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Agressão antissemita contra filósofo em ato de coletes amarelos gera indignação na França

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O Ministério Público de Paris abriu, neste domingo (17), uma investigação sobre insultos antissemitas contra o filósofo e acadêmico francês Alain Finkielkraut, agredido verbalmente no sábado (16), à margem de uma manifestação dos coletes amarelos no bairro de Montparnasse, em Paris.

O filósofo foi vaiado e xingado de "judeu sionista de mer**", além de outros insultos, enquanto manifestantes gritavam "nós somos o povo", "fora judeu, a França é nossa". A agressão foi registrada em vídeos compartilhados nas redes sociais.

Finkielkraut, filho de um polonês, sobrevivente de Auschwitz, é um filósofo proeminente no país. Membro da Académie Française, é presença frequente na mídia nacional. Ele já havia demonstrado certa simpatia aos coletes amarelos, mas também teceu críticas ao movimento em recente entrevista ao Le Figaro.

Finkielkraut apoiava a manifestação por dar voz à população menos favorecida, mas explicou que "as coisas se estragaram" ao longo do caminho. A intensa exposição à mídia teria subido à cabeça dos líderes do movimento, disse o intelectual ao jornal. "A corrupção midiática de um movimento salutar tem algo de desesperador", argumentou. 

Assista à agressão ao filósofo abaixo:


A promotoria esclareceu que vai investigar se houve "injúria pública em razão da origem, etnia, nação, raça ou religião, proferida oralmente, por escrito, por meio de imagem ou de comunicação eletrônica".

Políticos franceses condenaram por unanimidade a virulência das palavras dirigidas ao intelectual. Em um tweet, o presidente Emmanuel Macron disse: "Filho de imigrantes poloneses e acadêmico francês, Alain Finkielkraut não é apenas um eminente homem de letras, mas um símbolo do que o sistema republicano francês permite a cada um". Macron acrescentou que os insultos antissemitas são a "negação absoluta do que são os franceses e o que faz da França uma grande nação".



Em entrevista ao JDD (Journal du Dimanche), Finkielkraut disse que "sentiu um ódio absoluto" nas palavras dirigidas a ele. Porém, relatou ter ficado tranquilo pela presença de policiais na manifestação. "Eu teria ficado com medo se não houvesse a polícia, mas felizmente eles estavam lá".

O ministro do Interior, Christophe Castaner, indicou pelo Twitter que "um suspeito, reconhecido como o principal autor dos insultos, foi identificado pelos nossos serviços".



O episódio ocorre pouco depois de o ministro do Interior da França alertar que o antissemitismo está "se espalhando como veneno" no país, com uma série de incidentes similares registrados no centro de Paris no final de semana passado.

No último 9 de fevereiro, caixas de correio com o retrato de Simone Weil, ex-deputada europeia e sobrevivente do holocausto, foram vandalizadas com suásticas, por exemplo.

Imagens de Simone Veil pichadas com a suástica.


Grupos judaicos têm alertado para o crescimento do antissemitismo e do ódio contra outras minorias em toda a Europa. Em entrevista à rádio FranceInfo, Francis Kalifat, presidente do Conselho Representativo de Instituições Judaicas na França (CRIF), deu sua visão sobre o momento atual:

"Infelizmente, o antissemitismo no nosso país é proteiforme. Sabemos há muito tempo que temos um forte antissemitismo da extrema direita tradicional, que também temos um antissemitismo muito forte da extrema esquerda e, ainda, um antissemitismo de origem islamo-esquerdista que foi expresso ontem."

Kalifat completou: "Esse movimento de coletes amarelos, que inicialmente tinha uma legitimidade social que todos entendem, que todos aceitaram, é hoje um movimento que se radicalizou, que foi infiltrado por movimentos de extrema direita e extrema esquerda, que aproveitam essas manifestações para expressar seu ódio aos judeus, mas não só isso, porque eles também expressam o ódio da República, ódio dos valores republicanos, e eu acho tudo muito perigoso. Estamos hoje em uma sociedade que é completamente desafiada por minorias extremistas que devem ser combatidas e condenadas".

O movimento dos coletes amarelos completa três meses e tem passeatas previstas em Paris, entre o Arco do Triunfo e o Campo de Marte, onde fica a Torre Eiffel, além de um protesto na praça da República.

Na semana passada, várias pesquisas revelaram que, pela primeira vez, desde 17 de novembro do ano passado, a maioria dos franceses (52% a 56%, dependendo da sondagem) quer que o movimento acabe. Os entrevistados justificam esse posicionamento pela violência registrada nas manifestações de coletes amarelos.

(Com informações de Folha de S.Paulo, O Globo, The Times e Euro News)

ENTREVISTA | Alain Finkielkfraut é responsável por uma das entrevistas mais lidas no Fronteiras.com. Clique aqui para relembrar algumas ideias do filósofo em "Só o coração é inteligente".

VÍDEO | Recentemente, o Fronteiras do Pensamento publicou vídeo exclusivo com outra intelectual francesa que faz da história judaica um dos focos de seus estudos. É a psicanalista Elisabeth Roudinesco, que nos explica a diferença entre antijudaísmo e antissemitismo. Não deixe de compreender a dissociação que a historiadora faz.