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A autocomunicação de massas segundo Castells

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Manuel Castells, no final dos anos 1990, nos auxiliou a compreender o impacto que as tecnologias de comunicação e informação trariam para a estrutura social com o conceito de “sociedade em rede". Nesta última terça-feira, 11 de junho, sempre em busca de respostas para questões contemporâneas, Castells nos ajudou agora a compreender as transformações políticas que a intensidade e a velocidade da comunicação nas redes sociais têm provocado.

O sociólogo espanhol expôs suas reflexões dos últimos dez anos, no projeto cultural Fronteiras do Pensamento, para uma plateia paulistana que estaria, durante os dias que se seguiram ao evento, vivenciando o desenrolar de manifestações em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília. Manifestações que, além de ilustrar, trazem mais elementos para a compreensão dos fenômenos a que o sociólogo tem se dedicado a analisar - mobilizações organizadas em redes sociais, iniciadas por motivos aparentemente pequenos e pontuais, como o aumento das tarifas dos transportes públicos, mas que ganham proporções muito maiores ao tomar os espaços urbanos. Ultrapassam seus motes iniciais devido às respostas de governantes nem sempre prontos para lidar com manifestantes que têm em mãos a possibilidade de articulação, rearticulação, divulgação e envolvimento de milhares de pessoas, em tempo real, pelas redes sociais.

Diante dessa cultura de compartilhamento das redes, da velocidade e da mobilidade das mídias contemporâneas, o conceito de sociedade em rede se amplia e toma as esferas políticas. Para compreender esse fenômeno e o poder de organização social das redes, Castells cunhou mais um conceito – o de autocomunicação de massas. “Autocomunicação porque traz autonomia na emissão de mensagens, autonomia na seleção da recepção de mensagens, autonomia na organização de redes sociais próprias e na organização de um hipertexto cognitivo e formativo em que estão todas as informações digitalizadas". E, para explicar como essa autocomunicação assume as características de mídia “de massas", Castells afirma que “se pode alcançar potencialmente uma audiência massiva através das redes de redes". Com isso, o sociólogo ressignifica o conceito tradicionalmente aplicado a mídias de emissão unilateral, como televisão e rádio, cujas mensagens o receptor recebe em “estado vegetativo".

Diferentemente das mídias de massa tradicionais, a internet dá voz ao receptor. É possível a qualquer internauta, como o próprio Castells apontou, produzir, selecionar, armazenar e recuperar informações em diversos formatos. A mídia não é mais privilégio de celebridades, de políticos e da intelectualidade. Qualquer um (que tiver rompido a barreira do acesso) pode ter suas festas e baladas documentadas, publicar suas opiniões num blog ou criar mobilizações pelas redes sociais.

Há, ainda, no ambiente digital uma simulação de espaços que mimetizam o real, criando lugares sociais (o banco, a loja, o supermercado, a praça pública) e, com eles, expectativas de movimento, de ação, de interação, próprios dos espaços públicos – da polis. Essa característica também explica o que Castells chama de virtualidade real. Para ele, vivemos uma dicotomia: estamos dentro e fora da internet, estamos conectados e “em nenhum momento da história, estivemos tão imersos num sistema de comunicação que configura nossos pensamentos, nossas mentes, nossas decisões".

Nesse contexto, as informações circulam e são repassadas sem o filtro dos meios de comunicação tradicionais. As empresas e os governos se veem agora obrigados a dialogar com vozes antes pouco ou nada ouvidas. É uma nova configuração do sistema de comunicação que sai de um modelo linear, em que a maioria da população apenas recebia mensagens, para um modelo circular, dialógico, em que toda comunicação é de mão dupla.

Essa nova configuração ainda não foi totalmente assimilada e, como considera Castells, é aí que “acontece a crise de hegemonia dos partidos sobre o mundo da comunicação cada vez mais suscetível à intervenção e participação dos cidadãos". Na busca de uma forma de controle, tentam “reproduzir na internet os mesmos modelos da publicidade, mas não entendem a diferença fundamental – a TV é passiva e a internet é ativa".

Se, por um lado, as mídias digitais e as redes sociais propiciam a mobilização de grupos e de comunidades em torno de ideias e práticas, por outro também desencadeiam um processo de personalização excessiva, em que se exacerba a exposição pública do privado, o culto e a publicidade da própria imagem. Essa dualidade atinge todas as esferas da sociedade e traz consequências diretas para a política. Nesse ponto, ainda de acordo com o pensamento de Castells, vemos uma personalização extrema da política. O sociólogo aponta que, juntamente com esse fenômeno, há o crescimento de uma “indústria do escândalo", já que não se combatem mais ideias, mas pessoas.

A indústria do escândalo direciona seu alvo tanto para a vida privada dos políticos quanto para a corrupção. Como resultado, vemos uma destruição cada vez mais crescente da credibilidade e da confiança na classe política, uma vez que os escândalos se sucedem e ficam impunes. “O que se produz é um efeito de desconfiança generalizada da classe política – todos são corruptos, rompe-se o sistema geral de confiança na classe política", analisa Castells.

Em contrapartida, os movimentos sociais se fortalecem nas redes. Castells aponta que há uma relação íntima entre o “desenvolvimento da autocomunicação de massas e da importância do crescimento de novas formas de contrapoder". Os movimentos sociais são fundamentalmente culturais – nascem da indignação com alguma forma de opressão ou de injustiça e, por isso, são essencialmente emocionais. Criam novas formas de manifestação e de intervenção nos sistemas políticos. Nascem nas redes sociais, tomam os espaços urbanos e passam a existir além das nuvens, visíveis para toda a sociedade. Para o sociólogo, “o fundamental num sistema de poder, na democracia, é o espaço público. O espaço público é o espaço em que a sociedade se liberta e constrói suas decisões coletivas para que sejam processadas pelas outras esferas da sociedade".

O que vemos ocorrer hoje em escala global é a formação de um espaço híbrido – vemos manifestações que se dão simultaneamente nas redes e nas ruas. Vídeos, fotos e relatos de eventos são postados praticamente em tempo real. Internautas pedem que as pessoas nas proximidades de eventos políticos liberem suas Wi-Fi para que possam fazer a cobertura e garantir a segurança dos manifestantes. Cartazes com os dizeres “Saímos do Facebook" exibidos nas manifestações são fortes sinais dessa hibridização dos espaços. O espaço público passa a ser ocupado pelo espaço das redes sociais, ampliado pela autocomunicação de massas. As redes sociais se transformam em assembleias deliberativas com decisões tomadas no calor dos movimentos.

É uma outra noção de cidadania que se forma.

(Leia esta notícia no site oficial, CMais - 17/06/2013)