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A biblioteca imaginária segundo Alberto Manguel

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"Nós habitamos o espaço da Terra através da multidão de idiomas que
frequentamos." - Alberto Manguel, Fronteiras do Pensamento Porto Alegre

Na última conferência de 2014 do Fronteiras do Pensamento, o literato argentino Alberto Manguel lembrou, do início ao fim de sua fala, de seu mestre, Jorge Luis Borges, para quem lia na adolescência, durante a cegueira do escritor, aos 50 anos. Titulando seu discurso de A biblioteca imaginária, o homem de letras em sentido amplo – não só por sua carreira como romancista, editor e tradutor premiado – gosta de ser reconhecido por sua trajetória como leitor e amante de um objeto que guarda parte do patrimônio da humanidade: o livro.

Protetor da cultura, Manguel mantém mais de 35 mil exemplares resguardados em sua coleção particular em um priorado medieval na França. Reformado para receber o tesouro que pertence a nós e às gerações futuras, Manguel passa a maior parte do tempo no local, para o qual se dedica quase integralmente ao ler, juntar, guardar e catalogar cuidadosamente cada obra escolhida.

Mais do que livros, Manguel acumula histórias de leitores e da leitura. Abrindo sua fala no Fronteiras para uma audiência atenta que lotou o Salão de Atos da UFRGS, lamentou o cancelamento da vinda de Ricardo Piglia, se autoproclamando "substituto de um dos Quixotes da literatura argentina. Estou mais para Sancho Pança, até pelo tipo físico", brincou o escritor, que na sequência passou a comentar personagens e histórias de nossa biblioteca universal.

Contou que uma vez, ao conversar com um taxista na Espanha, se viu inquirido a confirmar se havia mesmo lido Dom Quixote. "Todo mundo fala que leu, mas ninguém chegou ao final deste livro, pois ele é composto de muitos volumes", disse o incrédulo e mal informado motorista. Partindo desta anedota, Manguel afirmou ser esta a metáfora que exemplifica nossa biblioteca imaginária: ela é formada por "atesouramentos" de tudo o que ouvimos, conversamos, lemos, lembramos e imaginamos. "Usamos a palavra imaginário como algo inexistente e que por si só parece não possuir materialidade. Mas o que pertence à imaginação tem raízes muito profundas na realidade, pois é assim que a conhecemos. Nós imaginamos as experiências, e quando as colocamos no papel contribuímos para esta biblioteca imaginária universal", explicou Manguel.

No entanto, para o escritor, nossas coleções individuais se diferenciam daquelas universais, compartilhadas pelas culturas, pelos povos e pelos séculos. "O ser humano sempre teve a obsessão de ocupar plenamente o espaço e o tempo da terra e dos céus, e vem daí um pouco desta diferença", afirmou o autor, engatando em seguida as histórias da construção da Torre de Babel e da Biblioteca de Alexandria para defender sua tese. "Babel no espaço e Alexandria no tempo compõem o que chamamos de biblioteca imaginária universal, formada por aqueles textos que recuperamos e com o passar do tempo acabamos chamando de nossos."

Como bom tradutor, Manguel reescreveu ao vivo sua versão do conto bíblico, ao unir esta história a uma outra, de um manuscrito antigo. "Ao nos dar os dons de todas as línguas do mundo, Deus não estava nos castigando, mas sim oferecendo uma nova oportunidade: dizer com diferentes palavras e idiomas o que é a nossa experiência. E ao fazer com que todos que passassem pelas ruínas de Babel perdessem a memória, permitiu que esquecêssemos para depois recriarmos nossas experiências em outros idiomas."

Já com a citação da biblioteca de Alexandria – aquela que deveria conter todos os livros do mundo –, Manguel recordou que na verdade não sabemos nada sobre ela, apenas que talvez fosse localizada na casa das musas, filhas de Mnemosine, deusa da memória. "Os ptolomeus queriam conquistar o passado com a memória do tempo presente para alcançar o futuro. Por isso qualquer coisa escrita era recebida, e todos os barcos confiscavam livros para que eles fossem copiados e integrassem a biblioteca", lembrou Manguel, apontando a força da metáfora dessas duas histórias: "A língua é frágil e fraca, daí usamos as metáforas que transformam ideias em outras ideias. Até porque a tradução, ao fim e ao cabo, é impossível", afirmou o autor, para quem os tradutores são a "epítome do leitor, pois precisam remontar um texto em outro idioma com a necessária mudança do ritmo, da musicalidade, da gramática. Todo tradutor deveria compartilhar dos direitos autorais e ter o nome na capa, pois ele é verdadeiramente autor do texto que traduziu", sentenciou, em tom poético: "Nós habitamos o espaço da Terra através da multidão de idiomas que frequentamos".

Mas, quem decide o que fica como literatura são os leitores, afirmou Manguel, e aí reside aquilo que determina nossas bibliotecas próprias. "A biblioteca de cada um de nós está na identidade individual, criada pelo que pensamos que somos e por nosso palimpsesto de recordações – episódios, personagens, frases, palavras. Em nossa memória não temos uma versão de Dom Quixote, mas sim atesouramentos de certas passagens de Quixote", explicou.

Pulando para o século XX, Manguel voltou a mencionar um dos maiores leitores de todos os tempos, Jorge Luis Borges, "a quem nunca consigo evitar de citar em público", disse o autor. "Borges transformou muitos textos da literatura em sua fabulosa memória. Havia muitos momentos nos quais ele ficava sentado, sem dizer nada, recitando para si mesmo coisas que ele conhecia de memória." E tornou sua lembrança ainda mais pessoal quando ligou o episódio a um problema particular: "Há um ano, tive um derrame cerebral e fiquei sem o uso da palavra por algum tempo. Continuava pensando, mas não conseguia passar da ideia às palavras, algo que eu nunca havia suspeitado ser possível. Era como pegar peixes em um lago: os peixes escapavam", contou Manguel.

"Passei a noite recitando textos que estavam na biblioteca de minha memória, e me aliviou o fato de saber que eu não tinha esquecido de nada, nos diferentes idiomas que falo. Mas na minha biblioteca eu tinha atesourado os textos clássicos e também um montão de porcarias que eu tinha aprendido não sei por quê. Não tenho uma resposta certa para isso, mas posso inventar uma: está ligada a certas recordações da minha infância e da adolescência. E à medida que vamos lendo nossa memória vai construindo certos edifícios que depois passam a nos pertencer."

Finalizando sua fala, o autor de Uma história da leitura e A biblioteca à noite apontou o que mais admira na biblioteca imaginária: o bibliotecário invisível que percebeu habitar o seu cérebro, e que "sempre tem palavras à disposição, algumas, inclusive, que eu não sabia que dariam voz aos meus desejos mais antigos, às minhas lembranças mais inefáveis. Espero que ele nunca me deixe, nem na tumba", brincou. Até porque Manguel acredita na resposta de Borges a uma pergunta sua, feita certa vez, ao vê-lo na semiobscuridade: "Por que você está sozinho?". "Eu nunca estou sozinho, tenho minha biblioteca."