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Professor de psicologia da Universidade Harvard, Joshua Greene tem se dedicado a pesquisar o modo como as decisões morais são processadas pela mente humana. Com formação acadêmica também na área de filosofia, ele conjugou seus achados em registros de ressonância magnética da atividade cerebral com formulações bem mais abstratas sobre a origem do pensamento ético.

O resultado dessa ambiciosa abordagem está em um livro acessível mas poderoso, Moral tribes: emotion, reason, and the gap between us and them (Tribos Morais, a ser lançado em breve pela Editora Record). Na obra, além de identificar as diferenças entre as emoções morais e as decisões tomadas apenas racionalmente, Greene consegue mapear problemas morais modernos que, por requererem coordenação complexa em sociedades plurais e diversificadas – com diversas “tribos morais” – tornam-se de difícil solução.

Para aqueles que tentam compreender a lógica das guerras culturais entre as diferentes tribos morais das sociedades contemporâneas, o trabalho de Greene é indispensável. O cientista é o próximo conferencista do Fronteiras do Pensamento São Paulo e sobe ao palco do projeto na quarta-feira (30). Garanta sua participação nesta temporada de conferências (São Paulo e Porto Alegre).

Envie sua pergunta para Joshua Greene através do e-mail digital@fronteiras.com até a manhã do dia 30. A questão selecionada será respondida diretamente do evento. Divulgaremos a resposta no dia seguinte à conferência.

A base biológica da moralidade, por Helena Oliveira* | Diretor do Moral Cognitive Lab da Universidade de Harvard e há muito um estudioso incansável do tema da moralidade, Joshua Greene juntou tratados morais filosóficos do século XX, estudos variados da área da psicologia e os avanços da neurociência e publicou, recentemente, um livro excepcional que está a ser considerado, por muitos críticos, como o mapa orientador para aquilo que considera como uma “moralidade” mais baseada na razão ou do tipo utilitarista.

Em Moral Tribes: Emotion, Reason, and the Gap Between Us and Them, Greene defende que os nossos cérebros foram concebidos para a vida tribal, para conviver com um grupo selecionado de pessoas (Nós) e para lutar contra todos os outros (Eles). Todavia, a vida moderna obrigou as diferentes tribos do mundo a partilharem um espaço comum crescentemente exíguo, criando conflitos de interesse e confrontos em torno de sistemas de valores distintos, em conjunto com oportunidades sem precedentes. À medida que o mundo fica menor para tanta gente, as linhas morais que nos dividem tornam-se mais evidentes e, ao mesmo tempo, mais confusas. E é por isso que lutamos por tudo e por nada, seja por causa dos impostos ou do aquecimento global, o que nos obriga a questionar se será possível, um dia, partilharmos um consenso ou um denominador comum universal.

A máquina fotográfica dual mode

Afirmando que o seu livro é sobre a “tragédia central da vida humana” e nesta síntese de neurociência, psicologia e filosofia, Greene defende que a tendência para o fundamentalismo, o conflito ou as atrocidades está intimamente relacionada com a mente humana.

Na medida em que partes relevantes da mente humana estão ganhando um enfoque cada vez maior, a tentação para mergulhar nos mistérios que atormentam a nossa humanidade é cada vez mais intensa. 

Assim, e para começar, o diagnóstico de Greene é, fundamentalmente, darwiniano: os impulsos e as inclinações que moldam o discurso moral constituem legados da seleção natural e estão enraizados nos nossos genes. Especificamente, muitos deles continuam presentes em nós devido ao fato de terem ajudado os nossos antepassados a perceberem os benefícios da cooperação. E, como resultado, as pessoas “se safam” muito bem a viverem em conjunto umas com as outras e a apoiar as regras éticas básicas que mantêm as sociedades “na ordem”.

Para os que não acreditam que os impulsos morais básicos são inatos – contradizendo a teoria de que, quando nascemos, somos apenas uma “tabula rasa” – a sugestão vai para a leitura de um outro livro, escrito pelo pesquisador Paul Bloom, intitulado Just Babies: The Origins of Good and Evil. Ao longo da sua pesquisa, Bloom demonstra que existe um conjunto de inclinações morais relevantes que são visíveis logo nos primeiros anos de vida.

>> Assista aos vídeos com Paul Bloom no fronteiras.com

Para contextualizar a sua tese, o autor recorda alguns filósofos racionalistas, que conceberam os julgamentos como um empreendimento racional. Contrastando com estes filósofos, existem os outros mais “sentimentais”, que argumentavam que as emoções constituem a base primordial para o julgamento moral. Já Greene, afirma acreditar que tanto as emoções como a razão desempenham papéis principais no julgamento moral e que as suas respectivas influências nunca foram devidamente compreendidas.

E é neste contexto que o autor propõe um “processo dual” para a teoria do julgamento moral, no qual os julgamentos associados com o “certo e o errado” são despoletados por respostas emocionais automáticas, ao passo que os julgamentos utilitaristas (aqueles que têm como objetivo promover “o maior dos bens”), correspondem a processos cognitivos controlados. E são as tensões existentes entre estes dois sistemas cerebrais que o autor tem investigado, defendendo, contudo, que a moralidade deve ser sempre “aplicada” no seu sentido mais utilitário ou, como prefere, a partir de um “pragmatismo profundo”.

>> Leia também | Entrevista com Joshua Greene: por um mundo pós-tribal

Numa analogia mais perceptível, o autor compara o cérebro humano a uma câmera digital “dual mode”, com características automáticas (“retrato”, “paisagem” etc), mas que também funciona em “modo manual”. As definições “aponta e dispara” são as nossas emoções, programas automatizados e eficientes, aprimorados pela evolução, pela cultura e pela experiência pessoal. Já o “modo manual” do nosso cérebro consiste na sua capacidade de raciocinar de forma consciente, o que faz com que o nosso pensamento seja flexível.

Greene defende assim que as nossas emoções nos transformam em animais sociais, substituindo o “Eu” pelo “Nós”, mas que também podem nos transformar em animais tribais, o que resulta no “Nós” contra “Eles”. Adicionalmente, as nossas emoções tribais nos obrigam a lutar, por vezes com bombas, outras vezes com palavras e, muitas vezes ainda em confrontos de vida ou de morte. Ou, em outras palavras, ao adicionar a inspiração proveniente da filosofia moral e dos progressos da ciência, o livro de Greene pretende demonstrar quando é seguro confiar nos nossos instintos, quando devemos raciocinar e de que forma o tipo adequado de raciocínio pode contribuir para que possamos avançar enquanto sociedade. E uma das grandes questões em Moral Tribes é um dos maiores desafios contemporâneos: como conseguimos viver com “eles” quando aquilo que “eles” pretendem nos parece tão errado?

(Leia o artigo integral, não editado, de Helena Oliveira no site VER - Valores, ética e responsabilidade)