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Conheça Leymah Gbowee, conferencista do Fronteiras do Pensamento 2013

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Vivendo os horrores de uma guerra que durou 14 anos, tomou mais de 250 mil vidas e contribuiu para o estupro de 50% da população feminina, uma mulher compreendeu que, se qualquer mudança tivesse que acontecer naquela sociedade, teria de ser feita pelas mães: Leymah Gbowee.

Ao convocar liberianas de 30 etnias a orarem pela paz, vestidas de branco e sem distinção de religião, Gbowee iniciou um movimento que foi crescendo durante o conflito, até culminar em uma greve de sexo que obrigou o regime do ditador Charles Taylor a integrá-las às negociações de paz. No palco do Fronteiras do Pensamento, Gbowee compartilhará esta história de força, esperança, fé e ativismo pelos direitos das mulheres.

Depois dessa provação, a ativista – que também possui uma especialização em Psicologia Pós-trauma na Universidade de Virginia, Estados Unidos – trabalhou com mulheres violentadas. “Eu tinha 17 anos quando a guerra começou, quando estávamos protestando eu tinha 31 anos. Eu já tinha sentido tanto medo, que estava imune", comenta.

O apelido de “Guerreira da Paz" só se tornaria conhecido no cenário internacional a partir de 2002, quando Gbowee, em função de um sonho, conclamou um grupo de mulheres a rezar. Ela conta a história em sua biografia, relatada no documentário Pray the devil back to hell e no livro editado pela Companhia das Letras, Guerreiras da paz: “Um dia sonhei que uma voz me dizia para reunir mulheres para rezar, pois juntas iríamos acabar com a guerra. Acordei, corri para a igreja luterana em que trabalhava como voluntária e contei para o pastor. Ele disse: O sonho é seu. Você é quem deve honrá-lo. Procurei, então, a presidente da organização das mulheres luteranas e passamos a nos reunir para rezar. Aos poucos, fomos chamando outras igrejas protestantes e a atenção das muçulmanas, que se engajaram na luta. Líamos trechos da Bíblia e do Corão que falavam da força transformadora das mulheres. Nesses livros, elas não ficavam só rezando, não. Iam à luta. E isso nos encorajou tanto que, em 2001, nos vestimos de branco e fomos fazer piquete num campo de futebol que ficava no trajeto diário do ditador Charles Taylor. No início, éramos vinte ou trinta mulheres protestando todos os dias. Em dois anos, viramos duas mil. Estávamos exaustas depois de protestar um dia todo. Aí, Assatu, uma muçulmana do grupo, disse: Estamos fazendo de tudo para mudar a sociedade. Mas e os homens que são contra a guerra: por que não fazem coisa nenhuma? Pensei no que poderia atraí-los para as discussões de paz, quando Assatu disse: Já sei, vamos fazer uma greve de sexo. Se os homens perderem o que mais gostam, vão fazer de tudo para recuperar, inclusive ajudar a parar a guerra. Não se tem libido quando a morte está por todos os lados. Anunciar uma greve de sexo foi a maneira que encontramos de chamar atenção da opinião pública".

Hoje, mãe de mais dois filhos e morando em Gana, Gbowee tem se dedicado intensamente a ações de justiça social e ao desenvolvimento sustentável para comunidades em transformação. É diretora-executiva da Rede Paz e Segurança da África, a WIPSEN-Africa, uma organização que trabalha com mulheres na Libéria, Costa do Marfim, Nigéria e Serra Leoa para gerar transformações positivas através do ativismo pela paz, educação e política eleitoral. Além do Nobel, tem colecionado inúmeras honrarias, entre elas o Blue Ribbon Peace Award do Women's Leadership Board at Harvard University's John F. Kennedy School of Government em 2007, o Profiles in Courage Award da Kennedy Library Foundation em 2009 e o John Jay Justice Award em 2010. Tendo ajudado a atual presidente Ellen Johnson-Sirleaf na chegada ao poder, Leymah Gbowee integrou seu governo do qual saiu em outubro do ano passado alegando frustração com as políticas públicas de combate à corrupção e à pobreza. Ainda assim, sobre o ativismo das mulheres, Gbowee afirma: “Nossas questões na sociedade não têm cor, não têm raça. Não devem ser divididas por classe social. As questões das mulheres não podem ter barreira alguma entre as próprias mulheres".