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Deus era um livro: Valter Hugo Mãe explora relação entre sagrado e cotidiano no Fronteiras São Paulo

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Valter Hugo Mãe no Fronteiras SP (foto: Fronteiras do Pensamento/Greg Salibian)
Valter Hugo Mãe no Fronteiras SP (foto: Fronteiras do Pensamento/Greg Salibian)

Um dos principais autores contemporâneos em língua portuguesa, Valter Hugo Mãe subiu ao palco do Fronteiras do Pensamento São Paulo na noite desta quarta-feira (31), para ler um texto criado para o evento, Deus era um livro. Escrito em primeira pessoa, o texto propôs reflexões que ora confessavam a relação do autor com os livros na infância ora deixavam o público curioso sobre a veracidade dos fatos ali apresentados. Nesta mistura entre realidade e literatura, Hugo Mãe falou sobre a relação mística e ritualística cultivada com a Bíblia na família de um menino e sobre como isso definiu, ao longo da vida, sua relação com as palavras e, mais ainda, com os livros.

Como debatedor da noite, o jornalista Paulo Werneck lembrou a todos que Valter Hugo Mãe estará no Fronteiras, em Salvador, na próxima segunda-feira, e apresentou o convidado como um "colecionador de prefácios", enaltecendo a relevância de Hugo Mãe para a literatura atual, já que seus livros trazem textos iniciais de grandes artistas, como Caetano Veloso, José Saramago, Mia Couto, Ferreira Gullar, Alberto Manguel e outros: "Não há dúvida que estamos aqui diante de um grande autor da língua portuguesa, que está se fazendo perceber pelo público, pela crítica, se fazendo perceber em cada frase que ele escreve e que marca a sintaxe da nossa língua.", disse Werneck.

Valter Hugo Mãe em Salvador | dia 5/9, segunda-feira: ingressos à venda. O escritor português fará conferência inédita e exclusiva ao público da capital baiana, em celebração aos 10 anos de Fronteiras.

Humilde, tranquilo e suave na forma de falar, Hugo Mãe iniciou sua fala comentando a presença da religião em sua escritura: "O sagrado é o que está em prática. O que é colocado num altar é dessacralizado. Se a gente coloca a coisa num patamar de altivez, ela deixa de dialogar conosco, deixa de ser partilha absoluta. O sagrado é a paridade, é a possível igualdade, é o cuidado com o outro, sem a louvação", disse o escritor português. "O que faço nos meus livros é a obrigação de descer Deus ao meio de nós, porque é nesse momento que ele será verdadeiramente sagrado."

Lembrou ainda da proximidade com José Saramago — o Nobel disse que Mãe, vencedor do prêmio que leva seu nome, era um "tsunami literário".

"Em todas as festas e jantares, em casas de embaixadores, com o rei da Espanha, prefiro conversar com o porteiro, com as cozinheiras, com as moças da limpeza. Saramago era igual. Era uma pessoa de boa fé", relembrou. "Se ele desse o celular dele a alguém, raramente era para a pessoa mais suntuosa da noite."

Criador de uma obra essencialmente trágica, Hugo Mãe diz ser difícil criar personagens alegres diante da aridez da experiência humana.

"Vou assumir uma coisa que acho que é talvez a razão para a minha maior angústia. Em última análise, a solidão e inultrapassável. A gente não vai curar nunca a solidão", afirmou. "Muito raramente na vida vamos ter a sensação de plenitude na companhia de alguém, e isso é o que me faz correr pela proximidade com o outro."