Voltar para Notícias

Jon Lee Anderson: o objetivo do Estado Islâmico e a consequência das guerras entre Ocidente e Oriente Médio

As ideias que movem o mundo em um único lugar. Cadastre-se e receba mensalmente o melhor do Fronteiras

Cadastrado com sucesso

Criado em 2013, o grupo terrorista Estado Islâmico, antes chamado de Estado Islâmico no Iraque e na Síria (Isis), cresceu como braço da organização terrorista Al-Qaeda no Iraque. No entanto, no início de 2014, os dois grupos romperam os laços. No final de junho daquele ano, os extremistas declararam um califado, mudaram de nome para Estado Islâmico (EI) e anunciaram que iriam impor o monopólio de seu domínio pela força.

Em entrevista ao The New Yorker, o jornalista norte-americano Jon Lee Anderson, mundialmente conhecido por seu trabalho como correspondente de guerras, discutiu a atuação do EI, as políticas para lidar com o grupo extremista e o papel da mídia na cobertura do terror.

Anderson também explica o objetivo do Estado Islâmico: "O ISIS quer impor um califado, como eles chamam esta utópica e apocalíptica visão do Islã que, nas mentes de muitos islâmicos extremistas já existiu, há séculos, e que eles querem reimplantar na Terra. Um mundo onde os opositores, aqueles que não creem nisso, serão colocados à faca, onde as mulheres conhecerão seu suposto lugar, onde não haveria cristãos, judeus, iazidis, e outros, onde haveria apenas um tipo de Islã onisciente e perfeito."

O jornalista ainda critica a mídia mundial por noticiar mais as barbáries cometidas pelo grupo do que o avanço sobre os radicais. Ele exemplifica com a cobertura da expulsão do Estado Islâmico da cidade síria de Kobani, pelas tropas curdas, em janeiro deste ano, após quatro meses de combates. Mas, argumenta Anderson, a atenção sobre os assassinatos cometidos pelos extremistas seguiram silenciando esta conquista.

Ouça a entrevista na íntegra: Jon Lee Anderson on the evolution of islamic extremism

Em sua conferência ao Fronteiras do Pensamento 2007, Jon Lee Anderson compartilhou lições extraídas de suas premiadas coberturas de conflitos entre Ocidente e Oriente Médio. Confira abaixo um excerto de sua fala, em que discute as consequências das guerras e as diferenças e semelhanças entre os hemisférios:

Alguns dias atrás, em Bagdá, falei com um homem chamado Ali, que havia acabado de dar início a uma matança indiscriminada para vingar seu irmão, morto acidentalmente em um tiroteio, por homens de sua própria facção, há poucos meses.

Ali me disse que, no funeral do seu irmão, havia jurado por Deus matar dez homens para cada um dos dez dedos do irmão morto. Disse-me ainda que não iria parar até que tivesse matado 100 homens, membros da milícia responsável, ou seus irmãos e pais no lugar deles.

Até agora ele já matou 20. De cada uma de suas vítimas ele retira uma parte de seus corpos – uma mão, um dedo, um olho, um pomo-de-Adão – e leva para sua mãe, que então vai até a sepultura de seu filho, irmão de Ali, e as enterra no solo ao lado dele.

A mãe dele me contou que, quando enterra as partes das vítimas de Ali, ela fala com seu filho morto e diz a ele o nome do homem cuja vida fora tirada para vingar a sua morte. Ali conta que desde o início de sua vingança ele não tem mais medo e se sente mais perto de Deus.

Deus, ele me disse, aprova o que ele está fazendo porque os homens que mata são maus e não merecem viver. Ali também colaborou com as forças militares norte-americanas no Iraque. Ele determinava alvos entre membros da milícia em seu bairro para os norte-americanos atacarem de surpresa e capturarem.

Os norte-americanos não sabiam de sua matança secreta; eles acreditavam que Ali fosse um aliado de confiança em sua guerra contra o terror. Ali usa sua atuação entre os soldados para minorar quaisquer suspeitas que poderiam ter contra ele.

A vingança de sangue conduzida por Ali, endossada e ajudada por sua mãe, deriva de uma tradição tribal amplamente semeada, uma tradição que antecede o Islã, mas que se expandiu com ele. Esse é apenas um exemplo do universo paralelo submerso que os Estados Unidos equivocadamente criaram desde a invasão ao Iraque. Para enfrentar o Al-Qaeda, o exército dos EUA começou a armar tribos para lutar contra os jihadistas. O exército acreditava que, com as tribos, eles começariam a vencer os extremistas islâmicos.

Porém, como nos revela a história de Ali, os norte-americanos ainda estão por descobrir algumas das consequências mais sombrias desta política, as quais, evidentemente, ninguém de nós pode ainda prever. A história de Ali não é um caso isolado.

Muito embora nessa comunidade a tradição da vingança de sangue seja mais predominante do que em outras culturas, trata-se de um conceito que é universal, em maior ou menor grau. A vingança constitui também uma das chaves para compreender a própria guerra.

Uma vez que a matança começa, é muito difícil contê-la, pois cada gota de sangue derramado requer outra para vingá-la. Guerras, uma vez deflagradas, podem tornar-se um fim em si próprias, um modo de vida, e podem parecer dar um propósito à existência dos homens.

Quando o presidente Bush disse, em seu estilo altamente simplista, que os norte-americanos estavam patrocinando uma guerra contra terroristas que queriam “destruir nossa liberdade, nosso modo de vida", ele estava alimentando a ideia de que a própria existência do Ocidente estava ameaçada. Até certo ponto ele está correto. Porém, parte dessa ameaça também vem de dentro e dele próprio.

Na mente de milhões de muçulmanos a guerra ao terror patrocinada pelos EUA foi realmente uma guerra patrocinada por judeus e cristãos contra o mundo muçulmano. Essa ideia é o que tem ajudado a transformar o conflito, iniciado em 11/9, de um ataque em represália contra terroristas, a algo semelhante a um choque de civilizações.

O abismo cultural entre o mundo muçulmano e o Ocidente é real. É uma região governada majoritariamente por ditaduras; há enorme riqueza, mas também enorme pobreza devido à corrupção crônica e à distribuição desigual daquelas riquezas. Há também ignorância disseminada. Nos últimos 1000 anos foram traduzidos de outros idiomas para a língua árabe menos livros do que são traduzidos por ano na Espanha.

Sem conhecimento e justiça social, a fé islâmica tem preenchido o vazio na vida das pessoas. O islamismo é uma religião na qual se acredita literalmente. Essa fé literal marca a diferença fundamental entre aqueles de nós no Ocidente, onde tivemos uma separação entre Igreja e Estado, e aquelas pessoas que crescem em seus países como muçulmanos.

A fé inquestionável no divino alimenta a intolerância e o ódio ao outro. Isso, por sua vez, alimenta conflitos posteriores, como observei anteriormente. Cada gota de sangue derramada demanda o derramamento de outra para vingá-la. Mas isso não é algo exclusivo apenas dos muçulmanos.