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Simon Schama: "O antissemitismo nunca desaparece de verdade"

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O historiador britânico Simon Schama ficou conhecido nos anos 1980 pelo invejável talento narrativo, em best-sellers como Cidadãos, sobre a Revolução Francesa, ou O desconforto da riqueza, sobre a Holanda do século XVII.

Em 2011, a emissora britânica BBC o convidou para encarar um desafio: um documentário sobre a história judaica. O resultado, A história dos judeus, tornou-se não apenas uma série de TV em cinco episódios, mas também uma obra em dois volumes – o primeiro lançado no Brasil no final de 2015 (Companhia das Letras).

A história de Schama reúne as duas vertentes da diáspora judaica: seu pai era um judeu sefardita de família turca; sua mãe, asquenazita de origem lituana. Professor na Universidade Columbia, Schama vive hoje em Nova York, segundo ele o melhor lugar para um judeu morar em toda a história.

O senhor diz que este é seu projeto mais pessoal. Por que levou tanto tempo para fazê-lo?
Simon Schama:
É um pouco como Jonas, que ficou andando para longe do encontro de Deus (risos). Felizmente não tive de ficar na barriga de uma baleia… há historiadores que tentam estudar eras e lugares que não se parecem com os seus. E outros que tentam fazer a história de sua identidade cultural e nacional. Fico na maior parte das vezes na primeira categoria.

Nunca quis muito escrever história britânica, nem judaica. Quando tive acesso a um arquivo extraordinário descoberto em Israel, fiz um livro de história judaica. Era uma tortura psicológica, algo por sinal muito judaico. Em algum momento, a coisa veio toda de volta para mim, como na palavra hebraica “teshuvá", ao mesmo tempo resposta, retorno e arrependimento. Foi ideia da BBC fazer a série de TV. Sabiam que eu rondava o tema. Aí pensei: “Bom, tudo é tão mal compreendido. O que os britânicos sabem se resume a Auschwitz e ao conflito com palestinos. Seria ridículo não aproveitar a oportunidade".

Lidar com textos religiosos é um desafio. Há quem tome a Bíblia como mapa para investigar o mundo antigo, e quem a despreze. E o senhor, que caminho adotou?
Simon Schama:
Basicamente, sou um Espinoza (filósofo judeu holandês do século XVII) com a Bíblia. É uma obra de literatura, escrita por gente muito diferente ao longo de centenas de anos. Mas não quer dizer que seja completamente ficcional. Sabemos disso por meio dos arqueólogos. De um lado, há fanáticos que andam pela Palestina com um mapa na mão, querendo, como os arqueólogos do século XIX, achar o local onde estava Josué no século VII a.C. Boa sorte! Do outro, há os arqueólogos dos anos 1970 e 1980, dizendo que é tudo fantasia. Mas não é. O mito do Êxodo é a única histórica gigantesca, importante para o judaísmo, sobre a qual não existe nenhuma evidência. O caminho do meio, para mim, corresponde mais à verdade, só isso.

O senhor descreve um conflito entre judeus da Palestina e do exílio já na Antiguidade. O que judeus de Israel e da diáspora têm a aprender com aqueles tempos?
Simon Schama: Hoje, autoridades rabínicas em Israel decidem que detêm o monopólio de definir quem é judeu, desprezando milhões de judeus americanos reformistas. É anti-histórico e violento. Flávio Josefo (historiador judeu e cidadão romano) era um judeu helenizado, mais romano que os romanos em certos aspectos. Quando se cansa de ser tratado de cima para baixo, retorna a uma comovente e enfática reafirmação do judaísmo como uma forma de ética. Foi capaz de dizer, no exílio, algo que ninguém dizia na Palestina conquistada. Não necessariamente os judeus da diáspora são mais brandos. Se você olhar para judeus seculares em Israel, eles se veem como israelenses. Não estão necessariamente interessados na modernização do judaísmo. Se olhar a diáspora, encontrará um debate vivo sobre isso. Não é verdade que apenas judeus na Palestina tenham o sentido mais claro e forte do que significa ser judeu.

Como o antissemitismo evoluiu até hoje?
Simon Schama: Judeus que chegam a Roma ou a Alexandria, no Egito Antigo, são ao mesmo tempo desejados pelo dom com idiomas, talento para o comércio e todo o resto, e vistos com desconfiança pelos mesmos motivos. Há uma vertente particularmente horrível, que chegou a nós por meio de um gramático egípcio, Mâneton. Na época, os judeus tiveram uma doença infecciosa, que pode ter sido lepra. Foram expulsos do Egito, depois surgiram histórias de que foram comandados por seu Deus para infligir a praga. É uma teoria incrivelmente antiga dos judeus como contaminadores, como doença – a que Hitler voltaria. A vertente cristã foi especialmente horrenda, apesar de o cristianismo ter sido uma espécie de Reforma judaica. O que muda com (o arcebispo de Antioquia no século IV) João Crisóstomo é que não se pode mais passar tempo socialmente com judeus. Ele se preocupa que judeus e cristãos estejam juntos. Teme que as mulheres sejam seduzidas. O mais terrível são as versões das acusações de assassinato ritual, ofensa fantasiosa em que judeus continuam a crucificar versões de Cristo, depois disseminadas na Idade Média. Começou cedo a apresentação dos judeus como vampiros religiosos, que têm de torturar crianças, crucificá-las e despejar seu sangue. Isso persiste. A acusação de assassinato ritual foi articulada pela última vez, pelo que recordo, pelo ministro da Defesa da Síria, uns dez anos atrás. Em algumas caricaturas, durante a última guerra de Gaza, (o premiê israelense Benjamin) Netanyahu foi exibido com sangue escorrendo de sua boca, com uma criança na sua frente. Essas coisas nunca desaparecem.

Seu livro sustenta que a história judaica é, no fundo, a história humana. Não é uma visão etnocêntrica?
Simon Schama: Não necessariamente. A palavra “genocídio" foi cunhada pelo (jurista polonês) Raphael Lemkin, interessado no caso armênio. Mas os judeus o sofreram de um modo singular, em grau extraordinariamente persistente. Se a história narra se conseguimos ou não viver com pessoas que não têm os mesmos pontos de vista, a mesma religião, as mesmas práticas, a mesma língua que nós, então os judeus têm algo a dizer. Tentam ser cosmopolitas. Desenvolveram um conjunto forte de crenças na possibilidade de viver entre estranhos. Isso exerce uma ressonância contemporânea.

Quais são as características comuns dos judeus ao longo da história?
Simon Schama:
Há continuidade de liturgia, poesia, literatura. É impressionante ver nos manuscritos do Mar Morto quase todo o Velho Testamento, faltando só o livro de Esdras, em hebraico perfeitamente escrito. Estudantes com menos de 10 anos conseguem ler diretamente nesses textos. No sentido metafórico, judeus têm sido forasteiros. Não sei se podemos dizer que temos a mesma música ou comida. Minha família é uma mistura de asquenazita e sefardita, nunca concordamos sobre qual comida é melhor. Minha mãe era uma cozinheira asquenaze entusiasmada, mas não tão bem-sucedida.

Qual é o papel da mulher no judaísmo?
Simon Schama: Mulheres aparecem muito nas ilustrações de livros que têm relação com a família. Quis dar um sentido maior ao papel delas. Foi uma reação às formas de judaísmo ortodoxo agressivamente misóginas de hoje. A primeira rabina da história, sobre quem escrevo no segundo volume, foi uma alemã nascida no século XIX, que lutou por seus direitos. É uma história magnífica e trágica. Ela conseguiu ser ordenada rabina em 1935. Depois foi deportada com outros rabinos para o campo de concentração de Theresienstadt. Considero o papel das mulheres na história judaica comovente. Quis retratá-lo por escrito, sem nenhum sentido de uma obrigação politicamente correta.

Diante da perseguição na Espanha, houve conversão e resistência. Qual prevaleceu?
Simon Schama:
Depois dos massacres do final do século XIV, os judeus se dividiram: os que se converteram, os que seguiram judeus publicamente e os que continuaram judeus escondidos, os primeiros marranos. Não é possível julgar cada um. É um tema sensível. Tenho relido (o ensaísta italiano) Primo Levi. Ele entende até mesmo os sonderkommandos (judeus aliciados pelos nazistas para conduzir outros judeus ao extermínio), sem os quais os nazistas teriam dado um jeito de empurrar os judeus aos fornos. Os sonderkommandos cometiam os atos mais cruéis. Levi, sobrevivente de Auschwitz, não se considerava em posição de julgar nem mesmo eles. É um caso extremo de conversão, não? Não há razão para julgar os que se tornaram marranos. Podemos afirmar, porém, que existe uma linha a traçar diante do pequeno número de judeus convertidos que passaram a encarar como missão a perseguição aos demais judeus. Isso é desprezível.

Qual foi, em toda a história, o melhor lugar e a melhor época para os judeus viverem?
Simon Schama: Nova York nos anos 1950 (gargalhadas).

(Via Época)

Outra visão: leia também o artigo The Decline of Anti-Semitism, de Guy Sorman


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