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Natalia Pasternak: “Acho difícil prever quanto tempo essa emergência vai durar, acho muito fácil prever que outras emergências como essa vão vir no futuro”

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A pandemia do coronavírus colocou diante das câmeras e microfones um time de especialistas para ajudar o público a compreender as causas e os rumos da doença que paralisou o mundo. Nomes conhecidos da rotina acadêmica, da prática médica e dos laboratórios de pesquisa, entre outros profissionais, tornaram-se vozes de referência para explicar da rotina básica de higiene no dia a dia aos complexos estudos que resultaram no desenvolvimento de vacinas em tempo recorde.

A microbiologista Natalia Pasternak ganhou projeção nacional combinando seu conhecimento com uma entusiasmada defesa da ciência. Ela é uma das fundadoras e atual presidente do Instituto Questão de Ciência (ICQ), organização não governamental criada em 2018 e que em sua apresentação informa ser o “primeiro instituto brasileiro para promoção de pensamento crítico e racional e políticas públicas baseadas em evidências científicas”. Quem a conhece sabe que esse pensamento norteia seu abnegado combate ao negacionismo e aos medicamentos sem eficácia comprovada.

Natalia é uma empenhada promotora da proposta de levar o debate científico para fora da academia, atraindo o público leigo com uma linguagem didática e inclusiva. A convite da Organização das Nações Unidas, por exemplo, ela integra um time de cientistas que promove esclarecimentos sobre vacinas na plataforma TikTok. Atualmente vivendo em Nova York, onde é professora e pesquisadora visitante na Universidade de Columbia, Natalia concedeu entrevista exclusiva ao Fronteiras do Pensamento.

A pandemia do coronavírus fez o debate científico avançar para além do nicho acadêmico e ocupar posição de destaque na imprensa e nas conversas do dia a dia entre o público leigo. Você tornou-se um rosto e uma voz conhecida do grande público atuando na televisão, nos jornais, nas rádios e nos sites. Em que medida esta exposição impactou sua vida pessoal e profissional?

Certamente, teve algum avanço na divulgação científica durante a pandemia. Uma coisa boa que veio disso foi que o debate científico saiu da bolha da universidade e chegou à imprensa, e a imprensa acolheu muito bem o debate científico. O jornalismo brasileiro durante a pandemia foi bastante baseado em evidências, ouviu os especialistas. É claro que houve exceções, algumas emissoras que preferiam cair na armadilha de ouvir os dois lados, como se ciência tivesse dois lados, mas no geral a cobertura jornalística foi muito boa e muito preocupada em ouvir os cientistas, em nos dar espaço. Eu ganhei uma coluna no jornal O Globo, junto com a doutora Margareth Dalcomo, que também tem sido uma presença marcante na mídia, ganhei dois espaços como comentarista na rádio CBN, em vários veículos internacionais também. Esta exposição impacta a vida pessoal, é muito intensa e requer uma dedicação muito grande. Havia dias em que eu começava dando entrevista às oito horas da manhã e continuava dando entrevistas até o começo da noite. Muitas vezes, era um ritmo muito intenso de trabalho, lembrando que eu ainda tenho o instituto para presidir, o IQC não parou, o meu trabalho acadêmico não parou. Mas é a profissão que eu escolhi. Não é nenhum sacrifício, não sou nenhum tipo de mártir, eu sou uma comunicadora de ciência que optou justamente por fazer a defesa da ciência perante à sociedade. Encaro como uma grande oportunidade, apesar do desgaste, do cansaço que isso gerou. Mas foi e tem sido uma grande oportunidade de levar a ciência para o grande público.

Esta sua desenvoltura para discutir ciência junto a um público mais amplo pode ser creditada a iniciativas como o Café na Bancada, projeto que leva questões da academia às redes sociais e eventos com uma audiência não especializada?

Em parte, é uma habilidade pessoal, dos muitos anos da minha atuação como professora, que é uma atividade que também exige desenvoltura, didática e uma capacidade de explicar a ciência para um público que ainda é leigo, porque ainda é um público estudante. Sempre peguei muito os calouros no primeiro ano de faculdade, sempre gostei muito de trabalhar com esse público tão jovem. Quando eu comecei a atuar como comunicadora de ciência, e a minha primeira iniciativa foi o Café na Bancada, em 2015, que não existe mais, dei muita sorte de ter vários jornalistas científicos muito experientes que me pegaram pela mão e foram me levando nesse caminho. Aprendi muito com eles, dois falecidos esse ano. Eu inclusive gostaria de deixar aqui a minha homenagem ao Maurício Tuffani e a Ruth Bellinghini, que me pegaram pela mão quando eu ainda fazia o blog Café na Bancada e foram grandes mestres de como comunicar ciência para o grande público. Foi com muita tristeza que a gente se despediu dos dois neste ano.

O que motivou a criação do IQC?

O IQC teve várias motivações. A principal foi a percepção de que o Brasil precisava de uma instituição especializada e constituída com credibilidade para realmente comunicar a ciência, e não só comunicar a beleza da ciência, que não é a missão do instituto, tem muita gente boa fazendo isso. O IQC veio com essa missão de conseguir comunicar aquela ciência que é necessária para a tomada de decisões, sejam as decisões do dia a dia do cidadão ou as dos formuladores de políticas públicas. Aquela ciência na qual eles precisam se embasar para tomar decisões que vão desde, na esfera pessoal, “vou não vou vacinar meus filhos”, “que produto eu compro no mercado, orgânico ou transgênico”, até as formulações de políticas públicas sobre a regulamentação do uso de células tronco embrionárias em pesquisas, de alimentos transgênicos, de regulamentação, de rotulagem, de venda e comercialização de produtos orgânicos, vacinas e medicamentos, todos esses assuntos que precisam de embasamento científico. Sentimos falta de ter um órgão específico responsável, constituído oficialmente, com conselho fiscal, com conselho consultivo, com financiamento adequado, para que essa informação pudesse chegar de uma maneira esclarecida, didática, ao maior número de pessoas. Para isso o IQC, que é uma ONG formalizada, conta com toda essa estrutura administrativa e com uma equipe de comunicação responsável por passar essa mensagem da forma adequada para todos os tipos de público. Uma das motivações práticas, e que nos deu um senso de urgência para criação do IQC, foi a crise da fosfoetanolamina, a pílula do câncer, lá em 2015, 2016. A fosfoetanolamina, naquela época, sem ter nenhuma instituição como o IQC para rebater publicamente toda aquela maluquice, acabou indo parar no Supremo, travou o sistema jurídico da USP e teve uma série de repercussões muito sérias para a sociedade. Depois de passar pela fosfoetanolamina, percebemos que era preciso se organizar de uma forma mais específica e principalmente mais institucionalizada para conseguir combater a pseudociência no Brasil, daí nasceu o Instituto Questão de Ciência.

E como foi colocar à prova a defesa da evidência científica em meio a campanhas que ainda agora recomendam o uso de medicamentos sem eficácia comprovada no combate à covid-19?

Sobre a campanha da cloroquina, foi um desafio porque, de repente, o IQC era o único instituto brasileiro equipado para fazer esse combate à pseudociência, à ciência mal feita e à desinformação. Mas nós conseguimos fazer isso de uma maneira organizada, em parceria com a grande imprensa. Foi um privilégio saber que muito do que a gente publicava na revista Questão do Ciência auxiliava a pautar a mídia, nos procuravam também obter esclarecimentos. Nós fomos o primeiro veículo de imprensa que divulgou a farsa da cloroquina naquele primeiro paper do Didier Raoult, o famoso paper de Marselha, em março de 2020. A gente conseguiu ficar à frente e ao lado da imprensa brasileira no momento desta comunicação tão difícil, que é comunicar a desinformação em ciência.

Que balanço faz da sua participação na CPI que investiga ações do governo federal no combate à pandemia? Como lida com os ataques consequentes da sua posição crítica à forma como o governo Bolsonaro lidou com a crise sanitária?

O objetivo maior do IQC sempre foi construir essa ponte entre academia, sociedade, gestores e legisladores. Foi um privilégio muito grande poder explicar o método científico como eu expliquei não só para os senadores, mas para milhões de brasileiros que estavam acompanhando a sessão. Espero ter realmente conseguido explicar da maneira mais didática possível como é um pensamento científico, como se dão os processos em ciência, como o método científico consegue chegar a conclusões que nos permitem ter medicamentos e vacinas e fazer o enfrentamento de uma pandemia. As críticas que vêm dos apoiadores do governo são geralmente muito pessoais, porque, infelizmente, quando não se consegue criticar o mérito do que se fala se critica a pessoa. É uma estratégia muito conhecida usada pelos negacionistas da ciência. Ataques pessoais são esperados e são obviamente ignorados, não me atingem. O que eu levaria em conta seriam ataques ao conteúdo do que falei, e esses ataques nunca aconteceram porque o conteúdo está lá e não é meu, foi apenas divulgado e explicado por mim. É um conteúdo fruto de um consenso científico, de pesquisas feitas por diversos cientistas que são publicadas e revisadas por seus pares.

A ciência deu uma resposta inédita em termos de rapidez e tecnologia no desenvolvimento de vacinas para combater o coronavírus. Mas, paradoxalmente, tem quem observe essa façanha com desconfiança sobre a eficácia dos imunizantes. Como você avalia essa postura, que pauta iniciativas negacionistas de governantes e até mesmo de parte da classe médica?

Eu creio que entre os propagadores do movimento antivacina existem várias categorias de profissionais. Existem aqueles que por algum tipo de fragilidade cognitiva não compreendem a ciência por trás das vacinas e por isso negam sua eficácia e segurança. Existem aqueles que podem até compreender, mas tem algum tipo de agenda política e ideológica ou mesmo financeira, que faz com que seja mais interessante negar a eficácia e segurança das vacinas. E finalmente tem um grupo onde deve ter uma mistura desses dois comportamentos. É muito difícil a gente apontar o dedo e dizer quem está em cada grupo, esses três grupos existem, precisam ser combatidos e não devem ser confundidos com suas vítimas, aquelas pessoas que ficam com medo de se vacinar justamente porque foram bombardeadas com a desinformação gerada por esses grupos. Quando a gente teve a inauguração do Instituto Questão de Ciência, em 2018, com o professor Edzard Ernst, da Universidade de Exeter, da Inglaterra ele falou uma frase muito bonita, que eu acho que resume exatamente o que a gente vive hoje: “Nomeie e aponte os charlatães, mas proteja suas vítimas”. E é isso que a gente tenta fazer com o IQC, apontar e nomear aqueles que propagam o movimento antivacina, mas proteger e esclarecer as vítimas desse movimento.

Avaliando a desigualdade social e sanitária mundial, é possível prospectar por quanto tempo ainda o coronavírus será razão de alerta?

Eu acho difícil. A desigualdade social, a desigualdade de acesso a vacinas, tudo isso ficou patente e é motivo de preocupação não só para essa pandemia, mas para emergências sanitárias futuras. A pandemia mostrou que a gente precisa abrir os olhos globalmente, porque se a gente continuar predando o planeta desta forma, esquentando o planeta com a ação humana, tornando esse ambiente mais propício para mosquitos transmissores de doenças, invadindo habitat de animais silvestres que podem ser potencialmente reservatórios de outros vírus que a gente ainda nem conhece, a gente vai ter que enfrentar essa mesma situação de novo no futuro. E se a gente não aprender nada com o que está acontecendo agora sobre acesso a vacinas, acesso a tratamento, acesso a medicamentos, acesso a equipamentos, não vamos conseguir passar por isso de novo sem de novo devastar a sociedade e as economias inteiras. Acho difícil prever por quanto tempo essa emergência ainda vai durar, mas acho muito fácil prever que outras emergências como essa vão vir no futuro.

A ciência vive no Brasil um estrangulamento de recursos, sucateamento de instituições públicas referenciais e evasão de pesquisadores. Você acredita numa reversão desse quadro num prazo que faça a ciência brasileira não sair dos trilhos que a levaram a trabalhos tão destacados como os feitos pela Fiocruz e pelo Instituto Butantan nesta pandemia?

A falta de financiamento da ciência brasileira não é de hoje, vem de pelo menos três décadas. A ciência deixou de ser prioridade para o Brasil há muito tempo e infelizmente a falta de financiamento se intensificou no atual governo de uma maneira que a gente nunca imaginava. Já estava ruim antes, mas ninguém imaginava que ia piorar do jeito que piorou, que a ciência brasileira ia sofrer cortes e ataques tão violentos como sofreu no governo Bolsonaro. Foram ataques que começaram ainda antes da pandemia com, por exemplo, a demissão do diretor do Inpe. Foi uma grande surpresa que o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais pudesse ser demitido pelo presidente porque ele não concordou com as conclusões das pesquisas desse instituto, que mostravam um alto grau de desmatamento da Amazônia. A posição anticiência do governo Bolsonaro é pré-pandemia. Esse governo já nasceu anticiência, nasceu decidindo que a ciência não é prioridade de financiamento. Se a ciência brasileira vai sobreviver a esse governo é difícil prever, mas certamente vai demorar décadas para se recuperar desses cortes e ataques violentos que sofreu.

Os Estados Unidos estão passando por uma situação peculiar. Sobram vacinas, mas a recusa das pessoas em se vacinar está provocando um aumento de infecções. A concentração do problema em áreas mais influenciadas por campanhas negacionistas está diretamente relacionada ao fenômeno? É um problema localizado, que tende a atingir apenas os não vacinados, ou ameaça todos os avanços conquistados até aqui?

A recusa em se vacinar que acontece aqui nos Estados Unidos realmente é localizada. São Estados específicos que têm mais recusa de vacinação, mas geram um impacto muito negativo para sociedade inteira porque a vacinação é uma estratégia coletiva. E se parte da população se recusa a participar dessa estratégia, a gente demora mais atingir a unidade de rebanho, mais pessoas ficam em risco, e não só as pessoas que optaram por não se vacinar, mas aquelas que, mesmo vacinadas, são mais vulneráveis, os imunocomprometidos, os idosos que já tem um sistema imune mais debilitado naturalmente, que podem adoecer, precisar de hospitalização e podem morrer. É um pacto coletivo. A vacinação, para funcionar, precisa dessa colaboração de todos ou a gente não consegue conter a disseminação da doença. Nesse sentido, aquele bordão da Organização Mundial de Saúde, de que ninguém está seguro até que todos estejamos seguros continua sendo verdade.

Um dos convidados internacionais da edição do Fronteiras do Pensamento 2021 é o biólogo Jared Diamond, vencedor do Prêmio Pulitzer com o livro "Armas, Germes e Aço". Você conhece o trabalho dele e teria algo a destacar?

Jared Diamond é uma inspiração para todos nós. Eu tive o privilégio de assistir a um diálogo entre o Diamond e o Yuval Harari (em evento realizado em São Paulo, em 2019), e acho que o Harari nos representou, os comunicadores de ciência, quando o Diamond perguntou quem o inspirou a escrever sobre ciência para o grande público e o Harari respondeu: “Você me inspirou. Quando eu comecei a ler os seus livros e vi que tinha um grande cientista que escrevia para o grande público, e não só para os pares, eu me perguntei ‘nossa, isso é possível? Então eu também quero fazer’”. Faço eco com Yuval Harari. Também quero fazer isso. Que bom que o Jared Diamond mostrou para nós que podemos sair da bolha, é um modelo a ser seguido. Que a gente possa ter mais Jared Diamond, mais Yuval Harari no mundo, muito mais produção de conteúdo de ciência voltada para o grande público. É o que eu tenho tentado fazer com o Instituto Questão de Ciência, com a revista Questão de Ciência, e também com meus dois livros publicados, “Ciência no Cotidiano”, pela editora Contexto, e, recentemente, o “Contra a Realidade”, pela editora Papirus. Espero ter a honra de me juntar a esse grande time.

*Marcelo Perrone é jornalista e editor de conteúdo do Fronteiras do Pensamento