Voltar para Entrevistas

Recém-eleito Prefeito de Bogotá, Peñalosa segue apostando em transporte público contra a desigualdade

As ideias que movem o mundo em um único lugar. Cadastre-se e receba mensalmente o melhor do Fronteiras

Cadastrado com sucesso
Enrique Peñalosa (foto: Mauricio Duenas Castañeda/Efe)
Enrique Peñalosa (foto: Mauricio Duenas Castañeda/Efe)

A próxima conferencista do Fronteiras do Pensamento Porto Alegre é a urbanista norte-americana Janette Sadik-Khan, cujo trabalho de transformação das ruas de Nova York mudou o cenário da cidade, privilegiando o pedestre, o ciclista e o transporte público.

Pensar a cidade é recorrente no Fronteiras e o tema já foi abordado não apenas pelos especialistas na questão, mas também como por físicos, sociólogos, filósofos, psicanalistas e economistas, como o colombiano Enrique Peñalosa, que voltou a ser Prefeito de Bogotá nesta semana após um longo período de tentativas para retornar à administração da cidade.

Quando foi eleito prefeito de Bogotá pela primeira vez, em 1998, Peñalosa deu início a um período de reformas urbanísticas que transformaram a capital colombiana em exemplo internacional de metrópole moderna e funcional.

Nas administrações dele e de seu sucessor, Antanas Mockus, ambos então do Partido Verde, foram criadas ciclovias, parques, um esquema integrado de bibliotecas e o Transmilênio (sistema de transporte público com veículos leves em corredores nas grandes avenidas).

Em suas primeiras palavras após confirmar a vitória, Peñalosa, que encabeça um movimento político independente, registrado para competir nas eleições com a assinatura de milhares de seguidores, disse que pretende fazer um governo "sem política", sem polarização ou divisões, onde os pobres e as crianças serão a prioridade. Foi o que disse também em entrevista à Folha, concedida dias antes das eleições. Confira abaixo:

Existem muitas críticas com relação a obras que você e Antanas Mockus implementaram em Bogotá e que hoje já não funcionam tão bem. Usuários do Transmilênio, por exemplo, apontam superlotação e lentidão no serviço. O que aconteceu?
Enrique Peñalosa: As reformas que implementamos não podiam ficar paradas. Era necessário dar seguimento, melhorá-las, expandi-las. Não houve vontade política, e os prefeitos que vieram depois de nós não fizeram investimentos de ampliação e renovação dos projetos com o único intuito de nos desmoralizar politicamente.

Quais medidas crê que melhor sobreviveram?
Enrique Peñalosa: Hoje temos a maioria da população se locomovendo em transporte público e em bicicleta, e ainda assim nosso trânsito é muito pesado. O número mais chamativo é o da população em bicicleta. Há 20 anos, era de apenas 0,1%. Agora é de 5%. No começo, a bicicleta era usada apenas pela população mais pobre. Depois, passou a ser utilizada por jovens e mulheres, virou moda. Acho as ciclovias fundamentais para produzir igualdade. São uma decisão política, antes que urbanística.

Por quê?
Enrique Peñalosa: Em cidades como Bogotá ou São Paulo, há muita desigualdade econômica e social. Portanto vejo a necessidade de tomar medidas de democracia elementar, que respeitem as constituições de nossos países. Se todos somos iguais, nosso acesso ao espaço viário tem de ser igualitário também. A partir de uma perspectiva democrática, não tenho dúvidas de que corredores de ônibus e ciclovias são desejáveis. E quanto à técnica, a questão é ainda mais óbvia, não precisamos de um Ph.D explicando o que um comitê de crianças de 11 anos conclui muito rapidamente: que o trânsito flui melhor com essas medidas.

Quando era prefeito, você defendia a construção de um metrô subterrâneo, que Bogotá ainda não tem. Agora mudou de opinião. Por quê?
Enrique Peñalosa: Estou convencido de que Bogotá precisa de mais investimentos em transporte público e esta é uma opção. Mas hoje penso que o metrô subterrâneo, além de ser mais caro e mais arriscado, não é desejável. Em Bogotá é muito mais custoso fazer uma obra dessas, porque em terreno montanhoso é mais difícil de construir. A quantidade de dinheiro que precisaríamos para uma obra desse porte nos deixaria endividados.

O que defendo, sim, é um metrô de superfície, que além de tudo é mais democrático e mais agradável. Por que temos de aceitar que a rua seja destinada a quem tem o privilégio de ter carro e que quem não possui um veículo seja condenado a mover-se por debaixo da terra? Não é justo. O metrô de superfície, por ser mais barato, também permitirá que alcancemos regiões mais distantes, atendendo a uma necessidade nova de Bogotá, que vem se expandindo horizontalmente, longe do centro. Creio que cidades como Bogotá e São Paulo, que têm climas amenos, onde não há invernos muito rigorosos, essas alternativas a céu aberto deveriam ser mais consideradas.

(Via Folha)

Assista também à entrevista exclusiva de Peñalosa para o Fronteiras, quando esteve no Brasil para participar do projeto, em 2012: