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Capitalismo, biologia evolutiva, liderança e propósito por Paul Collier

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Paul Collier, conferencista do Fronteiras na noite desta quarta (28)
Paul Collier, conferencista do Fronteiras na noite desta quarta (28)

O conferencista do Fronteiras do Pensamento na noite dessa quarta-feira (28) foi o economista britânico Paul Collier, especialista em desenvolvimento econômico. O assunto abordado pelo pensador para debater a Reinvenção do humano, tema da temporada, foi a sua interpretação do atual momento socieconômico.

Com mediação feita pelo jornalista Pablo Ribeiro, Collier iniciou sua fala destacando sua visão sobre o capitalismo: “Eu acredito no capitalismo. É o único sistema capaz de elevar a população de um país para a prosperidade em massa. Mas, se deixarmos que ele corra sozinho, vai descarrilhar”.

Neste período de crise desencadeada pela covid-19 e pelo aprofundamento nas falhas do capitalismo, Collier falou sobre democracia, sobre as características de uma boa liderança, biologia evolucionária, diálogo, e enfatizou a importância de termos propósitos e alcançá-los em comunidade. 

Autor do best-seller “O futuro do capitalismo”, Paul Collier é diretor do Centro Internacional de Crescimento, com base na London School of Economics, e é professor de economia e políticas públicas na Escola de Governo Blavatnik.

A seguir, você confere alguns destaques da conferência:

CAPITALISMO

Eu vou falar sobre como podemos curar as feridas do capitalismo moderno. Gostaria de começar falando que eu acredito no capitalismo. Nos últimos 10 mil anos da civilização humana, o capitalismo - que é bem recente - foi o único sistema capaz de elevar a população de um país para uma prosperidade em massa. Mas, se o deixarmos correr sozinho, ele vai descarrilar. 

Foi o que aconteceu nos últimos 30 anos, e o mesmo se aplica à democracia, que é ainda mais recente do que o capitalismo. A democracia é um experimento que vem ocorrendo, mas eu acho que é o único sistema que é verdadeiramente sustentável e compatível com o capitalismo. Só que ela também não funciona de forma automática, então também descarrilou.

De onde começamos? As sociedades têm vários problemas profundos inerentes, e isso se aplica também ao Brasil e a outras regiões. Um é o desvio social e econômico. Há um problema social entre metrópoles que expandiram rapidamente e as áreas rurais. E aí nós temos as metrópoles bem-sucedidas, e há também essa ruptura entre educação, pessoas com boa educação e que desenvolveram habilidades cada vez mais valiosas, e também pessoas que investiram em habilidades manuais onde a tecnologia tem menos e menos valor. Então eles estão em declínio.  

 

BIOLOGIA EVOLUCIONÁRIA

O que a biologia evolucionária moderna nos diz sobre a natureza humana é que os humanos são mamíferos muito inusitados. Temos essas características de sermos avarentos e individualistas, mas desenvolvemos algumas características muito diferentes. Uma delas é que somos o mamífero mais pró-sociedade, queremos pertencer a grupos que eu chamaria de comunidades. Queremos nos ligar a essas comunidades. Dentro dessas comunidades, queremos a boa opinião de outros membros, e estamos preparados para trocar um pouco da nossa avareza pela opinião de outros, porque apenas sendo egoístas e avarentos não conseguiríamos o melhor dos outros. O que isso nos permite fazer? Nos permite construir dentro das comunidades um propósito comum.

Somos um mamífero muito diferente dos demais, porque somos imaginativos. Se analisarmos um outro mamífero, como um esquilo, eles correm nas árvores, conseguem escalar e descer rapidamente. Eles pensam no futuro também. Mas se você quiser saber como eram e serão daqui a cem mil anos, é muito simples: eles continuam fazendo as mesmas coisas.

 

PROPÓSITO E LIDERANÇA

Eu não gosto de nenhuma utopia, mas é melhor a utopia estar no futuro do que no passado, porque os líderes que querem nos levar para o passado estão levando as sociedades de volta à pobreza, e também à tristeza. Líderes que se sacrificam, são modestos, pragmáticos e confiáveis, que olham para a frente, é o que buscamos.

Um líder adaptativo consegue liderar bem tanto comunidades de trabalho como de local. Vamos falar um pouquinho sobre as comunidades de trabalho. A melhor forma de pensar numa empresa não é meramente um conjunto de contratos, uma hierarquia de controle e de comando. Uma empresa bem-sucedida é uma comunidade na qual há um propósito comum e que todas as pessoas concordam que vale a pena segui-lo.

O propósito não pode apenas ser “vamos ganhar dinheiro para os acionistas”. Só se você for um dos acionistas (risos). Perdão, mas se você achar que qualquer pessoa numa firma acorda pensando “hoje eu vou maximizar os ganhos para os acionistas”, nossa, não, você perdeu o contato com a realidade. Como humanos, fomos criados para ter um propósito, e esse propósito é algo para suprir as nossas necessidades, mas nossos propósitos não podem ficar simplesmente presos ao eu. Os propósitos querem evoluir do eu para o nós e em uma esfera de tempo mais ampla. Os líderes de uma empresa também precisam garantir que haja um propósito comum ao qual todos os colaboradores possam abraçar. Esse propósito não precisa ser a salvação do mundo, seria infantil pensar dessa forma.  

 

DIÁLOGO

O diálogo é uma troca entre pares semelhantes. Uma analogia seria jogar tênis de mesa, que tem suas regras. Se você for em uma mesa de pingue-pongue, algumas ações serão legítimas e outras não. Você aceita o propósito de que você está jogando contra outra pessoa ou com outra pessoa. A outra pessoa precisa ser respeitada, você não pode ir ao outro lado da mesa e começar a bater no seu oponente. A mesma coisa ocorre com o diálogo: ele pressupõe um grau de respeito mútuo e um objetivo de entendimento comum.

O diálogo automaticamente dá voz a todas as pessoas participantes. A partir desse diálogo, os propósitos comuns surgem, o entendimento surge, surge também a estratégia comum de como alcançar esses propósitos. E, finalmente, temos as obrigações comuns. Isso é diálogo. Se olharmos o que está acontecendo nos Estados Unidos agora, fica muito claro que eles não têm mais diálogo.  

Eu participei de uma TED Talk, há algum tempo atrás, que foi assistida por milhões de pessoas online. Em cada um desses TED Talks há uma seção de comentários. As pessoas podem comentar. Eu recebi um e-mail muito triste hoje dos organizadores do TED Talks dizendo que terão que fechar a sessão de comentários. Em outras palavras: não haverá mais comentários em que as pessoas poderão contribuir ao TED Talks, porque agora eles se tornaram abusivos demais. Esse é um exemplo do colapso do diálogo que vemos hoje: não é mais diálogo, e sim abuso mútuo.