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Werner Herzog: meus sentidos de vida

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Herzog é o conferencista de setembro, no Fronteiras do Pensamento
Herzog é o conferencista de setembro, no Fronteiras do Pensamento

"Não há nada de errado com as dificuldades e os obstáculos, mas tudo de errado em deixar de tentar."

Werner Herzog é considerado um dos cineastas mais inovadores e influentes de nossos tempos, mas seu caminho rumo ao reconhecimento não foi linear, algo que o levasse de uma vida de privilégios ao poder. Abandonado pelo pai no início da vida, Herzog sobreviveu a um bombardeio na Segunda Guerra Mundial e foi criado por uma mãe solteira em estado de quase pobreza.

Ele descobriu sua vocação para o cinema ainda adolescente, após ler a respeito da profissão em uma enciclopédia. Ao final da adolescência, Herzog passou a trabalhar como soldador em uma fábrica de aço para bancar seus primeiros filmes.

Esses traços de personalidade – tenacidade, independência e curiosidade imaginativa – revelam-se de forma ofuscante em suas melhores entrevistas, compiladas na obra Werner Herzog: A Guide for the Peplexed [Werner Herzog: um guia para os perplexos].

O livro, que não deve ser confundido com a obra de filosofia de mesmo título escrita por E.F. Schumacher em 1977, apresenta conversas abrangentes entre Herzog e o cineasta e escritor Paul Cronin. As respostas de Herzog não têm qualquer filtro e vão direto ao ponto. Muitas vezes são comoventes, mas nunca sentimentais ou rudes: apenas se recusam a infestar o jardim da sincera comunicação humana com a polidez despropositada.

Os insights do alemão se aglutinam em uma espécie de manifesto que defende que cada um siga seu próprio sentido de vida, uma forma de guia inteligente e irreverente para o espírito criativo moderno.

E é sobre Os Sentidos da Vida que Herzog refletirá no palco do Fronteiras do Pensamento. A temática dos diferentes propósitos que nos regem ganhará uma dose de honestidade e resiliência típicas do cineasta.

Werner Herzog vem ao Fronteiras nos dias 23/9 (POA) e 25/9 (SP). Garanta sua participação nos próximos eventos. Além de Herzog, o Fronteiras ainda receberá Contardo Calligaris e Luc Ferry.

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Embora Herzog seja um humanista totalmente desvinculado de qualquer religião, há um tom fortemente espiritual em sua sabedoria. Esse tom provém do que Cronin chama de uma “intuição não adulterada” e viaja por questões como o real significado de encontrar o seu propósito e fazer o que você ama, passando pela psicologia, por questões práticas (como se importar menos com dinheiro) e pela arte de viver de forma visceral na era da produtividade.

Como Cronin aponta na introdução, os pensamentos de Herzog compilados no livro são “o desague de várias décadas, uma resposta ao chamado das trombetas, aos pedidos frequentes de algum tipo de orientação.”

Mesmo assim, em muitos sentidos, Um Guia para os Perplexos poderia muito bem se chamar Um guia dos Perplexos, pois Herzog é tanto um produto de suas “humilhações e derrotas acumuladas”, em suas próprias palavras, quanto de sua “perplexidade crônica”.

Herzog possui a combinação rara e paradoxal de absoluta clareza de convicção e pleno desejo de vivenciar suas próprias contradições e analisar as possibilidades abertas da vida, sempre com doses equivalentes de visão concentrada e navegação ágil.

Há certa independência que permeia seus filmes e sua mente, uma recusa de deixar que o medo do fracasso o impeça de tentar – uma sensibilidade que a voz em off na cena final do filme A Defesa Sem Precedentes do Forte Deutschkreuz, do próprio Herzog, captura perfeitamente: “Até mesmo a derrota é melhor do que nada.”

herzog


Ele diz a Cronin:

               "Não há nada de errado com as dificuldades e os obstáculos, mas tudo de errado em deixar de tentar."

Herzog segue esse ideal de independência de forma quase religiosa, como faz com a maioria das coisas em que acredita:

Fiz tudo o que era possível por conta própria; era uma questão de fé, de simples decência humana, fazer o trabalho sujo sempre que eu podia... Para produzir um filme, você só precisa de três coisas – um telefone, um computador e um carro. Até hoje, ainda faço a maioria das coisas por conta própria. Às vezes, seria bom ter mais apoio, mas prefiro gastar o dinheiro com o resultado final do que incluir mais gente na folha de pagamento.

De fato, tendo crescido sem dinheiro e conquistado cada centavo por conta própria, Herzog considera que essa independência está diretamente entrelaçada com a questão das limitações financeiras.

Mas, ele sempre se recusou a encarar isso como uma barreira para seus anseios criativos. Sua sabedoria neste campo vai muito além dos filmes e pode ser aplicada de forma igualmente eficaz a qualquer empreitada criativa dos dias de hoje: 

"O melhor conselho que posso oferecer àqueles que se aventuram no mundo do cinema é: não espere que o sistema financie seus projetos e que outros decidam o seu destino. Se você não tem recursos para fazer um filme de um milhão de dólares, arranje 10.000 e produza-o por conta própria. Hoje, isso é o suficiente para fazer um filme apresentável."

Os conselhos prosseguem:

"Dirija um táxi por seis meses e junte o dinheiro necessário. Caminhe a pé, aprenda outras línguas e um ofício ou habilidade que nada tenha a ver com o cinema. Assim como acontece com a grande literatura, para fazer filmes você precisa vivenciar a vida de forma visceral."

A questão do dinheiro destaca aquela que talvez seja a postura mais urgente e aguda de Herzog: o reconhecimento da ideia de que tudo o que vale a pena leva muito tempo.

"Ao longo dos anos, sempre fui movido pela perseverança. As coisas raramente ocorrem da noite para o dia. Os cineastas devem estar preparados para muitos anos de trabalho duro. A labuta contínua pode ser saudável e prazerosa."

Ele explica:

"Embora eu tenha vivido por muitos anos sem um trocado no bolso, às vezes em estado de pobreza, vivo como um homem rico desde que comecei a fazer filmes. Ao longo de minha vida, pude fazer aquilo que realmente amo e isso vale mais que qualquer montante de dinheiro. Quando meus amigos estavam se estabelecendo, recebendo diplomas universitários, abrindo negócios, construindo carreiras e comprando casas, eu estava fazendo filmes e reinvestindo tudo o que ganhava em meu trabalho. Dinheiro que perdi, filmes que ganhei."

No fim das contas, a ideia de sucesso se baseia na noção de buscar uma definição própria de sentido. Em muitos casos, isso requer a coragem de não aderir às formas culturais preestabelecidas. Herzog sintetiza isso de forma elegante: 

"O que faz de mim um homem rico é o fato de que sou bem-vindo em quase qualquer lugar. Posso aparecer com meus filmes e receber uma hospitalidade que jamais conseguiria apenas com dinheiro... Durante anos, dei mais duro do que você pode imaginar para alcançar a liberdade verdadeira. Hoje, tenho privilégios que o chefe de uma grande empresa jamais terá."

Ao observar que felicidade e realização não são necessariamente a mesma coisa, Herzog faz eco às palavras do artista Agnes Martin quando este afirma que o segredo para a felicidade é fazermos aquilo para o qual nascemos. Herzog diz a Cronin:

"Felicidade nunca foi um de meus objetivos, eu simplesmente penso em outros termos […] Tento dar sentido à minha existência através do meu trabalho. Não importa muito se estou feliz ou não."

Herzog não tem vergonha de tratar de questões existenciais:

"Nunca sabemos o que é a verdade de fato. O melhor que podemos fazer é buscar aproximações... A verdade jamais pode ser capturada ou descrita de forma definitiva. É a busca por respostas que dá significado à existência."

O físico teórico Lawrence Krauss captura o espírito singular de Herzog no posfácio do livro:

"O Werner Herzog que vim a conhecer não é o homem selvagem das coletivas de imprensa. É um ser humano afetuoso, cuidadoso, divertido e sobretudo gentil, dotado de uma mente inquieta e de uma imaginação fértil e criativa. Um homem que se interessa por todos os aspectos da experiência humana. É autodidata, leu muito e é muito bem informado. Gosto de pensar que esse é um dos motivos pelo qual gostamos da companhia um do outro: compartilhamos de uma grande empolgação em relação à experiência humana."

Werner Herzog: A Guide for the Perplexed é uma leitura espetacular que, em suas vastas 600 páginas, oferece um raro vislumbre de uma das mentes mais avidamente imaginativas de nossos tempos.

Lembre-se: Werner Herzog estará no palco do Fronteiras do Pensamento, em setembro, para refletir sobre Os Sentidos da Vida. Garanta sua presença nas conferências deste ano, com Janna Levin, Contardo Calligaris e Luc Ferry.
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(Via Brain Pickings)