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"A questão estará em saber se a literatura é ainda pertinente no nosso tempo. A mim parece-me que sim. Que a literatura é meditação, é uma proposta de pensar melhor, ir mais adiante e, como tal, interessa proteger." - Valter Hugo Mãe

Escritor, editor, artista plástico, apresentador de televisão e cantor, o português Valter Hugo Mãe é o conferencista do Fronteiras do Pensamento São Paulo do dia 31 de agosto, quarta-feira.

O Fronteiras do Pensamento leva seus questionamentos até Valter Hugo Mãe. Envie sua pergunta de qualquer parte do Brasil para o e-mail digital@fronteiras.com até terça-feira (30). A questão selecionada será respondida pelo convidado no palco do Fronteiras. A resposta será divulgada no dia seguinte, em nossos canais digitais.

Combinando uma prosa apurada e histórias marcadas pela emoção, o autor se debruça sobre os pequenos detalhes do cotidiano para dar luz às grandes questões da existência humana, como é o caso do personagem Crisóstomo, pescador cujo grande sonho era ser pai, e o barbeiro antónio jorge da silva, que vai viver em um asilo após a morte da esposa. Há poucos dias, Crisóstomo e antónio retornaram às livrarias brasileiras com destaque. Após o fechamento da editora Cosac Naify, as obras de Valter Hugo Mãe passaram a ser editadas, no Brasil, pelo selo Biblioteca Azul, que lançou as novas edições das premiadas histórias de antónio, na obra a máquina de fazer espanhóis, com prefácio de Caetano Veloso, e da vida de Crisóstomo, no livro O Filho de Mil Homens, com prefácio de Alberto Manguel.

Quem nos conta sobre a trajetória pessoal e profissional de Valter Hugo Mãe é a ensaísta e professora Susana Ramos Ventura, Doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela USP, com tese sobre os romances de Mia Couto e José Saramago. Conheça os contextos que formaram um autor que dedica a vida a aventurar-se pelos profundos oceanos da alma humana. Leia abaixo Valter Hugo Mãe: em busca da humanidade essencial:

O contato com a obra do escritor português nascido em Angola Valter Hugo Mãe pode representar para os leitores brasileiros a chave de entrada para a complexidade da produção de um artista multicultural que, ao mesmo tempo em que detém uma originalidade notável, pode ser colocado num continuum com os mais criativos escritores da língua portuguesa.

Valter Hugo Mãe é escritor, mas não apenas escritor, e, como vários artistas de sua geração, ele tem se expressado em diversas linguagens artísticas. Mais conhecido no Brasil como romancista, graças à sua participação no Festival Literário de Paraty (Flip) e às edições de todos os seus romances por editoras brasileiras, ele tem também se destacado em Portugal como poeta, cantor, letrista de canções, desenhista e editor.

Teve o Direito como primeira graduação e, tendo exercido a função de advogado por pouco tempo, foi em Letras que o escritor encontrou o caminho que o tornaria conhecido. Sua trajetória literária começou a ser traçada tanto pela realização de uma pós-graduação em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea quanto pela publicação, desde meados da década de 1990, de seus livros de poesia, o que lhe rendeu um primeiro prêmio de relevo no país de origem, o Almeida Garrett, conferido em 1999. Também este é o ano que marca sua adesão à área editorial no papel de editor. Foi um dos fundadores em Portugal da Quasi Edições, uma pequena editora especializada em poesia contemporânea, onde se editaram pela primeira vez em Portugal poetas brasileiros como Manoel de Barros, Caetano Veloso e Adriana Calcanhotto, ao lado de nomes já consagrados, como o de Ferreira Gullar.

A opção de colocar lado a lado a poesia tradicional e aquela ligada à música mostra a sintonia com o contemporâneo e reflete o caminho que o próprio Valter Hugo Mãe escolheu como artista. Várias outras iniciativas editoriais receberam seus esforços desde então, estando sempre ligado ao que de mais novo e arrojado se produziu nos últimos anos.

O autor ficaria conhecido por um grande número de leitores dos países de língua portuguesa a partir da atribuição, em 2007, do Prêmio Literário José Saramago - que distinguiu, entre outros, Adriana Lisboa, José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares e Andréa del Fuego -, e que ele venceu com um romance, o remorso de baltazar serapião. José Saramago o considerou um verdadeiro tsunami literário, declarando, à época: "Por vezes, tive a sensação de assistir a um novo parto da língua portuguesa".

Tanto neste romance como em o nosso reino, o apocalipse dos trabalhadores e a máquina de fazer espanhóis, o autor abole o uso de letras maiúsculas, grafando seu próprio nome e o nome próprio de seus personagens e lugares de sua ficção com letras minúsculas. Esta particularidade gráfica, imitada pelo próprio Saramago no conto A viagem do elefante, publicado em 2008, fez com que os quatro romances fossem nomeados pela crítica como a "tetralogia das minúsculas".

O procedimento foi justificado pelo autor como um desejo de se aproximar da oralidade, onde, naturalmente, não aparecem maiúsculas e minúsculas, e para conferir uma aceleração à escrita. A manifesta intenção do autor era colaborar para a limpeza formal do texto, numa busca pela agilização da escrita e da leitura. Neste aspecto, ele continua a senda aberta por José Saramago, que aboliu parte da pontuação tradicional em busca da aproximação com o universo da oralidade.

No caso específico da liberdade gráfica adotada por Valter Hugo Mãe, antes dele na Literatura Portuguesa o poeta AI Berto (1948-1997) fez uso do recurso das minúsculas em alguns de seus poemas. Foi no exemplo dele, mas também nas palavras de outro poeta português, Ruy Belo (1933-1978), que Valter Hugo Mãe encontrou a justificativa para a adoção das minúsculas: "Numa dada passagem, ele diz que, num poema, nenhuma palavra deve levantar a cabeça acima das outras. Levei esta imagem à letra, também por uma espécie de democracia das palavras".

A evocação da poesia e de dois poetas como disparadores desta que seria uma das características de parte da obra do autor reflete a importância que a poesia tem em toda a obra em romance de Valter Hugo Mãe: seja nas epígrafes a cada uma das obras, seja durante as narrativas, a poesia e a menção a poetas é constante e enriquece o tecido narrativo.

O uso de minúsculas foi sendo gradualmente abandonado pelo autor ao longo de a máquina de fazer espanhóis, onde exatamente uma figura relacionada à poesia de Fernando Pessoa, o Esteves (de "Tabacaria"), aparece como personagem. Nos dois romances seguintes, A desumanização e O filho de mil homens, as maiúsculas foram retomadas.

O que permanece como um fio condutor de toda a obra de Valter Hugo Mãe é seu pendor para a busca de uma humanidade essencial em seu elenco de personagens, seres muitas vezes dominados por circunstâncias difíceis ou incontornáveis, diante das quais saem engrandecidos devido a seu crescimento pessoal, à sua maturidade e a seu posicionamento diante da realidade que os oprime ou não lhes concede a plenitude que terminam por alcançar devido a seus próprios méritos.

Os afetos têm lugar especial na obra do autor: o amor desenvolvido pelo velho viúvo que se relaciona com seus companheiros de asilo em a máquina de fazer espanhóis ou a adoção do menino órfão por Crisóstomo, o homem de 40 anos que se viu só no mundo, em O filho de mil homens, são vistos de maneira poética e com uma linguagem que é capaz de decifrar os labirintos da dúvida e dos anseios humanos por algo transcendente.

Também em toda a obra de Valter Hugo Mãe, Portugal é uma presença forte. Seja mencionado especificamente, como em o nosso reino ou a máquina de fazer espanhóis, ou não, como em O filho de mil homens, as características sociais que aparecem nas obras apontam para a sociedade portuguesa de maneira inequívoca. A sociedade é desvelada pelas ações das personagens e vista de forma por vezes impiedosa. Toda a solidariedade do autor, grande e transbordante, é para com suas personagens, por vezes presas em situações sociais difíceis de serem resolvidas, com dramas que beiram o insolúvel. A nota de esperança e fé na capacidade humana está sempre presente. Não há questões fáceis, nem soluções milagrosas, há um caminho muitas vezes difícil e doloroso, mas premiado pela vitória da inteireza pessoal que vence o aparentemente invencível.

De um modo geral, todas as obras de Valter Hugo Mãe apresentam uma estreita relação com a tradição literária ocidental, especialmente a portuguesa dos séculos passados. Ao começar qualquer um dos romances, o leitor se vê diante de intertextos com vários outros romances e poemas. A multiplicidade de referências, realizadas com cuidado para que nada fique muito aparente e não prejudique a leitura mais ligeira que também se pode fazer da obra, aponta para um projeto de escrita consciente e em consonância com o melhor que sua geração vem produzindo.

A circunstância biográfica do nascimento em Angola às vésperas do desmantelamento do antigo Império Português, desaparecido em 1975, na sequência da Revolução dos Cravos, de 25 de abril de 1974, que pôs fim a uma ditadura de quase 50 anos em Portugal, não deve ser desprezada. Como outros autores bastante significativos na literatura contemporânea portuguesa, como Dulce Maria Cardoso e Gonçalo M. Tavares, o nascimento na antiga colônia indica o pertencimento a uma família transplantada para a África, participante do projeto colonial em algum nível, e que voltou a Portugal para reconstruir a vida. Nos três autores, este fator biográfico conduz a algumas das obras mais instigantes da contemporaneidade, na medida em que reflete sobre Portugal com um duplo olhar: de dentro, mas parcialmente condicionado por uma visão construída em outro continente.

Na obra de Valter Hugo Mãe esta amplitude de visão de mundo se reflete numa descrição de sociedade por vezes crua, mas precisa, e na afirmação da grandeza de sua humanidade feita de papel, capaz de dar resposta aos desafios de viver em comunidade e conseguir realizar-se de maneira plena.

O artigo de Susana Ramos Ventura foi originalmente publicado no libreto preparatório para a conferência com Valter Hugo Mãe, que contém, também, biografia, principais livros, links com o autor, bem como algumas de suas ideias: “Propagar a ideia de que o ser humano é atroz e vai ser sempre uma coisa terrível é fomentar e naturalizar uma característica que eu não aceito como sendo humana. A oportunidade de praticarmos o contrário da atrocidade é o que nos humaniza."