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Richard Dawkins e Brian Greene: poderíamos gastar alguns minutos falando sobre Deus?

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Richard Dawkins (foto: Linda Brownlee)
Richard Dawkins (foto: Linda Brownlee)

Richard Dawkins e Brian Greene se reuniram no palco do centro comunitário 92Y, que, há quase um século e meio, promove encontros culturais na cidade de Nova York. Com este encontro, o 92Y, criado e mantido pela comunidade judaica, mostrou que realmente está aberto a todas as ideias.

De um lado, Brian Greene, físico norte-americano, fundador do Instituto de Cordas, Cosmologia e Física de Partículas da Universidade de Columbia, convidado do Fronteiras 2014. De outro, Richard Dawkins, biólogo e etólogo britânico, conferencista inaugural do Fronteiras do Pensamento 2015. A pergunta é uma: “poderíamos gastar alguns minutos falando sobre Deus?" Leia abaixo a tradução e assista ao vídeo ao final do texto.

Não esqueça: Richard Dawkins abre a temporada 2015 do Fronteiras do Pensamento no final deste mês. A promoção do Fronteiras Porto Alegre vai só até dia 06 de maio: adquira seu pacote de ingressos e leve um acompanhante ao encontro com Dawkins.
- Fronteiras do Pensamento Porto Alegre
- Fronteiras do Pensamento São Paulo

Brian Greene: Se você não se importa, poderíamos gastar alguns minutos falando sobre Deus?
Eu queria saber, pois eu, também, sou perguntado em muitas palestras, sobre a minha opinião a respeito de Deus, e a minha resposta usual é que, claro, pode ser que haja um Deus que esteja por trás de tudo e o que estamos fazendo, enquanto físicos, químicos e biólogos é elaborar as leis de Deus, e se é esse o caso, fico feliz em ser parte dessa nobre jornada.

Eu, então, concluo dizendo, “Veja, não há prova disso, eu não vejo razão para acreditar nisso, mas se o que estamos fazendo é apenas elaborar as leis divinas da física, ou da química, ou da biologia e isso é tudo que você precisa para o universo, então fico feliz em fazer parte dessa jornada".

Então, em suma, de um ponto de vista sociológico ou histórico, a religião é bastante interessante, mas é profundamente desinteressante para responder perguntas profundas, pois eu sinto que tudo que estou fazendo neste caso é substituir um conjunto misterioso de palavras enquadradas cientificamente por outro conjunto de palavras igualmente misteriosas enquadradas de forma não científica.

Agora, devo dizer que, depois disso, eu sempre peço perdão, porque sou totalmente a favor de cobrir todas as apostas, não estou acima disso de forma alguma. O que você pensa desse ponto de vista?

Richard Dawkins: Bem, penso que a noção de que Newton estava elaborando as leis de Deus e estava demonstrando a glória de Sua mente quando elaborou as leis da mecânica, e assim por diante, é algo com o qual não me sinto tão à vontade quanto você parece sentir, pois me parece que a noção de que exista uma inteligência supernatural ou super-humana que criou a tudo é algo que enfraquece toda a atividade cientifica, já que – talvez um biólogo evolucionista sinta isso com mais força – toda a empreitada da biologia evolucionista existe para explicar como você chega de virtualmente nada a uma complexidade e design pródigos.

Quer dizer, passamos a bola aos físicos quando temos que ir de virtualmente nada à absolutamente nada. Mas, se você, digamos, começa de uma bactéria de nível bastante avançado e evoluí para os mamíferos e humanos, temos uma teoria funcional que sabemos ser verdadeira e a qual explica como você pode evoluir de uma grande simplicidade para uma pródiga complexidade e, finalmente, ao tipo de complexidade que é capaz de criar coisas, de elaborar como criar coisas.

Bem, se você de repente inserir aí uma máquina criadora, um criador, uma inteligência que está na raiz de todo o universo, então você diminui toda a atividade científica, pois a atividade cientifica em sua totalidade existe para explicar como que você chega a algo complexo o suficiente para criar.

Brian Greene: Mas até caso esse ser tenha simplesmente elaborado as leis e, então, se afastado?
Richard Dawkins: Até nesse caso, até o Deus deísta, que elaborou as leis e se retirou.
Se estiver implícito que essas leis foram habilmente elaboradas, habilmente esculpidas, como muitos pensam ter sido, de forma que os átomos foram criados, a química tenha sido criada, as estrelas tenham sido criadas e as reações nucleares dentro dessas estrelas produzissem os elementos para que depois explodam e tenhamos uma química que produza a vida e então a origem da vida, e assim por diante.

Se esse Deus deísta pensou nisso tudo, e estabeleceu as leis da física, então ele teria de ser muito esperto, ele teria que ser o físico para acabar com todos os outros físicos, não importando se ele, então, se retirou. Ele precisa de uma explicação por seus próprios méritos. E me parece que a nobre empreitada científica existe para começar do mais próximo ao nada que possamos chegar.