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Valter Hugo Mãe: "Os melhores sonhos da vida são os sonhos de toda a gente"

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Em uma reflexão sobre a literatura e a vida, Valter Hugo Mãe fala dos caminhos agrestes e do tempo que o fez perceber a felicidade sem deslumbre, numa dimensão possível. Mãe confessa de onde surgiu a ideia para seu nome e diz ter falhado por não ter vivido os sonhos de toda a gente. Contudo, fala que a felicidade é justamente "uma consciência e uma capacidade de lidar com essa herança triste que todos nós temos." Leia abaixo a entrevista.

Para além da sua condição de escritor, imaginemos que você tivesse outro ofício. A sensação que eu tive é, de fato, a de uma pessoa interessada em outras pessoas, como você acabou de dizer. Quando nasce esse interesse? Você acha que está intrinsecamente ligado à tua expressão pela palavra? Como isso interfere nas suas histórias?
Valter Hugo Mãe:
Você sabe que eu tive uma infância, uma adolescência e uma juventude muito solitária. Sentia sempre como a última pessoa no mundo, por isso é que eu estava dizendo, cresci achando que eu não era rigorosamente nada importante. Achava até que não era um ser humano viável, que nunca chegaria a ser adulto, a ter uma profissão. Nunca vislumbrei em mim, assim, um gênio qualquer, uma inteligência específica para alguma coisa.

Então, hoje, quando encontro com as pessoas, fico muito maravilhado por, afinal, fazer parte, ver uma sociedade para mim. Você entende? De alguma forma, a solidão não era uma rejeição, era só uma falta de jeito que eu tinha para chegar às pessoas. Então, hoje quero muito que as pessoas sejam. Quando eu dizia isso de ver os leitores como iguais, é que não gosto muito da ideia dos leitores como admiradores. Eu gosto da ideia de ter amigos. São os amigos que sei que não posso conhecer pessoalmente a fundo.

Eu sei que não vou saber o nome de toda a gente, não sei se as pessoas são casadas, são solteiras, querem ficar casadas ou se querem ficar solteiras, mas, no momento em que eu as encontro, sei que há uma história entre mim e essas pessoas. E sou exatamente aquele que perde mais porque eu sou o que participa ausente. Mas, para cada uma dessas pessoas, existe uma presença. E por isso eu fico muito curioso, às vezes, até por saber, perante esta mulher e este homem, o que é que significo e o que poderia ser se estivesse mais perto. Então, vou colecionando algumas pessoas que vão comparecendo mais vezes, já vou fixando e fico muito contente com isso.

Quando eu vejo alguém que até lembro o nome, acho que isso compensa também pra mim, porque sinto indiretamente que a casa cresce. Eu acho que a gente volta para casa quando está com alguém que conhece, quando está com quem se sente seguro. Então, vir a São Paulo e olhar para cara de algumas pessoas, conhecer os nomes, saber minimamente quem são faz com que minha casa seja muito grande.

Houve alguma situação em que estar como espectador do outro te ajudou no relato de alguma personagem?
Valter Hugo Mãe:
Sim. Quando eu escrevi O filho de mil homens (2011), por exemplo, encontrei uma senhora, em Lisboa, numa sessão de autógrafos, que estendeu o livro pedindo para eu assinar. Perguntei seu nome e ela disse que se chamava Isaura. E, no exato momento em que eu pouso a caneta para começar a escrever, ela faz um discurso demolindo o nome Isaura, atribuindo até culpa ao próprio nome, à fealdade do nome para uma certa tristeza, um certo desamparo na sua vida.

Fiquei perplexo porque acho o nome Isaura muito bonito. Eu disse: “Não, tem de ser o contrário, você tem de entender que seu nome é maravilhoso. Você não está sendo esperta (risos). Acho que você tem de rentabilizar este nome". E, então, eu disse: “Eu estou escrevendo um novo romance. Estou começando neste momento a investir nessa história e eu vou criar uma Isaura e eu vou colocar todo mundo dizendo pra ela que o nome dela é maravilhoso (risos). Eventualmente, essa Isaura vai ser feliz. Ela não vai escapar a uma tristeza básica porque acho que a realidade não permite que toda a gente escape a uma tristeza básica, mas eventualmente ela vai ser feliz.

Então, foi muito engraçado porque isso aconteceu numa livraria, num determinado lugar onde eles têm uma poltrona, eu estava de pé, essa senhora estava de pé e então, no chão, exatamente no lugar onde nós estávamos, foi colocado um autocolante que diz assim: “Aqui nasceu a Isaura". Então, o povo fica passando por ali e ninguém entende que Isaura é aquela. É a Isaura de O filho de mil homens, do Valter Hugo Mãe. Ali, de alguma forma, nasceu aquela personagem, na livraria Bulhosa, em Lisboa.

Como você concilia essa postura de quem apenas olha com a de quem também pertence? Você descobriu na palavra e na literatura um instrumento de acesso como participante do mundo?
Valter Hugo Mãe: Acho que foi muito lentamente porque comecei publicando poesia com 24 anos. E, de cada vez que precisava ler um poema meu, ou simplesmente dizer: “Sim, fui eu que escrevi este livro que está a dois metros de mim" – porque eu não conseguia nem chegar perto, ia morrendo de ataque cardíaco todos os instantes –, eu via toda uma confusão quando escolhi me chamar Valter Hugo Mãe.

Ninguém entendia o meu nome de início. Ninguém aceitava como um nome lógico. Sempre tinha uma piadinha. Era muito irresistível chamar-me, por exemplo, a um palco e zoar comigo. Então, durante um tempo, achei que talvez fosse daqueles escritores que teria de criar ausente, assim, quase de não aparecer mais, de não fazer entrevista, não participar em coisa nenhuma.

Mas, depois, lentamente, aquilo que ajuda é nós percebermos que há uma ou duas pessoas numa plateia de vinte ou trinta pessoas que estava efetivamente escutando e que no fim dizia qualquer coisa como: “Ah, gostei, gostei muito daquele poema, ou do outro poema, ou gosto do título ou gostei da forma como você explicou alguma coisa".

E, paulatinamente, assim, muito devagar, a gente vai se convencendo que vale a pena dizer alguma coisa, que vale a pena algum esforço para uma aproximação. Mas acho sempre que eu ainda não estou convencido de participar, que ainda habito o mundo, assim, como quem se deslumbra e procura alguma maravilha. Então, fico colecionando oportunidades de encontrar gente conhecida ou desconhecida, mas sempre nessa perspectiva de pensar: “Ah, vale a pena efetivamente existir".

Em a máquina de fazer espanhóis (2010), por exemplo, você coloca a questão da vida que se encerra. Há um velho como personagem central. E você já disse em algumas entrevistas que tinha em mente morrer aos 18, 33 ou 40 anos. Queria perguntar o porquê disso. Você acha que a literatura é uma maneira de vencer o tempo, se perpetuando através da palavra?
Valter Hugo Mãe:
Eu creio que criei todas essas datas de morte porque achava que morrer era fácil. Eu falei algumas vezes que, quando nasci, tinha um irmão que já estava morto, e o meu pai era bastante tremendista. Era assim um hipocondríaco assustador porque ele achava que morreria quase todos os dias e que todos os dias surgiria um novo câncer inventado especialmente para ele.

Então, cresci achando que não existia eternidade alguma, mesmo durante o tempo da infância quando as crianças têm uma ideia muito abstrata da longevidade. Acham que o pai e a mãe vão desaparecer só quando extinguir o Sol.

Eu pensei sempre muito ao contrário. Sabia que um irmão meu tinha morrido mais novo do que eu, por isso morrer era uma coisa muito possível. Então, fui construindo as minhas barreiras. Primeiro, porque achava que não chegaria à idade adulta e, por isso, não saberia ser obrigado a trabalhar, a ser obrigado a responsabilidades, não conseguiria tomar conta de nada. Então, achava que provavelmente morreria antes dos 18 anos porque estaria encerrado numa certa infância. Depois, era muito crente e achava que se o Cristo morreu com 33 anos, quem seria eu para morrer mais tarde, para viver mais tempo, ser mais digno? Era muito burro (risos). Então, criei isso assim até antes dos 18 anos. Eu pensei: “Mas, se eu não morrer aos 18, eu com certeza dos 33 não passarei". E foi inevitável, aos 33, eu me lembrar dessa questão. Então, eu fiz uma festa de aniversário. A maior festa de aniversário que fiz até hoje foi quando completei 33 anos. Então, achei: “Mas, se esta festa não for um agradecimento por superar esta barreira, pode ser apenas uma despedida. Talvez eu esteja pra morrer em breve".

Mas foi muito importante, pra mim, assinalar e, de alguma forma, dizer às pessoas que eu gostava delas e escolher as pessoas e trazer as pessoas perto de mim e celebrar a oportunidade daqueles 33 anos. E depois fui fazendo contas e sobrou uns 43 anos. Eu já estava tão habituado a ter uma idade pra morrer que subitamente comecei a pensar nisso.

E, enfim, eu acho que, quando fiz 40 anos, escrevi O filho de mil homens anunciando a minha frustração de não ter filhos. Já a minha posição era outra. No fundo, já não estava em causa morrer, mas acho que estava em causa assumir um falhanço, assim, um “falhei em absoluto". Você sabe que eu acho…

Falhei porque não morri? É isso?
Valter Hugo Mãe:
Falhei porque não tive um filho, falhei porque não cumpri os sonhos mais normais e óbvios. Você sabe que eu acho que a gente fica sonhando ser escritor porque não encara os melhores sonhos da vida e os melhores sonhos da vida são os sonhos de toda a gente; é o ter alguém, o encontrar uma casa com uma cortina amarela bonita e ter dois, três filhos. E então só sonha ser escritor ou só dedica todo o tempo à escrita ou à arte quem está completamente errado. Porque o certo é uma coisa muito mais normal e muito mais acessível a toda a gente. Então, acho que quando estabeleci essa morte aos 40 anos, no fundo estabeleci a consciência de ter falhado, de ter sonhado tudo errado.

“Felicidade é se reconciliar consigo mesmo" – é uma frase sua. Agora, nesse estágio da vida, não é o momento de reconhecer que falhou, mas também viver um tempo de reconciliação?
Valter Hugo Mãe:
É exatamente essa felicidade possível. É uma felicidade consciente porque felicidade não tem como ser outra coisa. Tudo que escapa à nossa consciência, à nossa sobriedade ou lucidez é um regozijo, é uma coisa da dimensão das crianças.

As crianças não são felizes; elas regozijam. Vivem numa espécie de euforia, mas não têm lucidez para perceber nem pra fazer perdurar determinadas sensações ou determinados sentimentos. Então, é um pouco o regozijo dos animais. O meu cachorro ele regozija; ele não é feliz. Então, a maturidade, quer queiramos quer não, traz este ensinamento, esse aprendizado. Passamos a ser capazes de guardar a memória das tristezas sem que isso impeça que possamos investir na felicidade e conquistar momentos de alguma plenitude.

Então, acho que não vai haver ninguém que não tenha uma memória de momentos terríveis. Ninguém vai ser poupado a uma dimensão aterradora da vida. A felicidade tem de conter isso também. A felicidade não é a ausência da tristeza. A felicidade é uma consciência e uma capacidade de lidar com essa herança triste que todos nós temos.

Quem está de fora tem a sensação de que você sempre teve essa dimensão de que a felicidade era simples, porque você sempre prestou atenção nas coisas simples.
Valter Hugo Mãe:
É, mas eu só aprendi isso agora. Eu só percebi agora que uma cortina amarela em casa é uma dimensão fundamental da felicidade. Uma coisa tão ridícula, mas tão simples que a gente só senta ali. Recebe um amigo, faz um jantar e só sente aquele momento e a gente pensa: “Não é necessário ganhar prêmios, não é necessário ter televisão, seja o que for. Felicidade esteve o tempo todo aqui, tem uma cor (risos) e tem uma gente, não é?"

Mas acho que fui estabelecendo essas metas porque achava que precisava de concretizar alguma coisa. Precisava de criar algum tipo de relação de conquista assim: “Ok, eu sou viável, eu paguei as minhas contas, a minha mãe não precisa estar preocupada comigo achando que vou morrer de fome, que não tenho nem roupa, que ninguém vai gostar de mim".

E sabe que acho que hoje não tenho nenhuma data pra morrer? Porque eu acho que deixou de ser importante. O morrer deixou de ser importante porque, de algum modo, as coisas ficaram muito completas. Então, perdurar mais tempo, perdurar menos tempo já não vai retirar de mim esta sensação de plenitude que é sobretudo um modo mental de existir. Não é o ter muita coisa. Não sou um homem rico. A maior parte do dinheiro que tenho, dôo para pagar dívidas de pessoas amigas. Não tenho coisas caras. Se o acaso me matar, já não importa muito porque minha vida já valeu muito a pena.

Na verdade, o que quis te perguntar foi onde o menino meio torto colocava os sonhos?
Valter Hugo Mãe:
Colocava no impossível. Então, eu sonhava muito, mas não tinha nem coragem de me direcionar, porque achava que efetivamente era o último dos seres humanos, o menos digno, o menos capaz, aquele que não teria rigorosamente nada pra oferecer a ninguém. Então, achava que ia morrer sozinho, virgem, feio, pobre, cedo e burro.

A felicidade, então, é a virada. Aliás, a maturidade é a virada pra felicidade possível, não?
Valter Hugo Mãe:
Exatamente. A maturidade é o momento em que pensamos assim: “Não, calma, eu vim desse menino. Esse menino está algures em mim esperando crescer". Mas a consciência permite-me pensar: “Não, seria até ingrato da minha parte, né?". Eu não posso cultivar tristeza, porque eu não tenho nem esse direito.

Quando entrevistei Ariano Suassuna, ele disse que, embora numa condição muito difícil, seus personagens não podiam ser vulgares, deviam ter um sentido. É uma ideia de construção de personagem. Por um lado, existe a reflexão sobre a vida que você faz, mas, de outro, há o trabalho de sentar diante do computador para escrever efetivamente. Então, volto um pouco para a pergunta inicial: onde você encontra humanidade nas coisas cotidianas e como você transporta isso para dentro de seus textos?
Valter Hugo Mãe:
Antes de mais, o Ariano Suassuna é uma maravilha. Temos muita saudade dele. E depois, na verdade, na literatura, ninguém consegue ser vulgar a menos que o autor seja distraído e não saiba potenciar uma figura. O Caetano Veloso tem muita razão quando diz que “todos nós, vistos de perto, podemos ser um monstro, podemos ser grotescos". Todos nós, vistos de perto, somos intensos, somos alguma coisa de muito especial. E a literatura faz isso.

A literatura mostra-nos as figuras muito de perto, eventualmente até no recôndito dos seus próprios pensamentos, do seu mundo secreto e inconfessável. Por isso é que nós nos compadecemos tanto com as personagens e por isso é tão possível um processo de identificação. A gente pode identificar-se até com um assassino porque conhecemos as motivações.

A literatura é muito perigosa, porque poderia desculpar toda a gente (risos). Temos de ter muito cuidado com a literatura nesse sentido. Mas encontro aquilo que me motiva, que me deixa subitamente energizado literariamente e com alguma urgência para escrever uma história muito numa disciplina do silêncio. Sou muito impressionado pelas pessoas caladas, porque sempre elas contêm uma explosão prestes a acontecer. E, por vezes, alguma coisa que as pessoas podem dizer sem se aperceberem ou sem conferirem um conteúdo demasiado consciente ao que disseram.

Posso dar um exemplo muito acabado. Ontem mesmo, uma moça disse pra mim várias coisas, e ela estava falando lentamente, mas falou várias coisas e no meio disso, ela disse: “A minha mãe morreu. Então, eu viajei com a minha avó". Fiquei parado naquela frase. “A minha mãe morreu. Então, eu viajei com a minha avó". A gente esteve aqui, e ela ficou falando. Fiquei parado naquela frase: “A minha mãe morreu". E eu pensei assim: “Não deve haver rigorosamente frase nenhuma mais triste neste momento do que 'A minha mãe morreu'". E isto, digo eu, porque não tenho filhos. Então, a moça ficou falando e eu fiquei conjeturando: “Qual seria a expressão mais triste, absolutamente mais triste de alguém usar? Eventualmente, 'o meu filho morreu'". Isso é muitas vezes o que me leva à literatura. É ficar com aquela energia e pensar: “Imagina que eu poderia parar o discurso daquela moça, a vida daquela moça, fazer um recuo, parar em cima daquela frase da mãe que morreu e extrair de toda aquela frase a importância que ela merece".

Aí é o livro. Aí está um livro inteiro no fundo, pousado em cima daquela frase do modo pragmático com que ela teve de dizer aquilo. Porque a vida depois pragmatiza tudo. A literatura é o contrário. A literatura é o contrário do pragmático. A literatura faz uma fotografia dum instante e precisa explicar esse instante, porque não suporta que aquela frase seja dita daquela forma.

Você já mencionou que a maternidade é o mais próximo do humano – isso de se partir em outro. Nesse sentido, quando você adota o nome Mãe, cria uma chancela para a sua literatura, que é muito interessada no homem e nessa estética da humanidade. Gostaria que você comentasse um pouco essa relação com a maternidade – ou com a paternidade. Esse tema causou inclusive certo alvoroço na Flip, em 2011.
Valter Hugo Mãe:
Você sabe que eu não tinha consciência concreta disso? Sabe que quando eu criei o nome Mãe, eu achava que a experiência extrema da existência tem de ser a maternidade. O homem fica no lado pobre da humanidade e da existência. Mas eu não estava consciente de que isso pudesse, de repente, reverter para uma espécie de acusação contra mim próprio. Era um pouco isso que falava há pouco.

Os meus 40 anos foram a celebração da frustração. Foi assim: “Ok, errei completamente. E estava na cara qual era o caminho. Eu até criei esse nome. Mas como é que eu não percebi que eu devia ter tido filhos? Como eu acabei ou como eu fui acabar, de todas as relações, deixando as meninas irem embora sem nenhuma ter engravidado, não é?"

Não sei se foi uma prudência, se foi um estar sempre interessado ou deslumbrado com a arte, deslumbrado com a literatura, que eu achava que ter filhos poderia ser uma coisa para mais tarde ou que ter sobrinhos era igual a ter filhos – o que é ridículo. Ter sobrinhos é maravilhoso, mas é muito diferente. Então vejo com alguma perplexidade de que eu próprio me condenei.

Qual é essa condenação?
Valter Hugo Mãe:
Não, eu fico contente. Você sabe que eu acho que, com o tempo, eu fico grato que os livros sirvam pra alguma coisa. É muito absurdo dizer-se isto e é muito perigoso.

Parece que os livros servem, no seu caso, para contar uma história que nem você sabia.
Valter Hugo Mãe:
É, mas é isso. Vivo fascinado por escrever mais porque aprendo e porque aprendo sobre mim e porque aprendo sobre o mundo e porque os livros me curam. Se eu não escrevesse livros, eu ia ser muito neurótico, psicótico, frequente em terapia. Acho eu que nunca fiz terapia porque faço muita literatura (risos). Mas essa ideia de os livros serem úteis é uma ideia perigosíssima, que muitos artistas vão afastar do seu universo, mas que eu tenho verificado com muita gratificação, assim.

Então, os livros são filhos? É isso?
Valter Hugo Mãe:
Os livros já são filhos, os livros ocupam espaços vazios. Os livros nunca vão compensar exatamente o que nos falta, mas criam uma ilusão bastante grata. Eles criam uma ilusão bastante convincente com a qual conseguimos seguir sobrevivendo com uma qualidade de vida bastante admirável. Por isso acho que quem não tem filhos precisa urgentemente de escrever um livro ou pintar um quadro, cantar umas canções no karaokê, qualquer coisa, mas a arte existe por uma compensação absurda, mas absolutamente maravilhosa.

Gostaria de terminar com essa questão da felicidade e da esperança que está presente na tua obra. Me permita fechar um ciclo: você fala do menino que não se achava viável e, hoje, você vê seu trabalho ganhar mundo, canta numa banda, apresenta um programa de TV. Talvez a maturidade seja olhar para essa felicidade do possível, da construção, não?
Valter Hugo Mãe:
É verdade. Em O paraíso são os outros, a narradora até diz isso: “A maturidade, no fundo, é a capacidade que temos de corrigir". Só cresce quem corrige. Crescer não é aumentar de tamanho, ficar mais velho, é corrigir. A gente só cresce quando corrige. Por isso, a maturidade é exatamente isso: é quando nós soubermos que é preciso corrigir; neste sentido, é preciso construir. Se não estivermos construindo, somos imaturos, somos bobos.

(Leia a entrevista na íntegra no site A pulga)