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Envie sua pergunta para Ian McEwan

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Um dos ficcionistas mais importantes de sua geração, reconhecido como um mestre da engenharia e da arquitetura do romance, Ian McEwan coleciona uma série de prêmios literários, entre eles o Whitbread Award e o Man Booker Prize.

Suas obras, simultaneamente viscerais e cerebrais, propõem dilemas morais ao leitor, em narrativas com personagens meticulosamente construídas que sondam questões políticas e culturais.

Ian McEwan é o próximo conferencista do Fronteiras do Pensamento (POA, 24/10; SP, 26/10). Envie sua Pergunta Braskem para o escritor através do e-mail digital@fronteiras.com até a manhã de quarta-feira (26). McEwan responderá a pergunta selecionada no palco do projeto.
A resposta será divulgada em nossos canais na quinta, 27.


Se compreendermos a ciência meramente como um feixe de luz se movendo através dos tempos,
estaremos dando as costas ao grande épico da ingenuidade motivada pela curiosidade. -
Ian McEwan

Apaixonado pela ciência, as pesquisas conduzidas por McEwan para compor suas obras é extensa. Personagens como o neurocirurgião de Sábado ou o aquecimento global que permeia Solar revelam um caminho aproximado de grandes amigos do escritor, como Christopher Hitchens, ao qual dedicou o livro Serena, e Richard Dawkins, cuja obra O gene egoísta rendeu uma extensa e elogiosa resenha de McEwan ao The Guardian. A ciência, nas mãos de McEwan, não é apenas pano de fundo, mas um método. O rigor científico utilizado na construção de suas obras lhe valeu o apelido de mestre da engenharia do romance.

A curiosidade pela ciência na obra de McEwan também não é apenas apego pela exatidão ou apetite intelectual, revela o jornalista Flávio Moura* no artigo exclusivo ao Fronteiras: "Ela é o motor para a exploração de dilemas morais que estão no cerne da experiência contemporânea."

Leia abaixo o artigo A arte capaz de dar forma a uma sinfonia de contradições

No panteão da literatura contemporânea, o inglês Ian McEwan ocupa posição singular. Não há dúvida de que,
aos 40 anos de carreira e 68 de idade, ombreia com os maiores de sua geração, caso de seus amigos Salman Rushdie, Julian Barnes e Martin Amis.

Ao contrário deles, no entanto, McEwan cultiva uma espécie de paixão pela concretude das coisas. Se Rushdie
faz contínuo esforço para atualizar as narrativas mágicas da tradição árabe, se Barnes é pródigo no lirismo dos
momentos fugazes, e Amis celebrizou-se como o
enfant terrible da sátira política, McEwan notabilizou-se pelo empirismo em que alicerça seus romances.

Há uma anedota que ilustra bem essa característica. Certa vez, Barnes estava lendo um artigo do jornal The Guardian sobre um navio que, em 1893, congelou no Polo Norte. Os exploradores tinham construído uma turbina primitiva, movida a vento, para gerar eletricidade, e no artigo havia a descrição do capitão sobre o modo como acionaram a turbina logo antes do pôr do Sol, o primeiro daquele inverno no Ártico. Barnes adorou e emprestou o texto a McEwan. Ele leu e exclamou: “Isso é incrível! Uma turbina a vento já em 1893!". Ao que Barnes retrucou: “Mas eu estava falando da descrição do pôr do Sol...".

Há rigor científico por trás da ficção de McEwan. Se é verdade que os romancistas são os cientistas do comportamento humano, McEwan decerto figura entre os mais diligentes da categoria. É isso que se nota em
Henry Perowne, por exemplo, o neurocirurgião que protagoniza seu romance
Sábado (2005). O mesmo pode
ser dito de Michael Beard, o cientista vencedor do Prêmio Nobel que figura em
Solar (2010), romance inteiro
dedicado ao debate em torno do aquecimento global.

Ambos os livros são prodígios da grande literatura justamente por aquilo que são capazes de esconder por
trás da prosa fluente: uma incansável pesquisa em revistas científicas e entrevistas com profissionais da
área. O autor leva esse gosto ao paroxismo: é bem possível que McEwan seja o único romancista da atualidade a possuir uma gravata estampada com craniótomos – objeto usado para perfurar crânios em cirurgias.

A curiosidade pela ciência na obra de McEwan não é apenas apego pela exatidão ou apetite intelectual. Ela
é o motor para a exploração de dilemas morais que estão no cerne da experiência contemporânea. Em
seu mais recente romance,
A balada de Adam Henry (2014), uma juíza de direito se vê diante de um jovem
com leucemia cuja família prefere entregá-lo à morte a autorizar uma transfusão de sangue, proibida pela
religião que praticam. Fiona, a juíza em questão, decide conhecer o jovem pessoalmente e estabelece com
ele uma relação afetiva que serve de contraponto a um casamento em crise. E assim se arma o feixe de
problemas de um típico livro de McEwan: o mundo irracional – a fé, no caso – em oposição às conquistas
iluministas, também vistas em suas limitações. Um personagem em crise – e uma experiência limite que
transforma sua vida. Uma centelha de dúvida desde a primeira página – e um suspense que mantém o leitor
de olhos grudados no livro até a última.

Não se pode acusar McEwan de ser excessivamente cerebral. Há grande dose de reflexão em seus livros, não há
dúvida, mas ela está sempre a serviço de uma capacidade única de capturar o leitor, que aliás responde por sua popularidade estrondosa – na Inglaterra, vive a distribuir autógrafos nas ruas e seus livros são anunciados nos jornais ao lado de notícias sobre estrelas do rock. “Tensão narrativa é sobretudo a capacidade de segurar a informação", ele disse alguns anos atrás à revista
New Yorker. Poucas linhas depois, o texto o apresentava como um “profundo conhecedor do espanto, capaz de produzir o equivalente literário do gesto de abrir a torneira e sair; a inundação é previsível, mas mesmo assim ela choca quando a pia começa a transbordar".

É isso que se nota em algumas cenas memoráveis de seus livros, como o ataque de cachorros ferozes a uma
mulher em Cães negros (1992), o assassinato orgiástico em
The comfort of strangers (1981, estranhamente traduzido para o português como Ao Deus dará), a iniciação sexual atabalhoada do impecável Na praia (2007), uma obra-prima de sutileza e concisão.

McEwan acredita que um romance precisa mexer com o leitor. Apesar de motivado por ideias, ele sempre as traduz em cenas e ação, jamais numa conversa enfadonha entre os personagens. A cena de abertura de Amor para sempre (1997), por exemplo, traz cinco homens que seguram as cordas de um balão. Quando a situação foge de controle, todos começam a largar as cordas, à exceção de um deles, que é lançado ao ar e morre quando tenta se soltar, já a uma altura considerável. É um lance de ação e suspense, aliás traduzido de modo particularmente feliz na adaptação para o cinema, feita em 2004 por Roger Michel. Mas também está ali uma perfeita tradução para a teoria dos jogos, que examina as consequências de ações racionais do ponto de vista do indivíduo mas prejudiciais à coletividade.

Todos esses atributos do imenso escritor que é Ian McEwan talvez estejam resumidos em seu magnum opus, o romance Reparação, de 2001. Divido em três períodos, um em 1935, outro durante a Segunda Guerra, e por fim uma coda, na Inglaterra no fim dos anos 1990, o livro é a história de Briony, uma garota que aos 13 anos acusa
injustamente o namorado de sua irmã por estupro. Ele vai preso, é solto para lutar na guerra e depois tenta reencontrar a namorada após a garota retirar a acusação. Ao fim do livro, descobrimos estar lendo um romance de autoria de Briony, que se tornou uma escritora de sucesso e ao fim da vida tenta corrigir seu erro. Na realidade, a irmã e o namorado morreram na guerra e, portanto, nunca mais se reencontraram. Ali estão todas as virtudes de McEwan em grau máximo. A capacidade de puxar o tapete do leitor, com uma virada ao final que já se tornou clássica. As ambiguidades envolvidas na acusação da menina, que misturam ciúme, paixão, sexualidade reprimida, moralismo. A culpa como um tormento capaz de acompanhar toda uma vida. E a literatura, acima de tudo, como única arte capaz de dar forma a essa sinfonia de contradições.

É preciso, por fim, lembrar a face de Ian McEwan como intelectual público. Sua relação intensa com a racionalidade, a objetividade, a evidência, a investigação, não é algo que se vê apenas em sua obra literária. O escritor é presença constante nos jornais quando algum arroubo de fervor religioso causa estrago pelo mundo. Foi assim no 11 de Setembro, quando McEwan afrmou:

“Os poderes da doce razão me parecem bem mais atraentes após o 11 de Setembro do que os apelos da fé – e
não acredito mais que os dois tenham o mesmo peso na balança". Foi assim após os atentados de Paris em
dezembro de 2015, quando insurgiu-se contra “o niilismo selvagem e o ódio" dos terroristas e contra a noção
de paraíso cultivada pelos jihadistas, a seu ver “uma das piores ideias que a humanidade já teve".

McEwan é um humanista no sentido amplo da palavra. As muitas ferramentas de que dispõe como romancista estão também a serviço de um olhar atento e generoso para a realidade ao redor, pronto a identificar imposturas intelectuais e obscurantismos de toda sorte.

Eis uma síntese possível para a singularidade de Ian McEwan: amor pela razão e pelas possibilidades infinitas da literatura; apego à objetividade das coisas e à necessidade premente de seduzir o leitor; desprezo
pelos descaminhos da fé mas crença absoluta no dever do escritor de se pronunciar sobre o mundo. Na conferência do
Fronteiras do Pensamento, é a este autor complexo, multifacetado, denso e inquieto que o público tem o privilégio de assistir.


O artigo acima foi originalmente publicado no libreto preparatório para a conferência com Ian McEwan. O libreto também contém biografia, indicações de livros, links com o escritor, bem como algumas de suas ideias: “Literatura tem a ver com prazer. E é uma forma de exploração, de investigação da natureza humana. Entender a nós mesmos é algo que todos desejamos fazer no nosso breve momento de consciência. O romance, em particular, é a forma ideal para essa investigação."