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'Se a internet é uma droga, é melhor que antidepressivo', diz Elisabeth Roudinesco

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foto: Hulton Archive
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A grande virada dos tempos contemporâneos é marcada por uma forte crise da democracia e do individualismo. As turbulências globalizadas ameaçam a Europa com desvios totalitários em meio ao descrédito na política tradicional e ao sentimento de perda de representação social. Há um crescente anseio por mudanças, mas de rumo incerto. Este é o diagnóstico resumido da psicanalista e historiadora Elisabeth Roudinesco ao analisar o homem deste conturbado início de século.

A francesa esteve no Fronteiras do Pensamento 2016 e chegou ao país logo após o lançamento da edição brasileira de sua biografia de Sigmund Freud (Zahar), minucioso estudo de cerca de 600 páginas no qual define o pai da psicanálise como "conservador rebelde" e criador de uma "revolução simbólica" em perpétuo movimento.

Leia abaixo trechos da entrevista à Folha, feita no apartamento da psicanalista, em Paris.

Para a senhora, não se pode falar em evolução da psicanálise, mas de "rearranjos" em função das mudanças na sociedade.
Elisabeth Roudinesco: A psicanálise não é uma disciplina científica, no sentido das ciências da natureza. Também não é uma ciência suscetível de progressos como a medicina. Hoje não se cura doença como se fazia na época de Hipócrates. No domínio do psiquismo, não há progresso da ciência. É a razão pela qual se pode sempre voltar aos textos fundadores. Por outro lado, surgiram psicotrópicos e remédios, que não são um progresso em si, pois nunca curaram loucura nem neuroses. Os loucos passaram do asilo à vida na cidade. Não temos curas, mas rearranjos.

Qual é o futuro do tratamento psiquiátrico químico?
Elisabeth Roudinesco: Com a química, acreditou-se que havia progresso, que doenças psíquicas seriam erradicadas. Mas elas são apenas tratadas de modo diferente. É melhor ter remédios do que hospícios? Sim, mas é um progresso social, não científico. Após 40 anos, a ilusão da química está sendo contestada pelos próprios pacientes.

A senhora critica um certo emburrecimento dos psicanalistas.
Elisabeth Roudinesco: Não foi por acaso que abandonei a prática clínica e me tornei historiadora. Hoje, a cultura psicanalítica, o estudo dos textos, não são mais os psicanalistas que fazem. Eles desertaram para publicar casos clínicos. Os estudos quem faz são filósofos, literatos, historiadores. Este fenômeno é mais evidente nos EUA e na Europa, e menos no Brasil.

Por que menos no Brasil?
Elisabeth Roudinesco: Os psicanalistas brasileiros são ecléticos, menos dogmáticos. A ausência no Brasil de um grande pensamento ordenado resultou em algo mais positivo. Há 30 anos, os psicanalistas franceses viajavam ao Brasil como colonizadores. E sofreram um terrível golpe, porque hoje os brasileiros são melhores que eles.

Qual é, na sua opinião, a grande virada dos novos tempos?
Elisabeth Roudinesco: É a crise atual da democracia. O fim do comunismo, em 1989, deu esperança ao liberalismo, que se tornou o sistema dominante, com a ideia de que o indivíduo se basta a si mesmo. Isso acabou em 2008, na crise financeira. Percebeu-se que as desigualdades cresciam e que a economia financeira criava condições para sua própria destruição. Veio a era das dúvidas. E uma renovação religiosa terrível no mundo, contestação obscurantista do liberalismo. Como vamos sair disso? Não sei.

Como a sra. percebe a velocidade das mudanças hoje?
Elisabeth Roudinesco: Sou muito favorável à internet. Todas as novas tecnologias nos acrescentam muito. Mas é preciso educação e inteligência para fazer a triagem diante da tela. A ideia de curas no meio do mato sem internet e televisão é algo ridículo. Não se deve responsabilizar máquinas por nossas escolhas. E a ideia de que minha tela é uma droga é formidável. Se é uma droga, é melhor que álcool e remédios. Hoje, em hospitais psiquiátricos e asilos para idosos, se proíbe internet. É um horror. Tiram a única droga importante, melhor que os antidepressivos. São os excessos delirantes de nossa sociedade.

Que outros excessos a sra. vê?
Elisabeth Roudinesco: No combate ao sofrimento animal, com o que concordo, o veganismo é delirante. Não consumir produtos de origem animal? É um fanatismo perigoso. A lógica é ainda mais débil porque somos animais, então um bebê não poderia ser amamentado, pois o leite vem de um animal. Uma ejaculação é o mesmo. Também não podemos matar animais perigosos, ratos, escorpiões. É um novo fanatismo.

Mudar de hábitos é mais difícil hoje?
Elisabeth Roudinesco: Não é mais difícil. A questão é que, ao se viver uma mudança, não se sabe onde ela pode dar. Maio de 68 não foi uma revolução, mas uma adaptação social diante de instituições arcaicas. No fundo, isso se repete. Por trás de Maio de 68 havia a contestação da Guerra do Vietnã, a descolonização e a ideia de que devíamos parar de agir como polícia no mundo inteiro. Hoje, temos o retorno do religioso, a globalização. Mas não creio que seja revolução. E se houver uma, será um golpe de Estado fascista, isso que é terrível. Não tínhamos fascismo em 68. Hoje, há demanda por mudança, mas uma extrema direita com 30% de intenções de voto.

E em relação à mudança de hábitos, pessoais?
Elisabeth Roudinesco: As gerações de hoje querem famílias, um pouco de ordem. Os homossexuais entraram na ordem. Imbecis hostis ao casamento gay não entendem que se trata de uma demanda liberal. Não tem a ver com revolução de esquerda. É uma adaptação de velhas instituições a novos costumes, como Maio de 68.

E o indivíduo no meio disso?
Elisabeth Roudinesco: Se o indivíduo não tem ideal coletivo, não é nada. Liberdade individual não basta.

O chamado Freud bashing, onda de ataques à vida e à obra de Freud, acabou?
Elisabeth Roudinesco: Sim, mas vamos ter um novo Freud bashing, mais suave. Será uma tentativa de eliminar a aventura intelectual, de afogá-la no cientificismo. O Freud bashing surgiu em parte porque se fez da psicanálise um imperialismo do sentido. Não se pode fazer ditaduras de pensamento. Houve o mesmo contra Darwin, Einstein, Marx. Sempre que um pensador muda o olhar do homem sobre si mesmo, e é o caso de Freud, há uma recorrente vontade de destruí-lo.