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Temas como sustentabilidade e filosofia tornaram-se ainda mais presentes nestes tempos de pandemia, em que todos repensam seus hábitos e atitudes. Para trazer contribuições que entrelacem aspectos ecológicos e filosóficos da nova ciência, o Fronteiras do Pensamento terá como conferencista o físico austríaco Fritjof Capra nesta quarta-feira (18), a partir das 20h, via plataforma digital. 

Reconhecido mundialmente pela obra “O Tao da Física”, Capra apoia-se em uma visão sistemática do mundo e faz um paralelo entre a física moderna e o misticismo oriental. Ele defende que tudo está interligado, formando uma espécie de sinfonia, para a qual atribuiu o conceito de teia da vida, ideia trabalhada em seu livro “A Teia da Vida”.       

Envie suas perguntas para Fritjof Capra pelo e-mail digital@fronteiras.com ou por mensagem via Facebook ou Instagram. O pensador responderá as questões selecionadas durante a transmissão ao vivo na conferência desta quarta-feira (18/11). Divulgaremos as respostas nos dias posteriores ao evento, em nossos canais digitais, oferecidos pela Braskem.

As novas realidades trazidas pela pandemia estão entre os assuntos abordados pelo físico, ressaltando a consciência ecológica como fundamental à vida na terra: “a ecologia profunda não vê os seres humanos como superiores de alguma forma à natureza, externos à natureza ou no domínio da natureza, mas nos vê como parte de uma comunidade geral da vida, como um único estrato específico na rede da vida”. Além de ser uma referência por suas obras, Capra é atuante na promoção da educação ecológica.      

A seguir, você confere alguns pontos que Capra abordará em sua conferência, disponíveis na íntegra em vídeo aos assinantes do Fronteiras do Pensamento 2020

O tema do Fronteiras do Pensamento deste ano é “Reinventar o humano”. Você acredita que ainda é possível promover um grande despertar da humanidade em relação à coletividade?

Sim, eu acho que sim. Devo dizer que o humanismo, que é a questão da natureza do ser humano e de nosso papel no mundo, é por óbvio uma antiga tradição filosófica. Acredito que essa tradição ganhou um novo ímpeto com o aumento da consciência ecológica, e sobretudo com a escola filosófica da ecologia profunda, e com ele a natureza do homem adquiriu um novo significado. Sabe, a ecologia profunda não vê os seres humanos como superiores de alguma forma à natureza, externos à natureza ou no domínio da natureza, mas nos vê como parte de uma comunidade geral da vida, como um único estrato específico na rede da vida. Essa visão é representada, por exemplo, na Carta da Terra, que é uma declaração de valores e princípios éticas produzida pelas Nações Unidas, e também integra os valores e a visão de muitas tradições indígenas. 

Portanto, a humanidade enquanto parte integral da comunidade da vida. E devo mencionar que a pandemia de Covid, que agora domina os pensamentos de todos nós, é um lembrete muito dramático de que nós somos partes da comunidade de vida, porque agora sabemos que o coronavírus se originou como consequência de nossa intrusão massiva nos ecossistemas. Isso teve muitas consequências prejudiciais, mas uma delas foi que os vírus que viviam em simbiose com certas espécies animais onde eram inofensivos “saltaram” dessas espécies para os humanos, onde são tóxicos e mortíferos. A pandemia de Covid é um lembrete de que nós precisamos restaurar os ecossistemas e precisamos encontrar nosso devido lugar dentro da rede da vida. 

Excelente. Você defende uma visão sistemática do mundo. Como a união entre o Ocidente e o Oriente pode nos ajudar a promover mudanças?

Bem, foi assim que eu me interessei pela filosofia muitos anos atrás, quando era estudante de física e fiquei fascinado com a filosofia por trás da física quântica e da teoria da relatividade, de todas essas teorias da física moderna. Então eu descobri paralelos significativos entre os conceitos da física moderna e as ideias básicas das visões de mundo orientais do hinduísmo, budismo e taoísmo. 

Respondendo à sua pergunta, a visão de mundo oriental enfatiza a unidade do cosmo e a unidade de todas as formas de vida, e a ciência moderna pega tudo isso emprestado, não só a física moderna, mas também a biologia, a psicologia e a sociologia tomam emprestado o que passei a chamar de visão sistêmica da vida, ou visão em sistema da vida. Portanto, compartilhamos com a biosfera não apenas todas as moléculas básicas – o DNA, o RNA, as proteínas e assim por diante –, mas também os princípios básicos da organização. Ou seja, pertencemos ao mundo vivo, pertencemos à comunidade da vida, em um sentido muito profundo, e esse sentido profundo de pertencimento é a base para viver de forma ecológica. Portanto, acho que essa síntese entre as visões oriental e ocidental é algo muito poderoso e que pode nos ajudar muito.

Você falou em ciência, e acho que a minha geração, eu nunca vi tantas pessoas tentando desacreditar a ciência como neste ano. Como podemos combater isso, como bloquear essas ideias que tornam esse mundo muito mais... intenso, eu diria?

Sim, eu também percebi isso e acho tudo muito triste. Acho que é difícil argumentar de forma ideológica, porque quando as pessoas têm ideologias confrontantes, se você tentar convencê-la elas se agarrarão ainda mais à sua. Porque se trata de uma questão de valores. Então acho que a melhor estratégia é apontar sempre que essa tendência dos conservadores de desacreditar a ciência está provocando consequências mortíferas. Já é possível documentar isso. A negação insistente das mudanças climáticas, por exemplo. As mudanças climáticas são um tema que começou a ser analisado por cientistas como eu há mais de 30 anos. 

Lembro de ter escrito meu primeiro artigo sobre o que então chamávamos de aquecimento global em 1988, então já faz muito tempo. De lá para cá, o descrédito da ciência, da ciência do clima, que hoje é uma ciência muito amadurecida, resultou em milhões de refugiados climáticos e bilhões de dólares em danos causados. Principalmente neste ano: tivemos furacões sem precedentes, grandes incêndios na Califórnia e em outras partes do mundo, então ignorar a ciência das mudanças climáticas nos custou bilhões de dólares em propriedades e milhões de mortes, muitas delas desnecessárias. 

É importante apontar que os epidemiologistas abem como lidar com uma pandemia, mesmo não havendo uma vacina, o que teremos, mas ainda falta muitos meses para isso. E sabemos que os países cujos líderes políticos escutam a ciência e escutam os epidemiologistas conseguiram conter em grande parte a pandemia. Temos histórias de sucessos na Nova Zelândia, na Austrália, na China, onde a pandemia começou, na Coreia do Sul, na Noruega, em muitos países ao redor do mundo onde os líderes políticos não dão depoimentos sobre a pandemia, mas dão a palavra aos cientistas e seguem os seus conselhos. Países cujos líderes políticos desacreditam a ciência acabam tendo que pagar com consequências trágicas, e precisamos destacar isso o tempo todo desde uma visão muito pragmática.