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Renato Janine Ribeiro: “Educação não é uma transmissão de conhecimento, é a formação de uma pessoa”

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Renato Janine Ribeiro assumiu, no final de julho de 2021, a presidência da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). É mais uma frente de trabalho que o professor sênior do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP) abre em sua prolífica trajetória na difusão e defesa do conhecimento. Percorrendo caminhos que o levaram do ambiente acadêmico aos gabinetes do poder público, o ex-ministro da Educação já escreveu 14 livros, entre eles “A Sociedade contra o Social”, ganhador, em 2001, do prêmio Jabuti na categoria ensaio. Pensador guiado pelo olhar humanista, este paulista de 71 anos é voz de referência no debate que coloca a educação e a inclusão social como elementos vitais para o exercício de uma cidadania plena e produtiva. Ele ocupa nesta missão espaços multiplataformas, das salas de aula às redes sociais, da presença recorrente na imprensa como articulista e fonte de informação e análise a projetos especiais como a série que promoveu um debate sobre ética no Canal Futura. 

Em entrevista exclusiva para o Fronteiras do Pensamento, Renato Janine Ribeiro comenta o atual estado das coisas no Brasil sob efeito da pandemia do coronavírus, os desafios de seu novo cargo e também iniciativas para ampliar o diálogo com o público jovem, como o curso em que usa como ferramenta didática a série espanhola “Merlí”.

O senhor acaba de tomar posse como presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, justo em um momento grave para a ciência no país. A comunidade científica convive com o descrédito e os ataques patrocinados pelo governo federal e cortes orçamentários que já vinham provocando estragos nos últimos anos agravaram-se a partir de 2019, impactando equipamentos e profissionais. Qual sua avaliação sobre esse quadro e quais serão suas missões prioritárias no exercício do novo cargo?

A missão prioritária diante dos cortes orçamentários e diante de uma política governamental que não prestigia a ciência, muito ao contrário, é defender tudo isso que foi constituído pelo povo brasileiro e pelos cientistas, pela sociedade como um todo, em termos de patrimônio, de conhecimento. Nós temos não apenas universidades federais, mas instituições de pesquisa como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, as agências de fomento como CNPq e Capes e as fundações de amparo à pesquisa dos Estados. Temos toda a rede de ensino público do Brasil, que reúne dezenas de milhões de crianças e adolescentes, tudo isso está presentemente em risco. Nesse sentido, lutar em favor disso é, sem dúvida, uma prioridade. Eu daria como exemplos de ações nessa direção a luta pelo renovação do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação), pela qual governo não tinha nenhum interesse, e a defesa do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, que graças à mobilização da SBPC e de outras entidades, o governo está proibido de contingenciar, isto é, de retardar o pagamento, não pagar, embora esteja, nesse caso, atrasando o cumprimento da lei.

Que modelo de articulação a SBPC busca junto ao poder público e à sociedade civil para cumprir suas atribuições? 

Nosso modelo de articulação é nos unirmos a associações que têm propósitos semelhantes, desde associações como as de reitores das universidades federais até o chamado G6, que é o grupo formado pela própria SBPC, Academia Brasileira de Ciências, Ordem dos Advogados do Brasil, Conferência Nacional de Bispos do Brasil, Associação Brasileira de Imprensa e Comissão Arns. Sempre que possível, nós tentamos agir em conjunto em defesa dos direitos humanos e dos bens públicos que estão hoje em risco.

A maioria das pessoas tende a relacionar a palavra ciência à medicina, à saúde e à biologia. Como estas se inter-relacionam, por exemplo, com as ciências exatas e humanas?

Há uma interação forte no enfrentamento da pandemia entre todas as ciências. Basta dizer que se é óbvio que a biologia e as ciências da saúde estão na linha de frente do combate contra a pandemia, são as ciências exatas que permitem fazer cálculos, modelos de como será a difusão dependendo da política adotada. As previsões dos números de mortes, dos números de contágios e, portanto, os elementos para definir políticas de ação devem-se muito à matemática e às ciências mais próximas dela. Por outro lado, o estudo do impacto da pandemia sobre o ser humano é eminentemente uma matéria de ciências humanas. E não podemos esquecer que há um setor importante, que convencionamos colocar na ciência da saúde, que é a saúde coletiva, ou saúde pública, um misto de ciências da saúde e de sociologia. O combate pela saúde, pela vida, que estamos travando hoje no Brasil é um combate que reúne ciências de todos os campos.

Na sua avaliação, quais são as ações mais urgentes para atrelar o desenvolvimento econômico ao desenvolvimento social?

Está claro hoje para quem trabalha com economia no mundo desenvolvido, e dou como exemplo duas grandes publicações liberais, que não são de esquerda, a revista The Economist e o jornal Financial Times, ambos ingleses, que o principal fator desenvolvimento econômico é a combinação de ciência e educação, produzindo a tecnologia como um de seus efeitos. Ou seja, quanto mais você qualifica as pessoas, mais condições você tem de um desenvolvimento econômico positivo, que por sua vez poderá ter impacto sobre o desenvolvimento social se for bem distribuído. Na verdade, para você ter educação e, portanto, desenvolvimento científico e tudo mais, precisa ter um espaço aberto para a revelação dos novos talentos, das novas capacidades, muitas vezes de jovens muito pobres. No Brasil, nas comunidades mais pobres, é muito difícil a pessoa ter espaço de descoberta do seu talento. Nós desperdiçamos um número enorme de possíveis cientistas, professores, artistas, até mesmo empresários, nos meios mais pobres, e isso tem que ser revertido. O que eu estou apontando é um ciclo virtuoso no qual ciência, educação, inclusão social, economia, todos podem um favorecer o outro.

Nos países desenvolvidos, já se vislumbra uma possível retomada da vida normal, sobretudo em decorrência do avanço da vacinação e das ações de governos para dar suporte econômico a trabalhadores e negócios afetados pela pandemia. Como o senhor coloca o Brasil nesse processo de reconexão da sociedade com suas estruturas vitais?

O Brasil precisa enfrentar não só a pandemia já existente, mas o risco da variante Delta, que em vários países está surgindo de uma maneira que ainda não se sabe bem que dimensão terá. Temos os casos no Reino Unido, em que está ressurgindo o contágio em razão da variante Delta, mas onde o número de mortes tem sido baixo. Não sabemos qual a proteção que cada uma das vacinas aplicadas no Brasil trará contra a variante Delta. De qualquer forma, é necessário manter as medidas de proteção, o distanciamento físico, a máscara, o álcool gel, a higienização das mãos. É preciso também promover a vacinação da população brasileira com todas as doses necessárias o mais brevemente possível, para que possamos voltar para uma certa normalidade que está fazendo falta não só para economia, mas para a saúde mental das pessoas.

A profunda desigualdade social do Brasil se mostrou com intensidade nesta pandemia, em especial na situação de vulnerabilidade a que muitos foram jogados e no abismo que apartou do ensino jovens sem acesso aos recursos necessários para aulas remotas. O senhor dimensiona a extensão deste prejuízo? Que modelo de ação poderia enfrentar esse problema em curto prazo?

O prejuízo dos alunos é grande e não está apenas no plano do conhecimento, no qual, sem dúvida, houve um grande retardamento. Estamos vendo com a volta às aulas presenciais que houve uma debandada de alunos, tanto no setor privado quanto no público. Mas eu diria que, mais que tudo, nós temos um trauma psicológico muito agudo que precisa ser tratado. Tenho insistido que na volta das aulas presenciais, assim como na volta de qualquer trabalho presencial, o primeiro momento teria que ser de todos conversarem com todos, para contar do seu sofrimento, de suas angústias, dos seus medos, porque ter o medo da morte precoce não é coisa pequena, ainda mais para crianças ou adolescentes. O medo e às vezes a realidade ter perdido um ente querido, um parente próximo, talvez um amigo. Tudo isso é muito grave e teria que ser tratado. Uma educação séria priorizaria antes de mais nada essa questão.

Além dos efeitos da pandemia e de ações que estão sob investigação em uma CPI, o Brasil passou a viver sob uma tensão política imposta por contínuas ameaças aos fundamentos da democracia e aos ritos constitucionais que regulam a harmonia entre os poderes. O senhor vê ambiente para se consolidar uma ruptura institucional até chegarmos ao pleito de 2022, ou até mesmo depois deste, conforme o resultado?

Ruptura institucional, não. É muito difícil prever o que vai acontecer de hoje até as eleições, ainda mais levando em conta que o presidente tem constantemente apelado à subversão e até mesmo ao golpe, dizendo que se as eleições não forem como ele quer não terão lugar, ou ele não reconhecerá o resultado delas. É muito importante não apenas a atuação dos órgãos de Estado que são pagos para isso, como o Tribunal Eleitoral, a Polícia Federal, o Supremo Tribunal Federal, mas também uma manifestação muito clara da cidadania de recusa de qualquer ruptura da ordem constitucional.

O senhor realizou na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) um curso voltado a professores do Ensino Médio usando como ferramenta pedagógica a série espanhola “Merlí”, que mostra um professor de filosofia usando metodologia não convencional para enriquecer o aprendizado de seus alunos. De que forma iniciativas como esta da ficção poderiam se tornar factíveis na vida real para fazer da escola um ambiente mais sintonizado com a realidade de gerações imersas no ambiente digital? 

Dei cursos sobre a série tanto na Casa do Saber quanto na Unifesp, que estão todos disponíveis na internet. Merlí é um caso muito excepcional. Ele é um professor muito original, que, na série, obviamente de ficção, praticamente não tem um tema preparado com o qual chega. Está sempre lidando com alguma coisa que acaba de acontecer e que se articula com a vida de seus alunos. Então, é uma série muito interessante para mostrar como a filosofia, longe de ser algo desconectado da vida das pessoas, pode trazer-lhes questionamentos e, às vezes, sugerir que encontrem respostas. Em vez de dar as respostas prontas, sugerir que procurem por si próprios as respostas para questões cruciais das vidas deles, desde a sexualidade até a crença em Deus e, sobretudo, ao longo das três temporadas e dos 40 episódios, os sentidos que podem atribuir às suas vidas. O que é expressivo como resultado da série é a gente ver as pessoas alcançarem um nível de liberdade muito significativo. Esta ficção é muito rica. Agora, penso que não se deve superestimar o papel do ambiente digital na educação regular, na educação que vai até, digamos, o final do curso de graduação para uma pessoa que fez isso tudo na idade habitual. Até os 20, 22 anos, o contato presencial com o colega é muito importante porque é isso que vai socializando a pessoa. Educação não é uma transmissão de conhecimento e nem apenas uma formação de competências. Educação é a formação de uma pessoa. Nesse sentido, o contato presencial é decisivo. A educação a distância é útil, sobretudo para quem não teve a ocasião de fazer isso na idade convencional, ou para quem deseja mais tarde fazer um outro curso, ou ainda para quem não tem na sua região geográfica um curso bom, mas a prioridade nos anos de formação da pessoa deveria ser da educação presencial.

A edição 2021 do Fronteiras do Pensamento contará com a presença de nomes de expressão em diferentes áreas para debaterem, entre outros temas, os desafios que se impõem na reconfiguração do mundo pós-pandemia. Para o senhor, quais são os desafios mais urgentes para superarmos esse baque e que ensinamentos deste período devem ficar registrados na história? Os desafios mais urgentes, hoje, me parecem ser, em primeiro lugar, os da volta ao presencial, com todo o trauma que houve, como vai se lidar com esse desgaste emocional terrível do medo da morte precoce e da perda de entes queridos, enfim de uma humanidade que perdeu já cerca de 4 milhões de vidas para a covid-19, senão mais, porque há a subnotificação em vários países. Como vai ser a volta a uma certa normalidade e como vamos também, especialmente as pessoas que têm poder de decisão, não apenas cientistas, mas políticos e empresários, evitar novas pandemias desse tipo, sobretudo essas que vem do mundo silvestre para o mundo urbano, como foi o caso da Aids e como é o caso da covid-19, em que vírus presentes na natureza dita selvagem chegaram ao mundo humano e urbano produzindo uma tremenda devastação. Com evitar que isso continue se repetindo vai implicar um cuidado maior com a exploração da natureza, entre muitos outros fatores. Parecem ser essas as prioridades.