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Processo de 'desertificação' é uma ameaça para as cidades, diz socióloga

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Saskia Sassen (foto: re:publica)
Saskia Sassen (foto: re:publica)

A socióloga holandesa Saskia Sassen, 66, alerta para o que classifica de processo de "desertificação" das cidades, resultado da pressão global por grandes projetos que causam danos ao ambiente e à urbanização.

Ao mesmo tempo, diz a pesquisadora, os governos perderam poder de reação para controlar esse movimento, diante da força do setor privado. "As cidades do futuro serão cada vez mais assim: megaprojetos com grande densidade vertical, mas que 'desurbanizam' o espaço urbano, eliminando pequenas ruas e praças e deixando também as cidades vazias", disse a socióloga em entrevista à Folha, em Londres.

"Um dos grandes problemas que temos de lidar é a perda do habitat por parte das pessoas. Se você olhar de cima, verá alguma coisa como um complexo corporativo, não uma cidade. Hoje, talvez o exemplo mais extremo seja Dubai [Emirados Árabes]", afirmou.

Uma das principais pensadoras sobre o fenômeno da globalização, Saskia Sassen recebeu em 2013 o prêmio Príncipe de Astúrias de Ciências Sociais.

Naturalizada americana, ela e o marido, o também sociólogo Richard Sennett, estarão em Porto Alegre (24/8) e em São Paulo (26/8) para conferência no Fronteiras do Pensamento, evento do qual a Folha é parceira. Os ingressos para o Fronteiras 2015 estão esgotados.

A socióloga também participará, no dia 26, de um debate na abertura da Virada Sustentável em São Paulo, com entrada gratuita, no parque Ibirapuera.

Saskia é apontada como criadora do conceito "cidade global". Lançou no começo dos anos 90 "The Global City" ("A Cidade Global"), quando desenvolveu um trabalho sobre o papel de Nova York, Londres e Tóquio como grandes centros estratégicos de intersecção econômica.

"Naquela época, percebi que as coisas estavam realmente mudando nessas cidades. Londres, por exemplo, estava informalmente falida, mas começou a se transformar num espaço de ligação para qualquer lugar do mundo", contou.

"Hoje, duas décadas depois, temos centenas de cidades globais porque a economia realmente se globalizou", ressalta a professora da London School of Economics e da Universidade de Columbia (EUA).

A pesquisadora menciona o papel positivo dessa avalanche causada pela globalização, mas também destaca o impacto negativo, sobretudo em relação às mudanças climáticas e a exclusão social.

A socióloga diz que o Estado não consegue mais minimizar esses efeitos. "Repare: os legisladores perdem cada vez mais poder e controle sobre isso", disse.

IMIGRAÇÃO

A socióloga lançou no ano passado o livro "Expulsions" ("Expulsões"), em que aborda o fenômeno migratório derivado da globalização –da classe média que precisa abandonar os grandes centros por questões financeiras à parcela obrigada a deixar países miseráveis em direção a áreas mais ricas.

Este último grupo, aliás, tem se transformado num dos principais dramas do continente europeu nos últimos anos em razão do fluxo de pessoas que tentam chegar pelo mar Mediterrâneo – foram pelo menos 200 mil só em 2015.
Para Saskia Sassen, no entanto, é um equívoco classificá-los de "imigrantes".

"Imigrante é a pessoa que vive aqui (Europa), mas eventualmente quer e vai para a casa de origem. Esses (que atravessam o Mediterrâneo) não têm casa, foram colocados para fora, querem uma vida melhor, por comida e espaço para viver, elementos básicos para uma vida melhor", disse.

(Via Folha)