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Roger Scruton e Jordan Peterson: apreendendo o transcendente

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E se nosso sentido da vida fosse nada menos do que compreender o ser humano? É um propósito nada pequeno, mas que rege dois grandes nomes contemporâneos: o filósofo Roger Scruton e o psicólogo Jordan Peterson.

Ambos se reuniram no final de 2018 para uma conversa em Cambridge com um tópico que não poderia ficar de fora desta busca: o transcendente.

É possível falar sobre o ser humano sem tocar nesta questão? Depende de como você compreende o termo.

Os intelectuais explicam logo de início: para Scruton, o transcendente é aquela capacidade que temos de nos colocar no lugar do outro, é uma imaginação que ultrapassa o entendimento sensorial e que preenche o vazio das nossas vidas.

Já Peterson, define da seguinte forma: “é aquilo que ultrapassa a nossa própria ignorância”.

Deste ponto de vista, o transcendente é um dos temas que rege o Fronteiras do Pensamento.

Afinal, se queremos ir além das fronteiras das nossas próprias ideias, buscar esta transcendência discutida por Scruton e Peterson pode ser um caminho sensato. Jordan Peterson e Roger Scruton nos guiarão por esta jornada neste debate.

Roger Scruton é um dos conferencistas do Fronteiras do Pensamento 2019, em Porto Alegre e em São Paulo. O filósofo britânico vem ao Brasil como convidado do projeto logo mais, no início de julho.

Garanta sua presença nas conferências deste ano. Além de Scruton, o Fronteiras do Pensamento Porto Alegre ainda receberá o Nobel da Paz Denis Mukwege, Janna Levin, Werner Herzog, Contardo Calligaris e Luc Ferry.

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Abaixo, você poderá ouvir o podcast da conversa em inglês, seguido de um excerto da transcrição em português. Ao final do texto, você poderá assistir ao vídeo integral, com legendas em português.


Roger Scruton e Jordan Peterson: apreendendo o transcendente

A conversa entre o Dr. Jordan B. Peterson e Sir Roger Scruton foi moderada pelo Dr. Stephen Blackwood e introduzida pelo Professor Douglas Hedley. O evento foi apresentado pelo Centro Cambridge para Estudo do Platonismo e pelo Ralston College, no dia 02 de novembro de 2018 em Cambridge, Inglaterra.

Jordan Peterson e Roger Scruton


Douglas Herdley: Gostaria de começar perguntando, a cada um de vocês, o que é o transcendente?

Roger Scruton: Bem, deixe-me começar. Eu tenho uma posição, que também é atribuída a Kant, de que temos um entendimento negativo muito claro. Temos avançado até o limite de nosso pensamento em tantas áreas, sabendo que, apesar de não haver mais nada que possamos dizer, de alguma forma a verdade não foi esgotada.

Eu penso que essa visão negativa precisa ser combinada com uma visão mais positiva, que nos diga que existem outros caminhos, talvez não através do pensamento, mas alguma outra maneira de cruzar aquela barreira, como se estivéssemos aterrissando no reino do transcendente e conhecendo isso de dentro.

Isso é algo que nós entendemos muito rapidamente nas relações interpessoais. Quando me dirijo a você, sei que estou me dirigindo a algo que também se dirige a mim, mas de um lugar que eu jamais poderia estar - eu não poderia me ver através daqueles olhos e não posso capturar o que está me vendo através daqueles olhos.

Mesmo assim, existem saltos na imaginação que podem me colocar no seu ponto de vista e, a partir desse ponto de vista, posso acabar entendendo exatamente o que eu sou, mas de uma forma completamente diferente do que simplesmente o conhecimento empírico que tenho de mim mesmo. Podemos adaptar esse tipo de entendimento interpessoal a todos os outros aspectos de nosso mundo que são misteriosos. A música por exemplo. Esse é um começo.

Jordan Peterson: Sir Roger mencionou que o transcendente é aquilo como qual colidimos quando percebemos nossa ignorância. Então, é aquilo que transcende nossa ignorância. Isso se torna um fato implacável, a menos que você acredite que não tem ignorância - neste caso, não há um motivo para continuar discutindo com você.

Você também pode pensar sobre isso tecnicamente. Sabemos o suficiente sobre como o cérebro funciona, não que saibamos muito, de forma que coisas úteis podem ser ditas sobre isso.

Você tende a representar o mundo da maneira mais simples que pode e que funciona para o que você está fazendo. Você não enxerga realmente o mundo. Você vê representações de baixa qualidade e suficientemente úteis do mundo. Se estas representações funcionarem, então, está bem. Não há necessidade de ajustá-las. Elas são relativamente fáceis de lembrar e de manipular.

Mas, às vezes, você tem uma má interpretação sobre alguém, por exemplo. Você tem uma conversa e a conversa fica atravessada. Isso significa que a coisa que você pensou que estaria conversando não é a coisa com a qual você está conversando e isso se manifesta através do erro. O erro é o lugar onde o transcendente se revela. O que está realmente se revelando é a realidade que está do lado de fora e embaixo das suas percepções.

Então, o que você vê no mundo é um conjunto de desenhos animados e boa parte disso é, na verdade, a consequência de você não estar vendo nada além da sua memória. Seu cérebro é organizado de forma que, em vez de percorrer toda a dificuldade de ter que olhar para algo em si mesmo, você olha para o que supõe estar lá. Se você pode ficar satisfeito com isso, muito melhor, mas a coisa em si mesma é sempre muito mais rica do que sua percepção. Em parte, é por isso que você comete erros, mas em parte também é a razão pela qual continuamos acumulando sabedoria no mundo. Sempre há algo mais a ser descoberto.

Você pode mostrar isso até mesmo no sentido religioso em algum grau, porque você pode dizer que há um elemento para o transcendente que gera nas pessoas um sentido de significação religiosa.

Você pode fazer isso cientificamente, ao administrar nas pessoas substâncias que quebre a inibição da percepção pela memória e, então, isso estabelece o ponto onde o transcendente tende a se revelar – algumas vezes, de forma avassaladora. Isso não se trata de alguma ficção. O que é transcendente é mais real do que a realidade que você percebe.

Douglas Herdley: Os antigos e os medievais tinham uma sensação clara de que não era o mundo que estava mudando, mas sim nós mesmos enquanto ascendíamos em direção a verdades mais profundas, a formas mais elevadas de beleza – enquanto nos tornamos mais conscientes de nós mesmos. Então, não é o mundo que está mudando: somos nós.

Pergunto se vocês podem falar sobre como vocês entendem a natureza desta ascensão, deste movimento e o que o desencadeia.

Roger Scruton: Tomaria cuidado com a metáfora em “ascender”. Em Platão, é muito claro o que ele queria dizer: ele queria que nós transcendêssemos nossa percepção mundana, nossa forma mundana de ver as coisas. Platão queria que olhássemos para o mundo da perspectiva de Deus e isso poderia ser feito se entrássemos no mundo das formas puras e abandonássemos a realidade empírica.

Enquanto a experiência do transcendente está disponível para nós, pessoas modernas, não se trata da forma com que a alcançamos. Talvez, Jordan Peterson esteja certo de que há experiências narcóticas em que as coisas se abrem para nós porque velhas barreiras são subitamente removidas.

Mas, no meu próprio caso, é a concentração na realidade empírica que, em determinado momento, se transforma de mera compreensão sensorial para uma visão da realidade se comunicando comigo.

Penso que é isso que a literatura, a arte e a música fazem. Elas são as melhores. Elas reescrevem a realidade de forma a comunicar algo com a pessoa. A arte não está apenas lá como um objeto na sua frente.

Este sentido de transcendente é como se descobrir em um espelho, vendo no mundo um todo que é novo e que não se pode identificar com palavras o que está sendo observado.

Não é um mistério, mas é algo que não se pode explicar. Essa é a diferença entre o escritor bom e o ruim, claro. O bom escritor descreve algo de tal forma que a coisa descrita contém a alma do leitor.

Jordan Peterson: Esta pode ser a diferença entre “algo” e “algo com significado”. Esse é um fenômeno muito misterioso. Na verdade, é a essência do fenômeno, porque isso significa “iluminar”.

Estamos rodeados por fatos empíricos. Eles estão em todo lugar, são mais do que podemos contar. Mas, alguns emergem e se manifestam como essa conjunção entre o factual e o significativo.

Talvez, isso se aproxime do que você descreveu. Alguns fatos se manifestando implicitamente significativos. Isso quer dizer que existe um chamado que não está dentro de você, não sei como explicar.

Você está em uma livraria e um livro se revela para você. Você está em uma conversa e parte da conversa dispara algo em você.

Você está lendo um artigo científico e a maior parte da leitura é chata, mas, de repente, algo se destaca: é um portal para o transcendente. Esse é o lugar onde o fato e o sentido convergem. É um fenômeno que não entendemos muito bem. Tem algo a ver com sua convergência, com a narrativa que nos guia - qualquer que seja ela.

Assista ao debate entre Jordan Peterson e Roger Scruton na íntegra, logo abaixo, com legendas em português.


Assista à sessão de Perguntas e Respostas, que aconteceu logo após o evento com Scruton e Perterson.

Dentre os temas abordados, a importância da contemplação da morte na educação; a doação, a reciprocidade e o amor como virtudes; e o papel da felicidade no desenvolvimento humano.

As perguntas foram feitas pelos professores presentes na plateia. Assista abaixo, com legendas em português.