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Wim Wenders e o cinema europeu: "O tesouro da Europa é a sua diversidade"

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Wim Wenders no Prêmios do Cinema Europeu 2017
Wim Wenders no Prêmios do Cinema Europeu 2017

Os Prêmios do Cinema Europeu ou EFA (em inglês European Film Awards) são entregues anualmente pela Academia de Cinema Europeu, em reconhecimento pela excelência das realizações cinematográficas europeias. 

Em 2017, a premiação completa 30 anos de existência e sua história acompanha a do próprio continente, sendo a primeira edição produzida ainda com o muro de Berlim de pé. O vencedor, na época, foi um dos mais representativos diretores da Europa, o pai da Trilogia das Cores e de O Decálogo, o polonês Krzysztof Kieślowski.

Já em 2017, o vencedor foi O Quadrado, do sueco Ruben Östlund, que conseguiu a proeza de ser eleito também como melhor comédia de 2017, arrebatando ainda os prêmios de realização, argumento, ator e cenografia (O Quadrado também o candidato sueco a uma nomeação para o Oscar de melhor filme estrangeiro).

Quem nos conta a grande trajetória dos Prêmios do Cinema Europeu é outro grande ícone do cinema, o alemão Wim Wenders, presidente da Academia Europeia de Cinema, que organiza o evento anualmente. Assista ao emocionante discurso de Wenders no evento, que aconteceu no último sábado, 09. 

Wenders é um dos mais emblemáticos cineastas e produtores da Europa. Seus filmes como Paris, Texas (1984) e Asas do desejo (1987) foram aclamados pela crítica, recebendo vários prêmios em festivais de cinema internacionais. 

Conferencista do Fronteiras em 2008, Wenders foi objeto de uma proposta ousada do Fronteiras do Pensamento, com produção audiovisual da V2: participar de uma releitura de seu próprio filme. A obra De volta ao Quarto 666, convida Wim Wenders a discutir o cinema, tal qual o alemão fez em seu filme Quarto 666, apresentado em Cannes, em 1982. Confira De volta ao Quarto 666 na íntegra logo após a entrevista com o cineasta Wim Wenders:

30 anos de Prêmios do Cinema Europeu é uma longa história. O senhor está na Academia Europeia de Cinema desde o início. Que balanço faz?
Wim Wenders:
O tempo passou rápido. Tudo começou aqui em Berlim, o muro ainda de pé. O prêmio de Melhor Filme foi para o realizador polaco Krzysztof Kieślowski. Ele ficou tão surpreendido que tudo o que ele disse foi: ‘Espero que a Polônia esteja na Europa”. Isso foi o quão distanciados estávamos há 30 anos e, entretanto, muito aconteceu. 

A Academia Europeia de Cinema está, agora, bem estabelecida, os Prêmios do Cinema Europeu tornaram-se uma marca comercial, o que ajuda os filmes que ganham. Era isso que esperávamos, que reunisse o cinema europeu e a família do cinema europeu. Queríamos transmitir a mensagem: temos que trabalhar juntos e perceber que, juntos, somos mais fortes. É por isso que criamos este prêmio.

Quando se olha para a indústria cinematográfica europeia, há ótimos filmes, ótimo cinema de autor, cinema de arte, mas por que a Europa não é capaz de construir uma indústria cinematográfica que tenha, também, êxitos de bilheteira que gerem muito dinheiro, de maneira a suportar o cinema artístico? Depois de todos estes anos, por que isso não é possível na Europa?
Wim Wenders: Porque a Europa não é a América. Não visamos o mercado mundial com filmes que têm o menor denominador comum para atrair toda a gente.

O tesouro da Europa é a sua diversidade e, em todos os países, as coisas são diferentes. Cada país tem a sua própria história e queremos preservar essa diversidade.

Nós não queremos ter uma cultura de cinema europeu monolíngue – que seria certamente o inglês para competir com Hollywood. Hollywood é muito bom a fazer isso, mas isso não somos nós.

O tempo da ideia de que o “Euro-Pudim” poderia funcionar acabou. A Europa é muito mais um jogo livre de diferentes culturas e energias. Isso é complexo e certamente não se pode desenvolver o mesmo impacto que os norte-americanos e, também, não queremos isso.

Após 30 anos de Prêmios do Cinema Europeu, qual é o futuro e quais são os desafios do cinema europeu?
Wim Wenders: O cenário da produção de filmes mudou drasticamente. A revolução digital avançou poderosamente. Desejo que a indústria cinematográfica europeia se torne vanguardista e não retrógrada.

O modo de produção de filmes está mudando tanto quanto a forma de distribuição e recepção de filmes. Temos de estar na linha da frente e também temos que explicar aos nossos Governos que não podemos perder o barco e que não podemos estar nesta maratona revolucionária 3 etapas atrás. Temos de estar entre os corredores da frente.

(Via Euronews)



Assista abaixo ao curta-metragem De volta ao Quarto 666, vencedor de Melhor Filme da Mostra Gaúcha no 37º Festival de Cinema de Gramado e do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro na categoria Melhor Curta-metragem Documentário.