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Em momentos de paz ou aflição, de alegria ou dor profunda, aqueles que leem encontram em cada obra uma maneira de se deslocar para outra realidade.

Leonardo Padura, um dos mais prestigiados escritores cubanos, reconhecido no mundo inteiro, sabe como levar o leitor à identificação com o que ele não conhece e, ao mesmo tempo, compreender aquilo com que ele não se identifica. Padura desenvolve com maestria, portanto, um dos grandes poderes da literatura.

Além de livros, Padura também escreve colunas para periódicos e roteiros para cinema, e tem uma longa trajetória como jornalista investigativo.

Seu conhecimento da escrita vai além da experiência empírica: com pós-graduação em Literatura Hispano-americana pela Universidade de Havana, o autor de Estações Havana e O homem que amava os cachorros leva ao mundo todo sua visão crítica e humana sobre seu país.

Entre os reconhecimentos por sua obra, recebeu o Prêmio Princesa das Astúrias e o Prêmio Nacional de Literatura de Cuba.

Leonardo Padura sobe ao palco do Fronteiras do Pensamento Salvador na terça-feira, dia 06 de agosto.

Além da conferência com o escritor cubano, o projeto ainda promoverá uma conferência com o filósofo Pierre Lévy e um debate especial entre a filósofa Djamila Ribeiro e a historiadora Lilia Schwarcz. As vagas estão abertas e os lugares no Teatro Castro Alves são limitados.

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Envie sua pergunta para Leonardo Padura através do e-mail digital@fronteiras.com. O escritor responderá à questão selecionada diretamente do palco do evento. Divulgaremos a resposta do escritor cubano no dia seguinte à conferência, em nossos canais digitais.

Em artigo especial para o Fronteiras do Pensamento, Gustavo Melo Czekster* reflete sobre o poder da literatura, e exalta Leonardo Padura como exemplo de escritor que nos permite a alteridade por excelência. A partir daí, diz Czekster, as histórias nos ajudam a mostrar quem realmente somos.

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A LITERATURA COMO UM FAROL | GUSTAVO MELO CZEKSTER 

Imagine-se sobre o convés de uma embarcação, atacado pelos antigos deuses das águas, que esboroam as madeiras, ansiosos para saborear o seu último hálito. Imagine o vento fustigando a sua cara com centenas de cortes gelados, o rugido de um mundo que se contorce ao redor, o descontrole de vagar pela noite infinita onde as nuvens se unem às águas com o propósito de o engolir vivo.

Estremecido de medo, você enxerga a luz solitária sobre a água, um bruxuleio tímido que aos poucos se firma no horizonte e lhe diz: calma, tudo vai acabar bem. Aproxime-se com cautela e, em breve, o pesadelo será passado. Toda a lógica indica que aquela luz é um farol, mas, para quem está dentro do barco enfrentando a tempestade, ela se chama Esperança.

Em tempos de crise moral e ética, é na Arte que devemos buscar aquilo que perdemos. É nela que encontramos o Humano, não a criatura multifacetada e repleta de agonia imposta pela pós-modernidade, mas o ser solitário que tenta chegar à sua essência para entender o mundo que o cerca.

A Arte é o farol que nos conduz no silêncio da existência. É ela que tem a capacidade de fornecer a resposta para aquilo que sequer conseguimos transformar em pergunta.

Leia também: Leonardo Padura: "Histórias universais não precisam de tanta tecnologia"

Entre as artes, a Literatura ocupa um papel de relevo ao mostrar caminhos diferentes dentro da realidade, trazendo novas reflexões para dentro da vida singular que cada um ocupa. A melhor maneira de entendermos o outro é tentando enxergar o mundo através do seu ponto de vista.

A Literatura é o exercício de alteridade por excelência, pois, quando lemos um livro, por um intervalo de tempo delirante, deixamos de ser nós mesmos e nos transformamos em Gregor Samsa, em Aquiles, em Jane Eyre, em um axolote.

Quanto mais lemos, maior a capacidade de entendermos os dilemas do outro e, quanto maior a compreensão, maior a tolerância e o respeito a quem nos é diferente.

Leonardo Padura abre série Fronteiras Salvador dia 06 de agosto. Garanta sua presença.


É o caso do escritor cubano Leonardo Padura.
A sua obra constitui um microcosmo dos séculos XX e XXI; o leitor que se debruçar sobre os seus romances, aprenderá mais sobre política, economia, sociologia e relações humanas do que qualquer busca no Google.

Terá a vantagem de caminhar por uma Cuba mais real do que aquela que conhecemos: um cenário quente, de desilusões prolongadas, de desencanto e de alegrias que insistem em se esconder nos cantos das esquinas. Conhecerá um povo que sorri apesar das agruras, que sobrevive com dignidade e que possui dramas não muito distantes dos que atormentam pessoas em outros lugares do mundo.

Ao contrário do que se pensa, o acesso amplo à informação é inútil se não acompanhado do toque humano de saber articular tais dados na forma de um pensamento coerente.

Quando Simone de Beauvoir expressou o seu receio de que o excesso de informação tornasse a literatura obsoleta, antecipou algo que Leonardo Padura demonstra nos seus romances: as informações e a pesquisa detalhada dos assuntos só possuem algum sentido quando são depuradas pelo olhar aguçado de um homem sobre o seu tempo.

Para descrever a sociedade em que vive, e fazer com que a sua obra tenha um alcance universal, Leonardo Padura escreve romances policiais, tidos por muitos como uma espécie de subgênero literário (por mais questionado que seja esse conceito).

Autor da série de novelas policiais Estações Havana, formada por quatro livros (Passado perfeito, Ventos de quaresma, Máscaras e Paisagens de outono), o autor cubano criou o detetive Mario Conde, um policial atormentado por questões pessoais e que resolve crimes enquanto Cuba vive as primeiras crises do final do socialismo castrista.

É um tempo de mudanças sociais e políticas, e, em meio a essas incertezas que afetam o cotidiano de milhares de pessoas, Mario Conde atravessa as ruas de Havana em busca de respostas para os crimes, precisando lidar com os mais variados e ricos personagens, que dissimulam, mentem e, às vezes, até falam a verdade.

Dificilmente existe gênero literário que melhor represente a literatura como forma artística do que o romance policial. Reduzido aos seus elementos mais básicos, ele é a caçada de um criminoso realizada por outra pessoa que dispõe da mais perigosa das armas: a criatividade de unir pontos díspares em uma rede lógica de causa e efeito.

Seres humanos criativos são algo a ser temido em qualquer tempo e lugar, e o romance policial faz com que os seus leitores tracem ligações e imaginem cenários que expandem as possibilidades da criatividade ao infinito.

Em um ensaio sobre o conto policial, Jorge Luis Borges, após afirmar que a literatura é algo que tende ao caótico, acaba encontrando organização dentro da história policial, “que está salvando a ordem em uma época de desordem”. Poucas sensações são mais tranquilizadoras do que juntar pistas ao lado de um detetive ficcional e trazer algum conforto e segurança ao mundo.

Chesterton afirmou que o verdadeiro inimigo da história policial é o escritor, que esconde pistas com o desejo de que elas sejam encontradas.

Nesse caso, Leonardo Padura é o melhor adversário que um leitor pode encontrar, pois, além de tentar encontrar sentido para uma Cuba que espelha as perplexidades de todo um século, constrói o caos de um crime dentro de um caos social maior, e faz com que o leitor se torne cúmplice na tarefa de juntar os pedaços de um mundo semidestruído com o objetivo de dar alguma ordem que, se não for a ideal, ao menos seja satisfatória.

Retomando a pergunta motivadora deste texto, o que pode a literatura? Talvez a resposta seja outra questão: o que a literatura não pode fazer nos tempos em que vivemos? Existiria assunto tão insondável que não possa ser trazido para dentro da arena ficcional a fim de ser analisado sob todos os prismas possíveis?

Com o passar do tempo, criou-se a ilusão de que surgirá alguém capaz de nos salvar, um ente iluminado que, com inteligência, guiará a nossa embarcação para longe da crise, mas, parafraseando Brecht, pobre da nação que precisa de heróis!

O melhor é buscar o conforto da literatura para achar as respostas tão ansiadas, confiantes de que, como um farol em meio ao mar bravio, ela será capaz de nos conduzir quando nos sentirmos perdidos e sozinhos. Nesse cenário, a obra de Leonardo Padura continuará dialogando com os dilemas da nossa época, mostrando para o leitor que uma das grandes funções da literatura, afinal de contas, é mostrar quem realmente somos.

*[Excerto do texto A literatura como um farol]. Czekster é mestre em Letras, área da Literatura Comparada, pelo Instituto de Letras da UFRGS. Atualmente, está cursando o Doutorado em Escrita Criativa da PUCRS. É autor dos livros de contos O homem despedaçado e Não há amanhã.