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"Queremos sentir que temos controle sobre nossa existência. Porém, somos governados pelas forças do acaso e da coincidência."

Paul Auster é autor de livros como A trilogia de Nova York, O livro das ilusões e 4321, romance indicado ao Man Booker em 2017. Nova York é o cenário de seus livros, marcados pela grande metrópole, com seus habitantes e dramas, reflexões existenciais, paradoxos e coincidências.

Algumas de suas obras são apontadas como essenciais na vertente pós-moderna da literatura, que brinca com gêneros narrativos subvertendo-os ao escrever histórias conscientes de seu caráter de ficção.

Paul Auster é o próximo conferencista do Fronteiras 2019. O escritor norte-americano comunicou a sua impossibilidade de viajar ao Brasil por conta de uma emergência familiar.

Desta forma, o Fronteiras do Pensamento irá viabilizar a estrutura completa para uma videoconferência exclusiva, realizada diretamente de Nova York e que será projetada, ao vivo, no palco do Fronteiras. A data, o horário e o local previamente divulgados seguem os mesmos. Assim como o restante do cronograma previsto para o ano.

As datas do evento com Auster seguem as mesmas. Confira abaixo:

- Porto Alegre: 17 de junho, às 19h45, no Salão de Atos da UFRGS
- São Paulo: 19 de junho, às 20h30, no Teatro Santander

Através de vídeo, Auster falará ao vivo com o público do projeto. Após sua conferência, responderá as perguntas da plateia presente. Convidamos você, leitor do www.fronteiras.com, a enviar sua pergunta também.

Escreva para nós através do e-mail digital@fronteiras.com até a manhã de segunda-feira (17) ou comente em nossa página do Facebook. Divulgaremos as respostas do escritor nos dias posteriores aos eventos, em nossos canais digitais, oferecidos pela Braskem.

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Preservar a identidade é um trabalho de constante readaptação, à medida que novas circunstâncias impõem também um novo regime de sentidos. Isso é tão verdade a respeito da subjetividade humana como também das grandes cidades, cujas paisagens se modificam um pouquinho todos os dias, até que sejam erodidas por completo – preservando, no entanto, um nome e uma memória comuns. A mediação entre subjetividade e vida urbana serve de motor para A Trilogia de Nova York (1985-86), obra que introduziu ao mundo a ficção de Paul Auster.

O tríptico (formado por Cidade de Vidro, Fantasmas e O Quarto Fechado) toma emprestado de Hollywood o imaginário do cinema noir – gênero que, fascinado pela cidade e suas formas, talvez seja o único indissociável desse organismo social e geográfico. Estabelecendo paralelos entre os ofícios do escritor e do detetive, Auster contempla o paradoxo que rege a vida em comunidade nas cidades imensas: ao mesmo tempo em que força o convívio diário com milhares de estranhos, sua psicogeografia é de um tipo que induz ao isolamento. Ninguém mais adequado para investigar esse assunto, portanto, que um escritor – esse indivíduo de natureza exótica, cuja vida é dedicada a sentar-se sozinho num quarto.

A obra de Auster consiste em inventar solidões. Numa literatura na qual a identidade nacional se notabiliza como substância medular (como é, ao menos tradicionalmente, a dos Estados Unidos), sua ficção é um universo próprio, dotado de forças fundamentais particulares, ao mesmo tempo em que estabelece vínculos com diferentes tradições literárias. Antes da publicação de A Trilogia, Auster obteve destaque como poeta, além de ter escrito um livro de memórias e, sob pseudônimo, um romance policial. Sua ficção posterior serve de terreno comum a esses modos: são investigações íntimas empreendidas por homens em estado de afasia – incapazes de reconhecer os significados de seus entornos e, portanto, livres para encontrar maneiras próprias de se relacionar com a linguagem. É a obsessão dos poetas/detetives austerianos que lhes permite articular novos sentidos e, através desse exercício poético, encontrar a si mesmos no meio do caos. A linguagem, para Auster, é o reino da transcendência humana.

David Zimmer, o narrador de O Livro das Ilusões (2002), perde esposa e filhos num trágico acidente aéreo. Prestes a cometer suicídio, encontra amparo nos filmes de Hector Mann, figura obscura das comédias silenciosas que o mundo esqueceu. A curiosidade faz com que Zimmer escreva um livro a respeito da obra de Mann. Mais tarde, descobre que o comediante ainda está vivo e que sua reclusão se deve a uma tragédia pessoal. “[Mann] passou os anos de cativeiro adquirindo uma nova linguagem com a qual pensar as condições de sua sobrevivência e dar sentido à dor constante e impiedosa que levava no coração. (...) o rigor desse seu treinamento intelectual acabou por transformá-lo em outra pessoa.”

4321 (2017), seu livro mais recente, é um corajoso experimento formal. Acompanha, de modo intermitente, quatro versões da infância e juventude de um mesmo personagem, Archie Ferguson. Circunstâncias únicas às linhas do tempo fazem com que cada Ferguson desenvolva sua própria personalidade e, portanto, sua maneira única de elaborar o mundo através da linguagem. Tornam-se escritores, mas cada Ferguson opta por trabalhar em um gênero de escrita diferente dos demais. Ainda que distintos, os quatro são apenas um, ou quatro desdobramentos de uma mesma identidade.

A obra de Auster sugere que o mundo é regido pelo acaso, ou por uma vontade intangível à nossa compreensão. Tal força molda nosso caráter e faz com que sejamos uma coisa e não outra. Mais que um romance de formação, 4321 é uma odisseia mundana onde seguimos a causalidade que move o destino – se é que existe um. Coincidências, comumente tomadas como inverossímeis na literatura e no cinema, são eventos frequentes em suas histórias – mais ainda em 4321, onde só podem ser percebidas do lado de fora da vida (ou seja, pelo leitor). Sua ficção nos convida a observar e aceitar esse absurdo fundamental – que, como fica evidente nos relatos verídicos de O Caderno Vermelho (1995), é visto como ponte entre os níveis concreto e simbólico da existência: vida e ficção. Ao menos foi isso o que concluí ao encontrar o número do telefone de Auster, rabiscado com uma esferográfica, na contracapa de uma edição amarelada de um de seus livros, adquirida num sebo em 2013.

A ficção pode se dar ao luxo de ser verossímil. A vida, não.

Texto por Matheus Borges, escritor e roteirista, para Revista Fronteiras do Pensamento

>> Lembre-se: Paul Auster falará ao vivo com o público do Fronteiras, através de videoconferência, nos dias 17 (POA, Salão de Atos) e 19 (SP, Teatro Santander). Após sua fala, o escritor responderá as perguntas da plateia presente.

Envie sua pergunta para Paul Auster através do e-mail digital@fronteiras.com até a manhã de segunda-feira (17) ou comente em nossa página do Facebook. Divulgaremos as respostas do escritor às suas perguntas nos dias posteriores aos eventos, em nossos canais digitais, oferecidos pela Braskem.