Voltar para Notícias

Envie sua pergunta para Paul Collier

As ideias que movem o mundo em um único lugar. Cadastre-se e receba mensalmente o melhor do Fronteiras

Cadastrado com sucesso

Como podemos pensar soluções para a crise do capitalismo? Nesta temporada do projeto, trazemos uma referência mundial para discutir o assunto, um especialista em desenvolvimento econômico: o economista britânico Paul Collier, estudioso do capitalismo.

Em um período marcante da história, com uma pandemia agravando uma situação que já era crítica, debatemos a Reinvenção do humano com pensadores dispostos a refletir sobre elementos que precisamos mudar ou resgatar. Paul Collier aposta na cooperação e no cuidado mútuo para melhor vivermos em sociedade e superar as adversidades.

Envie suas perguntas para Paul Collier pelo e-mail digital@fronteiras.com ou por mensagem via Facebook ou Instagram. O pensador responderá as questões selecionadas durante a transmissão ao vivo na conferência desta quarta-feira (28/10). Divulgaremos as respostas nos dias posteriores ao evento, em nossos canais digitais, oferecidos pela Braskem.

Collier afirma em entrevista exclusiva aos assinantes da plataforma digital, que o capitalismo “só funciona quando está funcionando”, que não sobrevive no piloto automático, e que é o único sistema capaz de elevar o padrão de vida das pessoas. Sobre o fator humano neste contexto, ele finaliza a conversa dizendo que “precisamos das comunidades, precisamos difundir a responsabilidade moral”.

A seguir, você confere alguns pontos que Collier abordará em sua conferência, disponíveis na íntegra em vídeo aos assinantes do Fronteiras do Pensamento 2020. Autor do best-seller “O futuro do capitalismo”, o pensador britânico e trará suas reflexões ao público do Fronteiras do Pensamento na próxima quarta-feira (28), a partir das 20h.

Professor, da perspectiva da economia do desenvolvimento, somos de fato uma coletividade? É possível dizer que o mundo sairá da pandemia focando mais na coletividade ou não?

Pode acontecer qualquer uma das duas coisas, né? A primeira epidemia de que temos notícia aconteceu em Atenas em 430 a.C. Atenas tinha um grande sentimento comunitário, mas ele se despedaçou em razão da praga, e então Atenas foi destruída por Esparta, que era o maior dos exemplos de um estado com liderança brutalmente hierárquica. Então, será que veremos um comportamento responsável em relação aos países mais pobres do mundo? Não sei. Estou preocupado. 

Estou trabalhando com governos africanos no momento. Eles temem que ficarão sem vacina quando uma for descoberta. Essa é a sua real preocupação: eles conseguirão ter acesso à vacina? Eles se organizaram em conjunto na África. Foi muito impressionante. Pela primeira vez, os governos africanos de fato se uniram. Para realizar compras conjuntas de equipamento. E eles estão tentando realizar compras conjuntas de vacinas. 

Então, há esperança de que na África eles aprendam a cooperar. Há esperança para a comunidade internacional? Aqui na Europa, a reação inicial foi muito egoísta. A Itália ficou com a pior parte da epidemia, e a Itália recebeu alguma ajuda? Não. Macron, para sermos justos com ele, queria ajudar e conseguiu persuadir Ângela Merkel a mudar de ideia e decidir que ela precisava ajudar. Mas as coisas ainda estão em aberto na Europa. 

De modo mais geral, o que estamos vendo é uma troca mútua e desesperada de hostilidades entre China e Estados Unidos, quando precisamos justamente do contrário. Meu Deus, precisamos que o mundo se una. E estamos vendo justo o contrário. Então, lembre-se de que Atenas poderia ter ido por um caminho, mas a praga veio e ela foi pelo outro. Ela se desintegrou e foi derrotada por Esparta. Pelo menos o Ocidente precisa se reunir. Caso contrário, Esparta está à espreita, creio eu.

Acho que estamos prestes a ver seu novo livro, então nos conte sobre ele.

Sim. Então, Greed is Dead está prestes a sair. Ele foi escrito em conjunto com John Kay, um economista de grande eminência e muito sagaz. Por isso, posso adiantar que o livro é muito engraçado. O tema não é engraçado, mas conseguimos torná-lo engraçado. Ele traz toda a expertise de John sobre uma matéria chamada incerteza radical, que é o que acontece quando a sociedade é impelida a uma situação em que a resposta honesta à pergunta “o que devemos fazer?” é: eu não sei. Bem, eis a situação em que estamos, a Covid é um exemplo real de incerteza radical. A resposta honesta que os líderes deveriam oferecer é: não sabemos o que fazer. E se você não sabe o que fazer, o certo é descobrir. Aprender com os outros e experimentar, aprender fazendo. 

Na Grã-Bretanha, não fizemos nenhuma das duas coisas. Nós nos recusamos a aprender com os outros. Não aprendemos com o leste asiático. Por quê? Ah, porque eles são muito diferentes. Não aprendemos com a Itália, que estava um mês à nossa frente. Por quê? Ah, porque é a Itália. O que nós fizemos? Decidimos construir e confiar em nossos próprios modelos. Assim, um departamento de ciência de uma universidade muito boa desenvolveu um modelo que tentava prever o que iria acontecer. O único problema é que eles não tinham nenhum dos dados necessários para elaborar o modelo. O que os pesquisadores deveriam ter dito é: até reunirmos os dados para esse modelo, não podemos elaborá-lo.

Acredito que vamos nos reunir em 7 de outubro, digitalmente, no Fronteiras do Pensamento. Sobre o que você falará? Que mensagem trará aos brasileiros?

Bem, a mensagem de que todos devemos ter responsabilidade moral. E isso também vale para o desequilíbrio do capitalismo. As empresas precisam assumir responsabilidade moral pelo que fazem. Precisamos que as empresas sejam mais responsáveis. A democracia funciona, mas não no piloto automático. Como o capitalismo. Precisamos que a democracia funcione, e isso significa, mais uma vez, resgatar o cuidado mútuo. Precisamos das comunidades, precisamos difundir a responsabilidade moral. Precisamos de todas essas diferentes partes da sociedade, das comunidades locais, famílias e empresas, que tudo isso funcione, assim como os indivíduos e o governo central. 

O crescimento desesperador do individualismo nos últimos quarenta anos, que causou tantos danos à democracia, deslocou as obrigações das pessoas e empresas para os governos, que não são capazes de arcar com essas obrigações. E os indivíduos apenas clamam por direitos. Estamos em uma estrutura defeituosa que não tem como funcionar em uma democracia de indivíduos egoístas que exigem mais e mais de um estado sobrecarregado de obrigações. Essa estrutura de democracia está condenada ao fracasso. Então, precisamos retomar o mais depressa possível uma concepção de democracia em que todos temos um papel a cumprir. Assim como o capitalismo precisa retornar a um mundo em que as empresas existem para resolver os problemas da sociedade, e não para ganhar dinheiro criando esses problemas.