma grande decepção com a sociedade em si, a brasileira e mundial, em relação a uma expectativa que talvez tivéssemos de que a pandemia daria azo a um senso de coletividade maior, uma postura mais solidária e republicana das pessoas. Refiro-me ao uso das máscaras, ao respeito ao isolamento social...
Milton Hatoum: Sim, há um movimento quase sociopata de uma sociedade que não apresenta soluções e não se solidariza com o sofrimento dos outros. De qualquer forma, essa expectativa de uma solidariedade geral e abrangente é uma ilusão. Isso raramente acontece, se é que algum dia aconteceu. Se pensarmos, por exemplo, na ascensão do fascismo e do nazismo... Walter Benjamin falava em uma espécie de barbárie sem culpa. Não é algo diferente do que estamos vivendo hoje. As pessoas são profundamente egoístas, pensam apenas em si mesmas. Essa é uma tendência, de um modo geral.

Nesse cenário, não cabe falar em esperança?
Milton Hatoum: A esperança tem muito a ver com a luta, com os protestos e as manifestações que vão ocorrer depois da vacina. Acho que o quadro político pode mudar bastante com as pessoas nas ruas.

Você ainda acredita na força das ruas?
Milton Hatoum: Na verdade, eu só acredito nisso, na mobilização popular. Escrever artigos, tudo bem, isso também faz parte do protesto. Mas eu acho que a pressão popular nas ruas é fundamental para que haja uma mudança. E acho que parte da resistência do governo à vacina diz respeito a isso: é um medo... ele está emparedado e sabe disso. É como o ministro da Economia – tardiamente – falou: a vacina é fundamental para reavivar a economia. Ora, todo mundo sabe disso, até uma criança sabe disso, não precisa ser ministro ou economista para saber disso.

Você falava em esperança...
"A esperança, ou o otimismo, tem muito a ver com a leitura que se faz da realidade, a leitura crítica do momento histórico. Ela depende mesmo do nosso olhar crítico. E do destemor do nosso olhar. Dos nossos passos, do nosso arrojo, da nossa visão dessa tragédia."

Poderia explicar melhor?
Milton Hatoum: A esperança não pode ser vã, vaga. Se você falar do ponto de vista cristão, a esperança é sempre algo que tem a ver com uma bondade coletiva, com [a crença em] alguma coisa coletiva. No entanto, quando acontece uma catástrofe e a esperança, portanto, fica em baixa, você tem também uma mudança circunstancial na realidade histórica. E é essa mudança – que ocorre para o mal e é nociva, por causa da doença, por causa das mortes – o que também traz, contraditoriamente, o seu contraponto, que é uma resistência àquilo que estava bem acomodado, àquilo que estava aparentemente consolidado. Todo esse desastre, toda essa infâmia trouxe, contraditoriamente, uma esperança de mudança.

Nossa conversa deveria ser sobre literatura, mas há assuntos incontornáveis, como Manaus, a cidade onde nasceu. Como tem lidado com essa situação?
Milton Hatoum: No interior do Amazonas está um caos, uma tristeza, um desespero. Muitas pessoas com outras doenças precisando de oxigênio, muitos enfermos. Morreram muitos amazonenses. Em Manacapuru, Coari... são mais de 60 municípios. E não há UTIs no interior do Amazonas. É um desgoverno histórico. Esse será o tema do meu novo texto no Estadão, a ser publicado no dia 5 de fevereiro. Vou falar sobre esse histórico. Há um histórico desse populismo de direita no Amazonas, desse desgoverno. É um populismo de ao menos meio século, que culminou nisso. Não foram poucos os secretários de educação e saúde acusados de corrupção no Amazonas. Um deles foi preso em 2018. Esquemas de fraude, de desvios de milhões de reais. Este colapso tem uma história. É um estado abandonado, maldição. O povo não tem referência nenhuma, o povo é enganado o tempo todo. É preciso conhecer um pouco Manaus para entender o que é aquilo, a miséria; o Brasil não conhece essa miséria. O que acontece em Manaus é inominável. É inominável morrer de asfixia; não só os doentes graves de covid-19, os outros doentes, as crianças... Isso é uma bomba que pode estourar – é uma bomba que pode e está estourando no colo do governo.

Agora a literatura. Como você vê a forma como nossa cena artística e cultural tem-se organizado? Percebe-se que alguns escritores marcam uma presença obsessiva na mídia e nas redes sociais, em um contexto em que os momentos da produção e da divulgação parecem se misturar, contrariando certo consenso de que a literatura precisa passar por um processo de decantação, um tempo para o autoquestionamento...
Milton Hatoum: Olha, eu vejo como você. Eu uso as redes sociais para publicar as minhas crônicas mensais no Estadão, os eventos como este da UFMG, às vezes um artigo de protesto ou um protesto contra essa aberração a que estamos submetidos. Mas para isso conto com a ajuda do meu filho caçula. Ele é quem cuida disso. Às vezes eu fico uma, duas semanas sem olhar o Facebook. Quero dizer, eu nem teria tempo. O que me impressiona é como muitas pessoas, escritores, especificamente, dedicam tanto tempo a isso.

Eu não vou parar de ler O nascimento da tragédia do Nietzsche para fazer uma postagem; se fizer isso, eu enlouqueço. A nossa vida já é por demais fragmentada; temos tantos deveres domésticos... Eu ainda acredito em valores estéticos, em crítica literária; eu acho que nem tudo é literatura mesmo, que a literatura tem as suas particularidades, tem o seu valor estético, simbólico, histórico. 

"As redes sociais provocam ilusão. Mas eu acho que tudo isso veio também na onda do pós-moderno, desse quase desprezo pelo processo histórico, essa colagem de tempos, o jogo fútil de linguagens, jogos de palavras. É como se as grandes narrativas já fossem coisa do passado. Só que o futuro da literatura é o seu passado. Você não pode imaginar o futuro da literatura sem ler Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas; não pode imaginar o futuro da literatura sem ler Graciliano Ramos, sem ler os clássicos brasileiros."

Qual é a sua relação com as redes sociais?
Milton Hatoum: Para mim, a cultura do computador e das redes sociais é tardia. Não entrou como algo essencial em minha vida. Eu sou de uma geração que escreveu o primeiro romance à máquina, primeiro à mão – escrevo até hoje – e depois à máquina. Quase todos os meus romances foram publicados em uma época em que não havia redes sociais; ao menos nos quatro primeiros não havia. São romances que não precisaram disso [a promoção contínua nas redes sociais] para serem lidos e estudados, serem objetos de teses, dissertações e ensaios, alcançarem um público considerável, sobretudo Dois irmãos e Cinzas do Norte. Então [a importância das redes para a literatura contemporânea] pode ser uma ilusão. Quando escreve, você está sendo movido por um impulso, um desejo, então você não pode parar de escrever para fazer uma postagem. É uma loucura.

Mesmo sem muita visibilidade nessas redes, o romance pode, de boca em boca, cair nas graças do leitor, do bom leitor, do leitor médio, dos professores, dos críticos. Então não depende muito. O fato é que isso não é vital para mim. Eu, por exemplo, sei que tem um Twitter com meu nome. Um amigo me pediu para reavivá-lo e alimentá-lo, eu recusei. Não tenho tempo para isso. Mas eu assumo o meu lado dinossauro; não sei conviver com isso. Agora, essa coisa compulsiva –porque se torna uma coisa compulsiva – de não conseguir ficar duas horas, uma hora sem entrar [na rede social]. Eu não acho aconselhável, sobretudo para quem escreve. Mas, claro, é uma visão muito pessoal: “pão ou pães, questão de opiniães”, como dizia o mestre [Guimarães Rosa].

Para um escritor, não seria necessário fazer um movimento contrário em relação a essas redes e sua velocidade, ou seja, afastar-se?
Milton Hatoum: Eu tenho certeza disso. Às vezes me mandam mensagens e eu demoro, sei lá, quarenta e oito horas para responder, e as pessoas ficam muito ansiosas. Eu não entendo isso (risos). Eu levei em média cinco anos e meio para publicar cada romance. Então o meu ritmo é definitivamente outro. Essa lentidão está dentro de mim. Talvez seja uma coisa amazônica, não sei de onde vem isso; de não ter pressa para publicar, de reescrever muito. 

"O que quero dizer é que o ritmo da literatura é o avesso do ritmo das redes sociais. A literatura é contra o circunstancial. Ela não trabalha com o circunstancial, ela trabalha com o passado, reaviva o passado. É o que Benjamin fala: a grande diferença que ele estabelece entre a experiência, que tem a ver com o passado, com a sedimentação do vivido, e a vivência, que é o circunstancial. Isso para mim é fundamental para entender a literatura, a decantação da experiência."

Tudo o que eu escrevi tem um pouco a ver com a minha vida, pouco ou muito, em graus variados, mas tem a ver com a vida passada, com uma experiência vivida em um passado já distante. Não é um ontem, são décadas. É dela que saiu, por exemplo, a trilogia dessa experiência dos anos 60.

Você tem uma técnica de sistematização da escrita? Concebeu esquemas objetivos de organização do seu fazer literário?
Milton Hatoum: O que eu sempre fiz, desde o primeiro romance, foi um esquema, anterior mesmo a qualquer esboço. Eu preciso armar na minha cabeça a forma desse romance, dessa narrativa. Quando falo da forma, falo de certo tipo de estrutura que contemple o narrador, por exemplo, o modo de narrar, o ponto de vista, quem vai contar a história... E aí eu já tenho uma personagem mais ou menos delineada. Em seguida, faço um esboço gráfico com essa estrutura de tempo, narradores, espaço, os conflitos. 

Agora, o romance se faz na escrita, quando se está escrevendo. Assim, muita coisa que foi esboçada, ou é suprimida, ou passa por acréscimos; é modificada quando estou escrevendo. O imprevisível é uma força poderosa. O imprevisível ou outra palavra que se possa dar a isso, o inconsciente, a inspiração, essa palavra odiada pelo João Cabral de Melo Neto, mas que o primo dele [Manuel Bandeira] adorava... Então há aí duas coisas, quero dizer, há muito trabalho e também esse alumbramento bandeiriano, essa disposição para escrever. Porque ficar horas diante de um papel branco quando não está disposto, quando o santo não bate, eu não faço isso. Eu espero – bem, já que falamos em esperança – o seguinte: eu espero o momento. Quando vem essa coisa mais forte, esse desejo, aí é inevitável...

(Via UFMG)