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Denis Mukwege, médico ginecologista, já tratou mais de 30 mil mulheres e meninas vítimas de estupro e violência sexual na República Democrática do Congo. Conhecido como "Dr. Milagre", ele é o conferencista desta semana no Fronteiras do Pensamento (POA, 19; SP, 21).

Crítico feroz do abuso de mulheres durante guerras, descreveu o estupro como uma "arma de destruição em massa". Por seus esforços, Mukwege recebeu o Prêmio Nobel da Paz 2018, ao lado da ativista dos direitos humanos yazidis, Nadia Murad. O médico é considerado o maior especialista do mundo em reparação interna de genitais femininos. Também coordena programas de HIV/Aids em seu país.

O Nobel da Paz sobe ao palco do Fronteiras nos dias 19/8 (Porto Alegre) e 21/8 (São Paulo). Além do médico congolês, o projeto ainda receberá Janna Levin, Werner Herzog, Contardo Calligaris e Luc Ferry. Garanta sua presença nos próximos eventos: 

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Em 2008, Mukwege recebeu o Prêmio Olof Palme e o Prêmio Direitos Humanos das Nações Unidas por seu trabalho de proteção aos direitos e à dignidade de milhares de mulheres congolesas. Já em 2014, o médico recebeu um dos mais importantes prêmios do mundo, o Sakharov.

Em 2019, ele retorna ao palco do Fronteiras do Pensamento. Desta vez, para abordar outro tema em que é especialista: os Sentidos de Vida.

A história do médico que teria diante de si a vida segura e confortável da Europa, mas que decide voltar ao Congo, em meio à guerra, e dedicar sua atuação a devolver a dignidade a mulheres é uma narrativa movida por um profundo propósito.

Em sua conferência ao público do projeto, Mukwege nos explicará o que é cruzar os horrores da guerra a partir de um profundo senso de ética, justiça e responsabilidade.

Conheça mais sobre Denis Mukwege abaixo e faça sua pergunta para o Nobel da Paz. Envie suas questões para o e-mail digital@fronteiras.com ou comente-as em nossa página do Facebook.

Mukwege responderá as questões selecionadas diretamente do projeto nas capitais gaúcha e paulista. Divulgaremos as respostas nos dias posteriores aos eventos, em nossos canais digitais, oferecidos pela Braskem.

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Nobel da Paz, Denis Mukwege restaura corpo e esperança de vítimas de estupro | Fernanda Mena / Especial Folha Fronteiras

Ainda que vaginas fizessem parte de seu trabalho cotidiano, dez anos atrás o ginecologista congolês Denis Mukwege era incapaz de pronunciar, em alto e bom som, o nome do canal que se estende do colo do útero até a vulva. A timidez, a educação religiosa e o próprio tabu em torno da palavra - e, portanto, do corpo feminino - o impediam. 

"Denis sempre foi muito tímido e conservador. Tive o privilégio de acompanhar de perto sua evolução", conta Christine Schuler Deschryver, 55, amiga de Mukwege, ex-professora de suas filhas e vice-presidente da fundação criada por ele para tratar e acolher vítimas de violência sexual. "Hoje, ele é um feminista, obcecado em libertar as mulheres dessas atrocidades", diz.

Aos 64 anos, Mukwege contabiliza mais de 50 mil cirurgias realizadas no hospital Panzi, que ele criou e dirige desde 1999 em Bukavu, no leste da República Democrática do Congo (RDC).

Na maioria das operações realizadas por Mukwege, seu desafio é reconstruir vagina, reto e ânus dilacerados por estupros brutais cometidos de forma pública e coletiva, e seguidos da introdução de objetos cortantes ou em chamas nas vítimas.

A prática perversa se tornou sistemática no Congo desde 1998, quando teve início a guerra civil que já deixou mais de 5 milhões de mortos e quase 4 milhões de refugiados.

"Nas zonas de conflito, as batalhas se passam nos corpos das mulheres", declarou em 2013 a uma plateia europeia. "A violência macabra não conhece limites. Eu assisti a coisas que mesmo os cirurgiões não conseguem se acostumar a ver."

Segundo o médico, essa violência sexual extrema, ao atacar e humilhar a figura central da família tradicional congolesa, desagrega esse núcleo, destruindo as comunidades que em torno dele se organizam. Para ele, é uma forma de destruir o tecido social do Congo. 

"O estupro se tornou uma arma de destruição em massa e uma estratégia de guerra, porque é ao mesmo tempo barata e absolutamente devastadora", declarou ele no documentário "O Homem que Repara as Mulheres" (2016).

Suas práticas extrapolaram o campo médico rumo ao ativismo quando Mukwege passou a atender bebês e crianças violentados, que precisavam de cirurgias complexas para reconstrução dos sistemas urinário e excretor. 

"Percebi que essas atrocidades não seriam resolvidas no centro cirúrgico. Era preciso combater suas causas."

Ao denunciar os poderosos que se beneficiavam do terror e da violência, Mukwege se tornou ele mesmo um alvo. Em 2012, sofreu um atentado no qual seus cinco filhos foram feitos reféns e seu segurança particular foi morto. O médico e sua família, então, se exilaram na França. 

Pouco depois, no entanto, ao tomar conhecimento de que mulheres congolesas haviam criado um movimento para trazê-lo de volta ao hospital Panzi, Mukwege retornou a Bukavu, e passou a morar dentro do complexo hospitalar, agora protegido por forças de paz da ONU.

Denis Mukwege no Fronteiras do Pensamento 2010


Em 2014, Mukwege fundou um movimento feminista masculino, o V-Men, que reitera o compromisso dos homens com a igualdade de gênero.

Por seu empenho para acabar com a violência sexual como arma de guerra, recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2018. "Apenas a luta contra a impunidade pode cessar essa espiral de violência", discursou na cerimônia do prêmio.

A guerra civil no leste do Congo deriva do genocídio na vizinha Ruanda, em 1994, e envolve mais de uma centena de grupos milicianos armados, financiados pela exploração ilegal ou descontrolada do rico solo congolês, de onde são extraídos diamantes, ouro, cobalto e coltan, um mineral estratégico usado na produção de baterias para telefones celulares, por exemplo.

"A exploração mineral no Congo alimenta a guerra, a violência extrema e a pobreza abjeta", disse, na entrega do Nobel, antes de lançar uma provocação à ilustre plateia. "Não são apenas os perpetradores da violência os responsáveis por seus crimes, mas também aqueles que escolhem olhar para o outro lado."

Denis Mukwege nasceu em 1955 em Bukavu, território que então ainda era uma colônia da Bélgica.

Terceiro de nove filhos de um pastor pentecostal, estudou medicina no vizinho Burundi e se especializou em ginecologia e obstetrícia na França. 

Ao retornar ao Congo, dirigiu um hospital em Lemera, dizimado pela primeira guerra civil do país, em 1996, quando mais de 30 pacientes foram assassinados no leito hospitalar. "Mal sabia eu que aquele massacre era apenas o começo", disse ao receber o Nobel.

Mudou-se para Bukavu e fundou o hospital Panzi, que, nos primeiros anos da segunda guerra civil congolesa, recebia, em média, dez mulheres estupradas por dia. 

Christine, que havia ingressado no hospital Panzi depois que sua melhor amiga foi assassinada por uma milícia, mantém vivo na memória o caos daqueles primeiros anos de guerra. "Eu voltava para casa impregnada do perfume de carne podre que emanava das mulheres no hospital", conta. "Comecei a ficar maluca, culpada por ter uma vida confortável. Acabei me tornando anoréxica", revela. 

As mulheres vitimadas chegavam sozinhas ao hospital, seja porque tiveram seus familiares assassinados, seja porque passaram a ser vistas por eles como desonradas.

"Em cada mulher estuprada, eu vejo a minha própria mulher. Em cada mãe estuprada, eu vejo a minha própria mãe. Em cada criança estuprada, eu vejo as minhas filhas", discursou Mukwege num encontro sobre violência sexual nas Nações Unidas.

Lembre-se: Dr. Denis Mukwege sobe ao palco do Fronteiras nos dias 19/8 (Porto Alegre) e 21/8 (São Paulo). Garanta sua presença.
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