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Pierre Lévy: "você não deve presumir que há privacidade na rede"

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O pensador francês Pierre Lévy defende que, hoje, todos estão aptos a categorizar, avaliar e navegar pela informação na rede. Para ele, a tecnologia tornou possível uma utopia necessária: a difusão do conhecimento produzido pela humanidade como um grande patrimônio comum.

Em entrevista concedida ao jornal ZH, Lévy falou sobre os desafios da vida em rede e sobre como alguns deles não têm ligação direta com o mundo digital, mesmo que a sociedade tenda a tratá-los desta forma: crimes cibernéticos, controle de informação e da liberdade de expressão são apenas dilemas antigos que podem utilizar as tecnologias de seu tempo, mas que não nascem de determinada tecnologia.

O senhor sempre defendeu que a inteligência é um patrimônio coletivo. Mas o mundo digital se dirigiu para um modelo em que os indivíduos se tornaram produtores de dados a serem comercializados por e com anunciantes e patrocinadores. O que pensa disso?
Muitas pessoas estão usando o Facebook, por exemplo. De fato, bilhões de pessoas. Milhões de pessoas estão usando Pinterest, Twitter, Instagram, seja qual for a rede. Todas essas pessoas usam a rede social de graça. Assim, o dinheiro tem de vir de algum lugar. Publicidade é a resposta clássica para resolver o problema do financiamento de mídia. Não apenas na mídia digital, mas foi o mesmo com a imprensa e com a televisão. Não há muita diferença neste assunto.

Mas, para mim, não é um problema que a publicidade tenha acesso aos dados de modo que as redes sociais possam ser financiadas. O problema, para mim, é que as pessoas comuns não tenham esse acesso à informação que elas próprias produzem.

Também têm sido constantes as discussões sobre as políticas de privacidade na rede. Qual sua opinião nesse debate?
O que eu digo aos meus estudantes é que a internet, em geral, é um espaço público. Então, quando você escreve ou posta em uma rede social, tem que partir sempre da suposição de que todo mundo está vendo. Mesmo o e-mail. Se você usa Gmail, deve saber que o Google usa seus dados para análises estatísticas aplicadas para mandar publicidade. Logo, você não deve presumir que há privacidade na rede.

Se você ainda assim quer ter privacidade, o que é uma preocupação legítima, você tem duas opções: uma delas é usar encriptação de dados, e a outra é guardar o que você quer dizer para você mesmo, ou falar atrás de portas fechadas, ou algo como isso (risos). É um fato: as redes sociais são espaços públicos.

Muitos movimentos se propõem a aumentar o acesso público aos benefícios do conhecimento. O senhor é otimista com relação a esse tema?
Penso que é um progresso quando mais pessoas têm acesso ao conhecimento. Por exemplo, se você tem uma cidade com biblioteca pública e uma sem, a cidade com biblioteca está melhor. Mas claro que os equipamentos técnicos e materiais não são o suficiente. As pessoas precisam ter a habilidade de ler e escrever, devem ter educação e cultura para poder tirar vantagem dessa disponibilidade da informação. Não é tão simples.

Se queremos aprimorar o acesso geral ao conhecimento, há esforços a ser feitos nos aspectos técnicos, mas também nas partes culturais e educacionais da inteligência coletiva. Não é uma questão só de acesso físico.

Então também precisamos de uma espécie de "alfabetização" digital básica?
Exatamente. A nova alfabetização não é só aprender as letras do alfabeto, ou a ler e escrever, mas também estar apto a selecionar as fontes de informação, a ser capaz de analisar dados, a ser capaz de interagir em grandes comunidades online. São coisas relativamente difíceis, e são habilidades que deveriam ser aprendidas ainda na escola.

Esta seria uma forma de afastar o sentimento de muitos usuários de que a rede é perigosa, por conta de crimes e roubos de dados?
A internet é uma ferramenta técnica fantástica para a comunicação, para o armazenamento da memória e do conhecimento, para análise de dados. Mas isso não suprime o fato de que nela atuam ladrões, por exemplo. Só que as pessoas já roubavam bancos muito antes da internet, ladrões que roubavam usando todas as ferramentas tecnológicas que houvesse. Para mim, não há relação entre uma coisa e outra.

Não é porque há uma ferramenta nova que um dilema moral básico da espécie humana vai desaparecer em um passe de mágica. Ainda temos pessoas honestas e desonestas. Criminosos podem usar a tecnologia, e a polícia também pode, então há um equilíbrio.

Perguntei sobre essa questão dos crimes porque o parlamento do Brasil vem discutindo leis que, a pretexto de combatê-los, talvez criminalizem manifestações de opinião.
Os governos sempre tentam limitar a liberdade de expressão. É sua tendência natural. A oposição deve, por seu turno, lutar por essa liberdade. É uma coisa muito antiga e não é exclusiva da internet, começou com a imprensa em papel. Outro aspecto disso é que quase todos os governos tentam saber secretamente o que os cidadãos estão dizendo, tentam espionar seus cidadãos. Ao longo de todo o século 20 foi assim: governos abrindo cartas, por exemplo.

Hoje, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo, as instâncias oficiais tentam controlar a comunicação das pessoas. Isso é verdade nas democracias mais abertas, como Estados Unidos ou países da Europa, e mais verdade ainda na China, na Rússia, na Arábia Saudita.

Na verdade, isso não tem a ver especificamente com a internet. Tem a ver com a relação entre governos que são mais ou menos autoritários e seu povo. Não é uma questão técnica, é política, atualizada com qualquer nova invenção técnica ou uma nova forma de comunicação. É por isso que eu não estou muito interessado nisso, porque não diz respeito abertamente à internet.

O que diz respeito diretamente à rede são as novas oportunidades para as pessoas se comunicarem, cooperarem, criarem novas operações de troca de informações. É esse o ponto que estou tentando enfatizar.

O senhor falou de cidades com bibliotecas. Em um livro recente, Robert Darnton verbalizou uma preocupação pelo que considerava a privatização de bibliotecas universitárias, digitalizadas por corporações como o Google, que cobra acesso a elas. O que pensa disso?
Se estamos falando de conhecimento científico, penso que o verdadeiro problema, os verdadeiros vilões, não são o Google, por exemplo, e sim os editores de publicações científicas. Porque, ok, a pesquisa científica é, em geral, financiada pelo público. Assim, os resultados deveriam voltar para o público.

Mas na universidade, atualmente, você precisa publicar esses resultados em uma revista ou jornal científicos, de editoras especializadas. E essas editoras são empresas comerciais que vendem para as bibliotecas os resultados das pesquisas produzidas. Isso não está correto.

Penso que a resposta certa a essa questão seria publicar esses resultados gratuitamente, por exemplo, em blogs. É uma grande tendência atualmente a criação de redes sociais voltadas especificamente para pesquisadores, como ResearchGate, Academia.edu ou Mendeley e assim por diante. O que se vê nessas redes sociais é que os papers e trabalhos circulam entre os próprios pesquisadores, livremente, e você não precisa pagar a um editor.

Os editores foram realmente úteis até um determinado momento, enquanto só tínhamos a imprensa, porque se os trabalhos não fossem publicados, o conhecimento não poderia ser disseminado. Mas hoje em dia não precisamos mais de editores, podemos espalhar as informações gratuitamente em blogs e redes sociais.

Mas seria necessária uma mudança de mentalidade em todo o sistema, não? Dado que o processo de validação entre pares passa pela pontuação dessas publicações.
Sim. Há certos trabalhos publicados em revistas científicas que ninguém lê. Ok, ele tem o selo de aprovação de uma instituição científica, mas é inútil. E alguns trabalhos que ainda não foram publicados em revistas porque ainda não foram totalmente concluídos já circulam entre os pesquisadores interessados no mesmo problema e têm uma grande influência. Assim, a verdadeira medida do valor científico não é a publicação, e sim a forma como esse trabalho é usado pela comunidade científica, o que pode ser mensurado por citações, referências etc.

Há alguns anos o senhor havia anunciado a intenção de desenvolver uma linguagem que permitiria aliar a linguagem verbal comunicacional e a linguagem computacional para uma real filosofia da era digital. Como anda esse projeto?
Neste momento em que conversamos, estou em Montreal, com a equipe que está desenvolvendo essa linguagem, a IEML (Information Economy MetaLanguage, ou "Metalinguagem da economia da informação", em português). Tenho a esperança de que ela será lançada no final do ano.

O dicionário e uma biblioteca da linguagem estarão disponíveis gratuitamente online, e haverá uma interface API com a qual você poderá conectar e interagir. E haverá uma espécie de interface de demonstração ao usuário. E ainda não decidimos completamente o que será, mas provavelmente será utilizável no Twitter, no Scoop.it e outras plataformas que permitem ao usuário categorizar dados.

Então, em vez de hashtags, por exemplo, teremos hashtags semânticas que serão capazes de computar relações semânticas com outras hashtags. No Scoop.it, em vez de tags que são apenas uma cadeia de caracteres, teremos um programa capaz de computar relações semânticas com outras tags.

Sei que é um projeto com diversas ramificações, mas o senhor poderia explicar um pouco mais algumas das principais aplicações dessa linguagem artificial?
Teria aplicações em tradução automática, em análise de dados e, o mais importante para mim, refletir a inteligência coletiva.

As pessoas seriam capazes de observar online o desenvolvimento de suas próprias ideias. Uma ideia sendo um conjunto de dados classificado na linguagem IEML e todas as reações sociais associadas à classificação e aos dados. E tudo isso poderia ser visualizado e estaria aberto para todos, diferentemente do que acontece hoje no Facebook, em que a análise de dados é feita pelo Facebook e vendida para empresas comerciais, basicamente, ou para empresas de publicidade.

Que diferença haveria de algumas outras experiências colaborativas de produção de conhecimento, como a Wikipédia, por exemplo?
O aspecto comum com a Wikipédia é que o conhecimento está completamente aberto, acessível a qualquer um para uso e edição. Mas na Wikipédia, o trabalho final de edição pertence a uma burocracia editorial. Minha abordagem é diferente, não há supervisão, qualquer um pode escolher e classificar os dados exatamente como quiser, e as pessoas serão capazes de filtrar as fontes que serão importantes para elas. Então, será muito mais aberta. Além disso, você pode usar a Wikipédia como uma fonte de dados, então você será capaz de classificar um artigo da Wikipédia na linguagem que criamos, e pessoas diferentes poderão ter pontos de vista diferentes sobre o mesmo artigo.

Acho que o grande problema da Wikipédia é que você pode ter apenas um artigo a respeito de um tópico. Isso restringe a liberdade de expressão. A minha ideia é que, a partir das mesmas informações, você possa ter diferentes aspectos e pontos de vista.