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Contardo Calligaris no Fronteiras POA: "Somos uma cultura profundamente desatenta"

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Calligaris no Fronteiras POA (foto: Fronteiras do Pensamento / Luiz Munhoz)
Calligaris no Fronteiras POA (foto: Fronteiras do Pensamento / Luiz Munhoz)

Contardo Calligaris foi o conferencista do Fronteiras do Pensamento Porto Alegre desta segunda-feira (21). No Centro de Eventos da PUCRS, o psicanalista italiano defendeu que a "boçalidade" da nossa época está relacionada a um mundo em que a religião não orienta mais nosso destino - e no qual é preciso encontrar um significado para a vida em meio a tantas incertezas.

Sem respostas prontas, precisamos nós mesmos produzir as próprias perguntas e encontrar as explicações. É em meio a esse cenário de insegurança frente ao que fazer e o que pensar, situa Contardo, que surgem a agressividade e a tendência a jogar a culpa no outro.

— Tento reprimir minhas dúvidas justamente quando a razão se afirma e eu duvido de minhas certezas. Mas, eu reprimo a dúvida em mim? Não, faço isso no outro: a crise na minha fé se resolve ao professá-la — critica o psicanalista. — O que responde ao medo da liberdade é a boçalidade. Ser boçal é reprimir no outro a liberdade que me apavora.

Frente a isso, Contardo oferece uma saída: 

— É possível ser leve sem ser leviano. A vida é algo que cada um tem que inventar. Uma maneira que não é boa é fugir das dores ou sofrimentos — concluiu, seguido de aplausos da plateia.

O psicanalista também apontou a estética como uma experiência fundamental ao sentido de vida. Contudo, estética não é qualquer tipo de prazer, disse ele, mas sim uma forma de satisfação que exige profunda atenção e presença - isso sim algo que falta à ideia de prazer na contemporaneidade.

"Existe hoje uma crítica ao hedonismo, que é o comportamento de colocar o prazer acima de tudo. Não vejo problemática em ter uma vida em busca de prazer, acho mais problemático pensar que a privação nos traz mérito. Para aproveitar os ditos prazeres da vida, é preciso de atenção, algo que nos faz falta no mundo e hoje. Somos uma cultura profundamente desatenta" — avaliou.


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Após sua fala, Calligaris respondeu as perguntas do público presente. Ainda, a pergunta enviada por vocês, nossos seguidores nas mídias sociais, que são patrocinadas pela Braskem. Confira abaixo as principais respostas do psicanalista.

Lembre-se: Contardo Calligaris estará no Fronteiras São Paulo nesta quarta (23): adquira seus ingressos para a conferência em São Paulo

Perguntas e Respostas | Calligaris no Fronteiras do Pensamento Porto Alegre

Pergunta Braskem: Existe uma tendência de esconder o que dói. Negar o que é feio e nos faz mal. Estamos cada vez mais egoístas e passamos a fantasiar a vida e relativizar problemas e opiniões, enquanto apontamos os erros dos outros nas redes sociais?  

Contardo Calligaris: Sim, sem dúvida. Por um lado, daria para responder sim, mas por outro lado eu tenho certa simpatia pelas redes sociais. Não me procurem, não estou nelas, só no Twitter, mas não estou normalmente. Algumas vezes estou, mas não sou eu, tem falsos Contardos. Tive dois falsos Facebooks, talvez tenha mais, mas é só.  

Acho que a gente tende a acusar as redes sociais de muitas coisas que, na verdade, não eram muito diferentes antes que elas existissem. Por exemplo, as pessoas nas redes sociais mentem. As pessoas mentem no Barranco, então não precisava das redes sociais, o Barranco tem 50 anos, pronto. O que tem de novo?  

Sobre essa coisa do feio e do esconder o feio, há duas coisas. Por ter sido terapeuta de adolescentes, eu sou bastante convencido de que as pessoas e, sobretudo, os adolescentes, têm direito ao segredo, têm direito a coisas que não precisam dizer para todo mundo. Não que sejam necessariamente vergonhosas, mas é porque o direito ao segredo é constitutivo na subjetividade. É muito bom ter um lugar onde você anota coisas que só você lê, por exemplo.  

Outra coisa que diria é que eu não sei se temos tantas coisas feias e vergonhosas dentro da gente. Acho que temos tendência a enxergar coisas muito mais feias e vergonhosas do que realmente são.  

Se alguém vem me ver e diz que tem uma fantasia sexual da qual se envergonha completamente e que passa por não sei quais práticas (não vou descrever nenhuma porque não quero atrapalhar o sono de ninguém) e me pergunta: “O que eu posso fazer?”  

A minha resposta é para a primeira pergunta: “Onde você mora?” Se ele me diz que mora em Sorocaba, eu digo: “Escuta, a sua primeira solução é a rodoviária. Vá para uma cidade grande e lá você vai conseguir viver melhor suas fantasias sexuais. Depois, vamos ver se elas realmente impedem você de viver e se tem alguma razão de você sofrer de algum tipo de culpa por causa disso.” 

Professor Luciano Marques de Jesus: Eu acredito que a desatenção seja uma questão seríssima do nosso tempo. A desatenção e a valorização excessiva da aparência são uma combinação explosiva que conduz as pessoas ao suicídio. Acho que uma das coisas mais tristes que a gente pode ouvir de alguém é “eu era feliz e não sabia”. Isso é uma de tristeza total, porque o sujeito vive um momento no qual ele não é feliz e ele não estava atento quando ele era. Talvez, a psicoterapia ajude nisso, no enfrentamento da boçalidade, talvez ela possa nos ajudar a enfrentar essa questão tão séria do suicídio.  

Contardo Calligaris: Engraçado, eu estava pensando exatamente isso hoje à tarde, na extraordinária sedução que o suicídio exerce, sobretudo, às mentes mais jovens. Por exemplo, eu era totalmente seduzido pelo suicídio de Cesare Pavese, que era um escritor italiano, que nos anos 50 se suicidou e deixou um diário muito bonito (que no fundo não é muito bonito), que se chama Il Mestiere di Vivere (O Ofício de Viver em português). E aquilo me seduzia enormemente.  

Hoje, quando leio este livro, a impressão que tenho é de que ele se matou porque não pegava mulheres. Realmente, não estou brincando. Claro que a gente pode dar a isso uma dimensão existencial de todo o tipo, mas você lê e diz “meu, você é um puta escritor, está tendo o maior sucesso, teve uma vida extremamente interessante na militância antifascista, por que você vai se fechar num hotel em Torino para se matar?”  

Existe uma erotização da questão da morte por suicídio nos jovens, que talvez seja um efeito da incapacidade de prestar atenção à vida concreta, porque na vida concreta não é necessário ser o cara que primeiro subiu o Everest sem oxigênio para que a vida seja interessante e bonita.  

A vida concreta é interessante e bonita indo à esquina de casa mais um dia, mais uma vez encontrando as mesmas pessoas, ou vindo para a faculdade.  

A capacidade de olhar e aproveitar, no melhor sentido, de sentir a vida concreta ao redor da gente, isso é um fato crucial na possibilidade de viver. Deste ponto de vista, a desatenção e a distração são fatores perigosíssimos, dado que alguém pode se matar de tanto estar distraído.  

Uma coisa que eu esqueci de dizer é que se vocês viajaram e foram visitar museus - eu continuo achando, como quando era criança, que visitar museu é um pé no saco. Então, eu não visito museus. Eu vou ver no máximo três quadros, no máximo, e isso pode levar uma tarde inteira.  

Eu entro, pergunto em que sala estão, olho no mapa. Eu vim para ver a obra tal no Louvre, é na sala tal, eu vou. Não me interessa parar para ver um Leonardo, um Bellini, não. Eu não tenho capacidade de ver mais do que três quadros em uma tarde. Então, isso vai na direção do fato do que é prestar atenção.  

Não sei se te respondi Luciano, mas eu estou um pouco grilado com isso, pois se fala muito em suicídio de jovens e adolescentes. Tem uma parte disso que corresponde efetivamente a um risco sério, tem uma parte que é uma difícil estatística: tem mais mortes por suicídio.  

Claro, jovens em geral não morrem de velhice, então isso os ajuda a morrer principalmente de outras coisas, mas há uma fascinação como se aquilo fosse o único ato pelo qual eu serei levado a sério. Eu acho que essa fascinação tem um parentesco com o fascismo, os fascismos se juntam em uma espécie de fascinação erótica pela morte.  

Nós somos uma sociedade desatenta sim, as formas de distração são inúmeras. De que forma isso está ajudando a moldar a atual geração e a geração que vem a seguir? 

Contardo Calligaris: Escuta, essa realmente eu não sei. Eu tento não ser profético. Aprendi a não ser profético. No comecinho dos anos 1980, antes de eu vir para o Brasil, chegaram os primeiros computadores pessoais e pouquíssimas pessoas tinham. Era muito caro. Chegaram e eram como objetos de luxo.  

Naquela época, eu criei um grupo de investigação sobre os efeitos psicológicos dessas novas máquinas em Paris e fui entrevistar alguém que era psicanalista de crianças. Fomos lá para entrevistá-lo e tivemos uma resposta classicamente francesa.

A nossa pergunta era sobre um sistema operacional criado para crianças por um aluno de Piaget. Primeiro: “Você já usou um computador?” Ele respondeu: “Nunca na vida.” Mesmo assim, pergunta dois: “O que vai acontecer com as crianças que talvez venham a usar?” A resposta dele foi: “Serão todos esquizofrênicos.” Vários deles se salvaram, como vocês podem constatar.  

Por isso, eu realmente evito o lado profético. Não sei o que acontecerá com os millennials, mas, para dizer uma coisa interessante, eu deponho a favor de que a leitura tem alguma coisa a ver com a escuta.  

Você pode estar lá, lendo Crime e Castigo de Dostoiévski, mas Dostoiévski não está escutando e realmente não vai ser impressionado por aquilo. Aliás, eu tive uma experiência disso recentemente, justamente com Crime e Castigo, que não cito por acaso. Decidi reler a obra por uma série de razões e me senti muito impaciente. Treinado pelo cinema de um rico diretor, na página 70 eu disse “mas mata essa velha logo, mata!”. Eu não aguentava mais.  

Quando você lê é como se você escutasse, você não tem como intervir ou replicar. Na internet não é assim, o cara está geralmente na terceira linha da minha coluna online na Folha de S.Paulo e já manda um e-mail agressivo. Ele não sabe nem do que eu vou falar depois, mas já desconta.  

Agora, eu constato que não dá para deduzir disso que a leitura ou o hábito da leitura esteja se perdendo, porque o podcast está se tornando uma coisa tão popular e tão usada pelos jovens. O podcast é ouvir, é como ler. É diferente de ler, é claro, mas é ouvir, você está ouvindo. Isso é um fato extremamente positivo que vem do mundo digital.  

Professor Luciano Marques de Jesus: Nas primeiras décadas do século vinte, Heidegger escreveu que “Nenhuma época teve tantas e tão variadas noções, informações, sobre o ser humano como a nossa. Nenhuma época soube menos que a nossa o que é o ser humano”. Passados quase 100 anos, me parece que essa não era uma profecia de Heidegger, mas isso ficou de uma atualidade ainda mais brutal. Eu queria que o senhor me dissesse alguma coisa sobre essa questão em que nós nos colocamos, parece que ainda mais do Heidegger nós sabemos menos o que é o ser humano.  

Contardo Calligaris: Sem dúvida. Eu sou fascinado por Heidegger, que muito li, e ao mesmo tempo estou profundamente irritado com Heidegger, porque existe alguma coisa que é uma espécie de mímica de uma seriedade excessiva na própria ideia de que no Dasein, no ser aí, teria colada necessariamente uma dimensão de angústia.  

Eu não sei, eu tenho essa briga. Essa briga dura muito tempo. É a briga de Tiago com Paulo, é a briga do que seria o Cristianismo da alegria contra o Cristianismo carrancudo dos padres da igreja. A briga do que seria o Cristianismo que os agnósticos teriam ganhado, em vez de serem esquecidos.  

É a briga de uma relação com o caráter efêmero da nossa vida, a dificuldade de ter a ideia do que é, um pouco do que eu tentei dizer. A briga desta ideia de que a nossa incapacidade de responder à questão do sentido da vida ou só a capacidade de responder parcialmente. Ela não precisa se transformar em medo e tremor, mas ela pode ser uma fonte de leveza. É possível ser leve sem ser leviano.  

Como viver a concretude da vida em tempos tão fluídos, tão diluídos?  

Contardo Calligaris: Ah, isso realmente não sei. Se eu soubesse, estaria vendendo esta resposta. A vida é um negócio que você tem que inventar. Que cada um tem que inventar. Então, tem que inventá-la da maneira mais interessante possível. O que eu sei é que uma maneira que não é boa, é fugir das dores, dos sofrimentos. A minha polêmica com a felicidade tem a ver com isso.  

Eu lembro de estar atendendo nos Estados Unidos nos anos 1990 e, na época, acabava de sair o primeiro grande livro sobre o mundo do Prozac, The Prozac World. As pessoas vinham me perguntar se o Prozac poderia ter efeito preventivo. Diziam: “a minha mãe está bastante doente, estou prevendo que ela morra logo, então vou começar a tomar antidepressivos para não me sentir mal”. Definitivamente não!  

Tem muita gente que pede isso e eu entendo, mas o problema é o seguinte: você tem que viver a dor da morte da sua mãe ou do seu pai. Aquilo vai acontecer uma vez só. Você não vai viver a morte do seu pai mais do que uma vez, então viva isso, assim como viva também a dimensão da sua plenitude e eventualmente o medo que a sua própria morte lhe dá. Essa é uma das grandes experiências da vida.  

Lembre-se: Contardo Calligaris estará no Fronteiras São Paulo nesta quarta (23): adquira seus ingressos para a conferência em São Paulo