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Envie sua pergunta para Leïla Slimani

Aos 36 anos, a marroquina Leïla Slimani representa a nova cara da literatura francesa. Radicada no país desde a adolescência e apontada pelo presidente Emmanuel Macron como embaixatriz da francofonia, ela ganhou o mais prestigiado prêmio literário francês, o Goncourt, com o romance Canção de Ninar, que acaba de ser publicado no Brasil. O livro lida de forma muito direta com sentimentos complexos das mulheres divididas entre a criação dos filhos e o trabalho a partir da história de Myriam, que vê seus piores medos se tornarem reais quando os dois filhos pequenos são assassinados pela própria babá.

Muitos leitores - e jornalistas - explicam que a obra foi criada com base em uma tragédia ocorrida em Nova York, em 2012, quando a babá Yoselyn Ortega matou as duas crianças de quem cuidava. Porém, Slimani esclarece que, quando o assassinato ocorreu, ela já estava escrevendo uma obra sobre a relação de uma família com sua babá. "Quando vi a manchete na televisão, isso me levou a pensar sobre o assassinato. Começar o livro com isso é uma técnica narrativa para capturar a atenção do leitor", explica a autora, que diz estar cansada de responder à mídia se acompanhou o caso real de Yoselyn. "O livro não é sobre isso, a história não é um suspense ou uma investigação policial".

Então, o que é Canção de Ninar? Se fosse preciso categorizar a obra, poderíamos dizer que se trata de uma "tragédia moderna", como diz a própria autora, em que o microcosmo familiar reflete a realidade sociocultural de mulheres que se veem cercadas de crianças, mas profundamente sozinhas, imersas em exigências diversas. Uma história que propõe um questionamento sobre um dos temas mais atemporais da humanidade, o amor materno, mas que também aborda a emancipação feminina, as relações entre patrões e empregados domésticos, a presença dos imigrantes ilegais na França e seu impacto na sociedade, como nos explica Alexandra Lopes da Cunha em seu artigo para a Revista Fronteiras 2018.

Leïla Slimani traz suas reflexões sobre este silenciado universo ao Fronteiras do Pensamento 2018 na próxima semana. Envie sua pergunta para a autora através do e-mail digital@fronteiras.com até a manhã do dia 18, segunda-feira. A questão selecionada será respondida diretamente do evento. Divulgaremos a resposta no dia seguinte à conferência. Garanta sua participação nas conferências desta edição, que acontecem em Porto Alegre e São Paulo.

Em recente entrevista ao Metro, Slimani fala sobre culpa feminina, filhos e trabalho. Mãe de duas crianças, ela confessa que escreveu o livro para expurgar seus próprios temores. Confira abaixo e não esqueça de enviar sua pergunta para Leïla Slimani até a manhã do dia 18 de junho.

Quão difícil foi para você abordar esses assuntos? O medo de perder os filhos é muito universal, mas não podemos falar sobre ele porque seria impossível viver assim. Temos que nos esquecer dele e, ao mesmo tempo, fazer de tudo para proteger nossos filhos. Fiquei interessada em explorar esse paradoxo, mostrando quão difícil é para uma mãe sentir esse medo e, ao mesmo tempo, uma certa solidão por não poder expressar esse sentimento. Tentei confrontar meus próprios temores e dizer realmente o que eu sentia todos os dias enquanto mãe. Esse medo esteve presente desde o início da minha relação com meu primeiro filho, então queria falar sobre isso e ser bastante honesta a respeito.

Por que ainda é tão difícil para as mulheres serem mães e trabalharem da mesma forma como os homens já estão acostumados? Nunca perguntamos aos homens como eles fazem para ter tudo, porque parece natural que eles possam ser pais e profissionais ao mesmo tempo, mas a gente sempre pergunta isso às mulheres. Todo mundo me pergunta como faço com os filhos, já que viajo muito por causa do trabalho. Tento administrar a rotina para compartilhar todos os fardos de ter numa família, mas é muito difícil para as mulheres, porque somos acometidas de muita culpa, um sentimento de que nunca fazemos bem o que estamos fazendo. Sempre temos uma sensação de incompletude. Talvez as mulheres devam aceitar o fato de não serem perfeitas. Apenas tentaremos fazer o nosso melhor.

Li que você abandonou seu primeiro romance, que abordava políticas de identidade. Mas “Canção de Ninar” acaba tocando nisso ao inverter papéis e apresentar uma mãe marroquina e uma babá francesa, não? Claro, mas acho que, no meu primeiro romance, eu tratava isso de forma muito literal e até um pouco clichê. Era como uma caricatura, e eu precisava contar a história de outro personagem, diferente de mim, para falar de políticas de identidade. Eu tinha a sensação de que perdia a objetividade quando falava apenas de meu próprio ponto de vista. Então quis falar a partir de outros personagens que não eu.

Você entende “Canção de Ninar” como um thriller? Não acho que seja, porque o thriller tem seus próprios códigos e eu já começo contando o final. Então não existe suspense, você já sabe o que vai acontecer. Acho que ele se parece mais com uma tragédia moderna. Você sabe o fim já de partida: as crianças vão morrer. A questão não é quem vai fazer aquilo, mas o porquê, a psicologia de cada personagem e como algo assim poderia acontecer a uma família comum, de pessoas como eu ou você.

O livro fala bastante sobre intimidade compartilhada… A questão da intimidade é muito importante nos meus livros. Para mim, ela é um paradoxo em qualquer tipo de relação. Quando você mora com alguém, você tem a sensação de que a pessoa conhece você, mas a intimidade nos deixa cegos. O fato é que não conhecemos as pessoas nem quando dividimos o mesmo teto com elas. O que se mostra nas redes sociais é apenas a superfície, não é real, pois, na verdade, sempre há algo impossível de falar sobre nós mesmos. Então sempre vai haver algo do outro que eu nunca saberei.

A cineasta Maïwenn (Meu Rei) vai adaptar o livro para o cinema. Era importante para você ter uma mulher dirigindo essa história? Não posso dizer que tenha sido eu quem escolheu ter mulheres diretoras, mas o contrário. Muitas cineastas me procuraram querendo fazer o filme. Acho que o tema mexeu mais com as mulheres do que com os homens. Confio completamente em Maïwenn e acho que ela fará um trabalho incrível.




LEMBRE-SE| Leïla Slimani é a conferencista do Fronteiras do Pensamento 2018 da próxima semana. Envie sua pergunta para a autora através do e-mail digital@fronteiras.com até a manhã do dia 18, segunda-feira. Garanta sua participação nas conferências desta edição, que acontecem em Porto Alegre e São Paulo.

>> Acesse o libreto especial de Leïla Slimani, autora do best-seller Canção de Ninar
O libreto inclui biografia, links indicados e informações de destaque sobre a conferencista.