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Valter Hugo Mãe: com o coração ao alto

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Valter Hugo Mãe em Vila do Conde, Portugal.
Valter Hugo Mãe em Vila do Conde, Portugal.

Fala como escreve: com o coração ao alto. Valter Hugo Mãe poderia ter sido advogado, se quisesse, ou programador cultural, se o deixassem. Mas chegou-se à escrita, e sem fronteiras: poesia, romance, conto, literatura infantil. Joga forte nas ideias e sabe de onde vem, nunca se desculpando por defender seus lugares.

Hugo Mãe tem orgulho no percurso, mas nunca se refugia nas meias-tintas das meias-palavras. Em entrevista ao português Diário de Notícias, o autor de a máquina de fazer espanhóis fala sobre sua infância, sobre a experiência de ter nascido na África (Angola) e ter crescido na Europa (em Portugal, nas Caxinas, lugar pertencente à cidade de Vila do Conde). Hugo Mãe reflete sobre estes tão diversos universos que compõem sua vida e sua escrita.

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Podemos começar por Henrique de Carvalho, Angola, onde nasceu?
Sim, apesar de eu ter saído de lá com dois anos e meio. Logo, não tenho nenhuma memória direta, mas foi um lugar que eu construí a partir das histórias dos meus pais. Tive a possibilidade de lá voltar, há cerca de três anos, e pude perceber que algumas das coisas que me foram contadas não tinham que ver com a cidade - eles correram várias terras, tiveram vários filhos e misturaram as suas próprias memórias... Mas não deixa de ser uma forma rica de ter passado, porque me dá a liberdade de escolher aquilo que quero tomar para mim. Em última análise, eu posso quase inventar o lugar onde nasci e aproveitar apenas aquilo que acho esplendoroso e maravilhoso, criar quase um lugar de fantasia...

Tendo regressado lá, como foi o encontro com a realidade?
Uma mescla tipicamente africana: algo francamente triste e surpreendentemente alegre. O que ali existe é uma pobreza profunda de quase toda a gente mas, de modo estranho, uma alegria, uma candura, na forma como as pessoas são. A nós, até nos custa a entender... Se nos falha a mínima coisa, entramos logo em colapso. A eles, a quem falha quase tudo, parece que essa simplificação das necessidades acaba por trazer ao de cimo uma alegria elementar. Isso comoveu--me muito, o encontrar ali pessoas muito crédulas, muito disponíveis, inclusivamente com uma vontade enorme de falar e de ouvir. Depois, como não há visitantes, não há turismo, eles quase celebram com quem lá passa. Atrevo-me a pensar que o contacto comigo foi, para alguns deles, a viagem que não podem fazer...

Essa disponibilidade de que falou é mais difícil de descobrir na Europa?
Sim. Não vejo nada de parecido na Europa... Há uma festividade de alguns países e regiões latinas, caso do Sul de Espanha, ou em zonas da Alemanha, ou na Islândia, onde se perde literalmente a cabeça ao fim de semana, mas parece-me mais uma alegria agendada, calendarizada. Parece resultado de psicanálise (risos)... A África, podendo ser vista como o continente atrasado, também se arrisca a ser o espaço mais preservado, se pensarmos nalgumas essências do que é ser-se gente.

De Henrique de Carvalho e de Angola para Paços de Ferreira, onde vive a sua infância...
As minhas memórias, ai, são profundas. É lá que começa e acaba a minha infância, de uma forma muito nítida. Por exemplo, a perda daquele espaço quando saí, a perda dos meus amigos, a entrada num ambiente completamente diferente como o das Caxinas [foto acima], ainda hoje atingidas por um enorme preconceito que se move contra a suposta agressividade de quem lá vive, essa fratura foi muito violenta. Sobretudo porque eu era um miúdo ingênuo, frágil, magricela, mariquinhas, cheio de medos e que estava a entrar num lugar em que me diziam que as pessoas eram muito ferozes... Eu quase sentia que tinha mudado para o lugar da minha morte... Mas, voltando a Paços, fiquei com a ideia de uma terra muito recatada, pequenina, de interior, cheia de pudores...

Aqui [Caxinas, Vila do Conde], tudo é diferente, com a praia, há sempre um banhista, um turista... As férias permitem às pessoas ser mais "irregulares"... Em Paços de Ferreira, a "regularidade" era fundamental. O ambiente era de uma certa austeridade e eu era um miúdo criado naquela mundividência bem comportadinha e linear. Aqui, tudo foi diferente: desde logo, nos primeiros verões que aqui passei, percebi que era possível as namoradas aparecerem-me à porta, talvez porque as estrangeiras aparecessem com umas ideias inovadoras. Os miúdos, as pessoas daqui, são um pouco tomados de assalto com o entusiasmo de quem vem de fora e quer passar um bom tempo. Isso, em Paços, não existia porque não havia visitas...

O ambiente das Caxinas obrigou-o a crescer?
Sim... Sobretudo pelo preconceito - hoje uma das minhas causas é ser escritor das Caxinas, mais do que de Vila do Conde... Esta comunidade foi e é muito injustiçada, porque as pessoas das Caxinas não fazem mais do que um tremendo esforço pela sobrevivência. É um lugar penalizado e eu não tenho senão orgulho... O medo que se instigava, sobretudo na década de 1980, quando aqui cheguei, era de tal forma profundo que fazia pensar que qualquer hipótese de envelhecimento aqui era inviável para um forasteiro.

Tenho pena que se tenha passado essa imagem e que as Caxinas, que nem freguesia são, mas mais um bairro grande, continuem a ser preteridas face a outras zonas da cidade. É um espaço negligenciado, em que as coisas não são tão bonitas e em que há até uma permissividade notória do ponto de vista urbanístico... É isso que vou tentando denunciar, para que as pessoas das Caxinas, mesmo sendo mais simples, não acabem destituídas da sua dignidade.

Costuma olhar-se o momento do liceu, do ensino secundário, como decisivo. O Valter viveu-o já nas Caxinas?
É nas Caxinas que eu passo a saber quem sou. Há muitos aspectos da minha infância que eu procuro curar até hoje, e aí entra Paços de Ferreira, mas é nas Caxinas que eu me modelo e faço as escolhas do que quero. Foi um processo lento: talvez por ter nascido em África, tomei o meu tempo... Não me precipito e as coisas acabam por me acontecer. Mas foi nas Caxinas, por volta dos 18, 19 anos, que eu perdi o medo dos textos e passei a encará-los como um diálogo com um leitor qualquer. Desde os 6 anos que guardava os meus papelinhos, as minhas frases, mas só por volta dos 18, e por influência de uma grande amiga, passei a considerar o texto uma forma de estar com os outros. Já não era aquela coisa solitária, nem uma maneira de me tolerar a mim mesmo... Isso passou, naturalmente, com o que vivi e aprendi aqui.

Esse processo de aproximação ao texto acontece num ambiente que não é propriamente um cenário literário, pois não?
É, é... É muito. É verdade que há escritores cuja literatura se desenvolve dentro da biblioteca, por contaminação ou por influência de outros livros, mas a minha tem outro tipo de gênese, vem da espontaneidade das pessoas, de uma manifestação humana sem filtro.

Nesse aspecto, as Caxinas reúnem pessoas genuínas, frontais... Acho que isso me mudou, de um miúdo muito tímido para alguém que, se calhar, continua a ser tímido ou reservado, que compreendeu a fortuna dessa frontalidade e a necessidade de se criar um discurso e boa-fé, que não vá apenas ao encontro do politicamente correto, algo que nos lixou a todos... Agora estamos a pagar isso com o aparecimento de políticos muito "incorretos", talvez por não ter havido moderação nessa "plasticidade". Aqueles que detêm publicamente o poder da palavra entraram numa cosmética tão vazia, tão retórica, que hoje em dia as pessoas não se conseguem identificar com nada disso... Aquilo que me encorajou, aqui nas Caxinas, tem que ver com uma espécie de vida em protesto...

Com esse processo da escrita já em marcha, o que o leva à Faculdade de Direito?
Era um complemento, a busca da arma de que eu precisava para exercer essa frontalidade... Eu queria muito dotar-me do necessário para poder protestar consistentemente, argumentar com o juiz, de alguma forma fundamentar aquilo que já ia pressentindo - os desequilíbrios, as faltas de partilha, as desigualdades... Estudar Direito foi importante para mim, até porque, sem que eu estivesse imediatamente consciente disso, o curso de Direito estuda o discurso, o texto - se o desligarmos da componente ética e o encararmos como uma oficina técnica, é algo que se debruça sobre o escrever e o ler, como interpretamos o que escreveu o legislador, qual a sua intenção, qual o lastro que carrega um texto... Talvez seja mesmo a melhor das escolas para quem quer escrever livros...

Chegou a exercer o Direito?
Sim, fiz o estágio completo e fui, durante ano e meio, advogado estagiário. Defendi vários processos em que era designado oficiosamente pela Ordem dos Advogados. Quase só tive casos de senhoras em divórcio. Aliás, só defendi as senhoras...

O que pode ter sido uma fonte de inspiração...
Foi, de fato. Acho que, nos meus livros, se nota muito esse lado das mulheres sofridas, das que são presas dos seus mais amados predadores. Não sei se alguém, na Ordem dos Advogados, terá tido algum eco de um dos meus primeiros casos mas, de repente, mandavam-me os processos das senhoras todas...

Nunca defendi um homem em situação de divórcio. Claro que tinha um lado assustador: eu tinha 24, 25 anos, e estava ali a defender senhoras que, nalguns casos, podiam ser minhas mães. Isto levava a que a minha capacidade de identificação fosse, por razões etárias, diminuta: eu estava muito distante. Apetecia-me resolver as coisas com a maior brevidade, eventualmente ao estalo, mas tinha de usar a diplomacia jurídica, muito lenta e muito chata. Penso até que foi quando percebi a existência real de uma burocracia que só empecilhava, que comecei a concluir que talvez fosse mais produtivo ocupar o meu lugar no mundo como escritor, e não como advogado.

Sentia-se uma espécie de confessor das mulheres que defendeu?
Muito... Hoje, tenho a ideia de que devo ter ouvido muita treta, muita "banha da cobra", mas, na altura, acreditava em tudo, porque era um bocado apalermado... Depois, pude perceber que talvez as histórias não fossem rigorosas, que alguns maridos não seriam tão terríveis como isso, mas também percebo que, na defesa das suas causas, as pessoas se choram com as armas que têm. A verdade é que todas elas choravam, muito e bem, e eu achava aquilo convincente... Não sabia distanciar-me e sofria com elas. Dava boleias, algumas vezes cheguei a pagar as custas - e não tinha dinheiro, na época -, queria minimizar aquele terror em que achava que aquelas mulheres viviam.

Essa predisposição para assumir as dores dos outros, essa entrega à ajuda, não se sente na sua escrita?
Acho que sim. Talvez até em tudo o que eu faço. Mas aí eu sou um bocado palerma, porque chego a ajudar os que não querem ser ajudados (risos). Às vezes, até insisto em ser amigo de alguém que não quer ser meu amigo... Tenho um amigo que me diz que, quando eu faço alguma coisa por alguém, o mais natural é esse alguém agradecer-me acabando a jantar em minha casa (risos). Se calhar, tenho mesmo de rever os meus métodos de relação... Há um dado curioso: claro que eu tenho amigos que estão bem e é isso que eu lhes desejo. Mas tenho muito mais tendência para me aproximar de quem está a viver momentos trágicos, situações-limite... Isso, às vezes, implica uma enorme frustração, quando percebo que não consegui resolver nada.

Um escritor com o seu nível de vendas e de reconhecimento, premiado, vive bem, em Portugal, ou sobrevive apenas?
A minha situação é, porventura, muito especial - se tivesse filhos, teria muito mais dificuldades. Mas tenho de gerir o meu dinheiro em função das necessidades de um adulto. Logo, se tiver de abdicar de determinadas palermices, faço-o facilmente. Eu não me posso queixar: o sucesso que tenho em Portugal e no Brasil, o facto de estar editado em muitos países, faz que eu hoje esteja bem. Isto significa o quê? Ter um apartamento há 14 anos e ter um carro que comprei usado. Mas não tenho prestações para pagar nem empréstimos... Para o comum dos cidadãos que vive bem, isso é pouco, porque têm casas com piscina, casas de campo, casas de praia, eventualmente um barquinho para passear aos domingos, dois filhos a estudar em colégios privados...

Eu talvez não tenha a casa que queria [Valter Hugo Mãe em sua casa, na foto acima], mas tenho aquela que posso. Na minha vida, fui sempre muito pragmático, nunca me abeirei daquilo que está acima do que posso ter. Isto permite-me também manter a minha cabeça tranquila. Lembro-me, quando comprei o apartamento da insistência do banco para que eu contraísse um empréstimo. E eu não aceitei... Não quero nunca abdicar da tranquilidade, que é exatamente aquilo que me permite pensar nos livros. Se eu estiver acossado com a prestação da casa, provavelmente não consigo escrever...

Não gosta de se sentir devedor...
Não acho que seja esse o sentido das coisas. Sobretudo para um indivíduo como eu, que não tem uma garantia. Não sou funcionário de nada, posso estar hoje como um autor celebrado e amanhã ver as pessoas decidirem que não me querem ler... Procuro ter a minha vida sempre dimensionada para a hipótese de poder falhar. Acontece a quase todos. Porque não há de acontecer comigo?

Já publicou poesia, romance, contos, literatura infantil... Hoje, a chegada de um novo livro tornou-se um hábito?
Não é hábito nenhum! É muito diferente, face ao primeiro livro, mas a tentativa acaba por ser sempre a de regressar aquela virgindade inicial em que as coisas são descobertas por maravilha, como se estivéssemos mesmo na pura dimensão da revelação. Só que nem tudo pode ser uma revelação na cabeça de um indivíduo de 44 anos - sabemos mais, experimentamos mais... Há pouco que nos pareça original e isso levanta uma angústia de base. E há um paradoxo: é cada vez mais difícil eu ficar satisfeito com um texto que escreva, mas sei que escrevo agora muito melhor...

Os meus livros mais recentes são muito melhores do que os primeiros, disso não tenho dúvidas... Mas, por cada revelação que alcanço, há duas ou três que me escapam... O indivíduo que vai sabendo, sabe sobretudo melhor o tamanho da sua ignorância. Vou-me apaziguando, às vezes até com as revelações de outros escritores, que me permitem passar à dimensão gloriosa de leitor. Há muitos escritores que se vão demitindo de ser leitores, mas eu não...

É um escritor que precisa de pessoas, de viagens, de contatos, mais do que um escritor eremita?
Eu gosto de pessoas... Enquanto escritor, faz-me mais jeito estar quieto do que viajar. Mas, depois, enquanto cidadão, assumo a pulsão para estar com os outros e conversar... Claro que, se estivesse enfiado em casa, escreveria muito mais.

Mais sim, mas melhor?
Pois, aí é que eu não sei... Mas escreveria mais, leria mais... E talvez me frustrasse menos com as pessoas. Só que basta desafiarem-me, chamarem-me para alguma coisa, e eu vou - festinhas, jantares, tomar uns copos, passear... Se for para apresentar livros e ver fontanários, aí é mais difícil...

Não gosta da vida dos festivais literários?
Participei em vários... Mas este ano, por exemplo, só fui às Correntes d'Escritas [na Póvoa de Vazim]. Acho que chega a um ponto em que precisamos de criar uma certa distância - as pessoas vão perguntar-nos as mesmas coisas e, muitas das vezes, se não estivermos com uma moderação ou com uma companhia interessante, acaba por ser decepcionante.

Há gente que me trata por Vítor Hugo, que pensa que ainda escrevo só em minúsculas, que me pergunta se eu não penso um dia escrever poesia, enfim... às vezes estamos ali numa exposição que acaba por ser fútil, porque não há aprofundamento de nada. Depois, exerce-se muito o politicamente correto, de que já falámos, uma espécie de "marcopaulismo" em que basta estar com o público e se entra numa mediocridade de discurso em que ninguém quer dizer o que pensa sobre o impeachment da Dilma ou sobre o Cavaco Silva... Ora, eu acho que se um escritor não usa a voz para dizer alguma coisa de jeito, se fica ali apenas para adocicar o chazinho, mais vale não participar...

Nesse âmbito, e além de uma voz própria, também se sente porta-voz de alguma coisa?
Não, sou sempre eu. Mas sou eu por inteiro. Que eu saiba, fui o único escritor que assinou uma petição para se exigir que a escola pública fosse defendida em detrimento dos colégios privados... Eu até estudei numa universidade privada, a que os meus pais tiveram de pagar. Mas penso que não se pode duplicar o gasto: se temos uma escola pública a prestar serviço numa determinada localidade, não faz sentido a dobragem. Temos é de desafogar e melhorar o ensino público.

Talvez, eu tenha sido o único escritor a assinar esse documento por haver consciência de que são os colégios privados que compram livros... Se formos fazer uma sessão a uma escola pública, os miúdos não têm um tostão para comprar o livro; nos colégios privados é diferente porque os miúdos vêm de famílias mais abastecidas e os pais agarram nos 15 euros e mandam comprar, pedindo um autógrafo... Para mim, isto é evidente - e, se tiver de ficar sozinho a defender esta ideia, não há problema.

Em 2007, ganhou o Prêmio Saramago. Que importância real é que um prêmio, ou melhor, que esse prêmio teve na sua vida?
Começo por dizer, desde já, o seguinte: o Prêmio Saramago é o único que traz mesmo uma mudança à vida de um escritor. Antes de mais, era dado pelo próprio Saramago - de resto, não sei se ele terá a mesma força com o Saramago morto. Depois, porque apanha os autores numa idade ainda jovem, quando ainda são figuras sem capela.

Ou seja, entende-se bem que o que está em causa é a qualidade do livro, porque os escritores não têm esquemas montados, ainda não são propriamente amigos de ninguém. É a melhor distinção quando se quer dar um salto de uma atividade mais ou menos amadora para um estado mais profissional, até na relação com uma editora mais sustentada. Depois, há a dimensão do exemplo de José Saramago, que nunca se calou e só esteve ao serviço da sua própria consciência. O que mais me comoveu na distinção que ele quis fazer-me, prende-se com o facto de ele não ser uma pessoa de elogio fácil, e que só expunha as ideias em que efetivamente acreditava.

É possível olhar para si como uma versão atualizada do homem do Renascimento? O Valter desenha [desenho de Hugo Mãe à esq.), canta...
Desenho mal, canto mal... Mas vamos lá: desenhar é algo que me liberta o pensamento, enquanto procuro uma cor ou uma linha. A cabeça pode entrar noutro lugar e fornecer-me, desde logo, soluções para a literatura. Quanto à música, tenho a ideia de querer ser músico, quando era miúdo... Em ambos os casos, permito-me pensar que nos policiamos demasiado em relação ao que fazemos. E talvez eu tenha passado de tímido para trapalhão - prefiro fazer, mesmo que seja de uma forma tosca. Não o faço exatamente a brincar, faço como posso e porque, habitualmente, sou convidado para fazer. O que agradeço...

Quando olhamos para vidas passadas, de escritores, pintores, pensadores, há uma tendência para os arrumarmos por grupos de amigos ou rivais. Nos nossos dias, isso ainda acontece ou os criadores ficam mais nas respectivas casas, com os seus computadores?
Voltamos a algo de que já falámos, à idade da cosmética, e ao desejo de se evitar confrontos. As conversas extrapolam: qualquer coisa que digamos pode transformar-se numa mensagem absolutamente ofensiva para a nossa intenção. A tentação de polemizar anda bastante refreada, para evitar, sei lá, que algo caia no Facebook e, de repente, apareça carregado de um ódio que não existia na origem... O confronto é hoje muito desonesto. Ainda assim, penso que, com o tempo, se vão sentir algumas aproximações, algumas comunhões. No universo da poesia, é muito claro que em Portugal há assim dois grupos, três grupos, bem identificado, seja pelas chancelas que os editam, seja até pelo tráfico de dedicatórias que fazem entre si e que espelham laços afetivos. Já a ficção acontece num teatro muito largo: há menos rejeições, mas talvez haja menos necessidade de companhia.

Hoje, agora, seria possível o Orpheu?
Há muita gente a tentar algo de semelhante: de três em três meses, há um número zero de uma revista que quer romper, quer mudar... Mas não, penso que não seria possível por um motivo muito claro: o mundo, estando estranho, mostra-se indisponível para uma mudança de paradigma. Não é possível vislumbrar neste momento a criação de um novo homem e o Orpheu está na esteira de um pensamento que, de alguma forma, propõe um novo modo de ser.

Isso hoje já não está em causa: vivemos de uma forma acelerada, mas não necessariamente diferente, opositora. Ainda somos sensivelmente o mesmo tipo de consciência. Talvez só as pulsões mais terríveis possam denunciar uma assustadora nova humanidade, algo que pode vir, por exemplo, d'O Psicopata Americano, do Brett Easton Ellis, mas que anda paredes-meias com o racismo, com a xenofobia... Este novo homem que é despudoradamente odioso e grotesco, maligno, talvez seja aquilo que verdadeiramente poderá propor uma mudança de paradigma. Mas, se o paradigma for esse, então já não estamos a falar da humanidade mas de outra coisa qualquer.