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Salman Rushdie somos todos filhos de Scheherazade

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 Crédito: Johannes Eisele/AFP/Getty Images
Crédito: Johannes Eisele/AFP/Getty Images

Até a publicação de Os versos satânicos, o escritor anglo-indiano Salman Rushdie havia angariado prestígio no universo literário de língua inglesa. Seu romance Os filhos da meia-noite (1981) havia sido agraciado com o mais importante prêmio britânico, o Man Booker Prize, e seu livro seguinte, Vergonha (1983), o consagrara como um renovador da literatura inglesa a se debruçar sobre a questão pós-colonial (Vergonha chegou a ser aclamado até no Paquistão muçulmano, pelo olhar que lançava para a independência do país). Em fevereiro de 1989, meses depois de vir a público, Os versos satânicos tornou Rushdie um escritor conhecido no mundo inteiro, mesmo por quem nunca leu nenhum de seus livros. E não, isso para ele não foi vantagem alguma.

Rushdie se tornou um homem com os dias contados. O então aiatolá do Irã, Ruhollah Khomeini, expediu uma declaração conclamando qualquer seguidor do Islã a matar o escritor. A recompensa incluía não apenas US$ 1 milhão (montante que foi sendo aumentado por outras fontes ao longo do tempo), mas um lugar assegurado no Paraíso. Rushdie passou a viver escondido, sob proteção do serviço secreto inglês.

Muitos criticaram em um primeiro momento a necessidade de o Estado britânico proteger o autor, mas o decreto de Khomeini não ecoou apenas na Inglaterra, onde Rushdie vivia. Ao longo dos anos seguintes, enquanto a tensão provocada pela polêmica crescia, exemplares do romance foram queimados, livrarias foram ameaçadas, o tradutor japonês do livro, Hitoshi Igarashi, foi esfaqueado e morto, e Ettore Capriolo, responsável pela versão italiana, também foi esfaqueado e seriamente ferido.

Um pedido público de desculpas feito por Rushdie não abrandou a fúria dos opositores, e o autor viveu por quase uma década a experiência paradoxal de ser um best-seller sem poder sair de casa, recebendo um bom dinheiro em direitos autorais que precisavam ser gastos em mudanças constantes de endereços e no pagamento de seguranças.

O fato de ser um dos homens mais perseguidos do planeta por, basicamente, ter escrito um livro, tornou Rushdie um dos grandes símbolos da luta pela liberdade de expressão. À medida que o tempo passou sem que os radicais tivessem conseguido assassiná-lo, o perigo de a execução ser levada a efeito foi diminuindo. Em 1998, o governo iraniano declarou oficialmente que não apoiaria nem coibiria nenhum atentado contra o escritor. Por outro lado, em 1999, uma fundação iraniana prometeu pagar US$ 2,8 milhões a quem o assassinasse. Rushdie concedeu a seguinte entrevista a ZH por e-mail.

ZH: O senhor passou por algumas das mais perturbadoras experiências vividas por um escritor. O que o impulsiona a continuar escrevendo?
Rushdie:
Eu sou um escritor.

ZH: Escrever parece um gesto otimista, endereçado simultaneamente ao futuro e às pessoas que o cercam. O senhor se considera um otimista?
Rushdie:
Você tem razão, acho, ao afirmar que livros são alimentados pelo otimismo, otimismo em relação ao trabalho, pelo menos, embora não necessariamente em relação ao mundo. Talvez Antonio Gramsci tenha expressado melhor quando ele falou que tinha o "pessimismo do intelecto e o otimismo da vontade".

ZH: Perguntei a respeito de otimismo porque o tom com o qual o senhor encerra Os filhos da meia-noite é, ao mesmo tempo, melancólico e esperançoso. Melancólico pelos "poderes" desperdiçados da primeira geração de paquistaneses e indianos independentes. Esperançoso a respeito do que poderia vir na geração seguinte. Três décadas depois, como o senhor avalia aquela então jovem geração?
Rushdie:
Sobre a Índia, hoje, é difícil ser otimista. Há uma geração de líderes que são profundamente inescrupulosos. Muitos têm sido responsáveis por supervisionar atos criminosos ou mesmo perpetrá-los, e ainda se movimentam livremente, com impunidade, ainda controlam as coisas. Há também uma disposição de atacar escritores, artistas, intelectuais e cineastas, o que é um mau presságio para a liberdade de expressão. Os perigos para as mulheres ainda estão lá, e o abismo entre ricos e pobres está aumentando. Um sinal de otimismo é a ascensão do partido Aam Aadmi (o Partido do homem comum), mas ainda é cedo para dizer quão grande será sua influência.

ZH: Alguns críticos, movidos pelo entrecruzamento de referências, fontes e culturas em seus romances, já o definiram como um escritor "pós-moderno". O que o senhor pensa dessa definição?
Rushdie:
Sem dúvida eu sou pós-alguma coisa. Pós-moderno, pós-colonial... alguma coisa. Eu mesmo não penso em categorizações teóricas, eu escrevo meus livros e deixo outros teorizarem.

ZH: Muitos leitores apontaram ressonâncias entre os elementos "incomuns" ou "fantásticos" em seus livros e o "realismo mágico" latinoamericano. O senhor também vê similaridades ou esta comparação apenas serve para denominar aquilo que leitores europeus considerariam "exótico"?
Rushdie:
Não vejo nada de exótico no uso de técnicas não naturalistas. Esta forma de escrita floresceu em todas as literaturas em algum momento. Gogol, Bulgakov, Rabelais, Grass, Calvino, mesmo o Dickens que criou o Escritório de circunlocução e o processo judicial interminável de Jarndyce contra Jarndyce poderiam ser chamados de realistas mágicos. Bem como os surrealistas franceses e os fabulistas americanos. Estas técnicas são simplesmente parte da orquestra à disposição do escritor. Deve-se usá-los quando necessário.

ZH: Em uma entrevista de 2005 para a Paris Review, o senhor mencionou um projeto chamado Parallelvile, definido como "uma ficção científica futurista combinada com filme noir, uma espécie de Blade runner misturado com A marca da maldade". Como está esse projeto?
Rushdie:
É um projeto abandonado.

ZH: Originalmente, as fábulas eram histórias curtas que podiam ser contadas ao longo de noite. O senhor entrelaça várias histórias de tom fabular em romances extensos. Pode o seu trabalho ser lido como um cruzamento entre o romance europeu, as fábulas e os artifícios de Scheherazade?
Rushdie:
Sim! Eu cresci mergulhado nos "contos maravilhosos" do Oriente, As mil e uma noites, o Panchatantra, o Hamzanama e assim por diante, e eles têm sido uma grande influência para mim. Somos todos filhos de Scheherazade, a heroica contadora de histórias que narrava contra a morte e que domou um tirano – de modo improvável – civilizando-o.

ZH: Joseph Anton, seu livro de memórias, conta o período que o senhor viveu sob proteção depois da publicação de Os versos satânicos, mas registra detalhes muito pessoais de sua vida. O senhor se sentiu, de algum modo, mais "desprotegido" ao escrever este livro sobre coisas que de fato aconteceram?
Rushdie:
Foi um pouco como se despir em público, mas esta é a natureza da autobiografia.

ZH: Devido ao episódio da fatwa, seu nome é frequentemente mencionado como um símbolo na luta contra o fanatismo religioso. O senhor se sente confortável com essa definição?
Rushdie
: É inevitável, suponho, mas estou realmente engajado na luta pela liberdade de expressão. E contra o fanatismo, mas meu trabalho é também sobre muitas outras coisas. Talvez nem seja primariamente sobre estas grandes causas. Na minha obra, eu não sou um polemista. Eu sou um contador de histórias. E eu não me sinto simbólico. Eu me sinto... real. Eu sou o autor dos meus livros. Nem mais nem menos do que isso.

Leia a entrevista no site da ZH