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Os tratamentos médicos podem ser resumidos em um modelo de três etapas: ter a doença, tomar um remédio e matar algo. Mas, o oncologista indiano Siddhartha Mukherjee explica que novos modelos estão surgindo e a forma como a Medicina buscará a cura será transformada.

O que estará em jogo, daqui para frente, não será mais matar algo, mas sim desenvolver algo. 

Desde a década de 50, temos tentado desesperadamente aplicar o antigo modelo médico ao câncer. Foi apenas nos últimos 10 anos que começamos a pensar na utilização do sistema imunológico como tratamento, por exemplo.

Será que podemos usar a capacidade do organismo para atacar o câncer? E se os remédios do futuro forem células, e não pílulas? E se pudermos alterar o meio metabólico para trocarmos ambientes pró-carcinogênicos por anticarcinogênicos? 

Mukherjee vem ao Fronteiras do Pensamento na próxima semana (POA, 03/09; SP, 05/09), esclarecer como a medicina lidará com nossa saúde de agora em diante.

O doutor Mukherjee é professor assistente no Centro Médico da Universidade de Columbia, na cidade de Nova York. Ele recebeu o Prêmio Pulitzer na categoria geral de não ficção por seu best-seller O Imperador de todos os Males – Uma Biografia do Câncer, que serviu de base para um documentário de Ken Burns (clique aqui para assistir à série). Seu best-seller mais recente se chama O Gene: uma História Íntima.

O oncologista defende que repensar a medicina significa repensar a forma com que nossos corpos se curam e, a partir disso, passar a focar nos microambientes que tornam determinadas partes do corpo imunes ou afetadas pelas doenças. Ele alerta: estas transformações já estão acontecendo. 

Quando e como chegarão até nós é matéria para a conferência com o médico no Fronteiras 2018.

ENVIE SUA PERGUNTA PARA SIDDHARTHA MUKHERJEE

Envie sua pergunta para o oncologista através do e-mail digital@fronteiras.com até o dia 03 de setembro. As questões selecionadas serão respondidas diretamente dos eventos em Porto Alegre e São Paulo. Divulgaremos as respostas nos dias seguintes às conferências aqui, no Fronteiras.com e em nossas mídias digitais, patrocinadas pela Braskem.


Siddhartha Mukherjee
Mukherjee coleciona chás do mundo inteiro, dando preferência aos asiáticos. Do chá preto ao verde, a família toma quatro xícaras de chá durante a manhã. (foto: Jessica Bal/The New York Times)









Em entrevista ao GS Talks, o médico indiano fala sobre o que seus estudos na área, que englobam os mais diferentes aspectos da prevenção e do tratamento do câncer - utilização do sistema imunológico, alimentação e transformação de paradigmas da medicina.

Você é um oncologista atuante, um pesquisador científico, um autor premiado, um conselheiro governamental, ocupa um cargo de direção, é marido e pai.

Você poderia nos dar uma perspectiva geral do que leva você a seguir tantos interesses e tentar responder algumas das questões mais urgentes que nós, enquanto humanidade, enfrentamos hoje, e o que o leva a fazer isso tão bem?

Siddhartha Mukherjee: Bom, em primeiro lugar, obrigado por citar todas as minhas profissões. O segredo que vocês precisam saber é que tudo pode desmoronar o tempo todo. Na fachada, o prédio parece ótimo, mas, nos fundos, ele sempre pode desmoronar.

O estudo parece disperso, mas há uma questão central que permeia todos esses projetos:  compreender o panorama da transformação da saúde humana.

Por que estamos onde estamos hoje? O que acontecerá dentro de 5, 10, 20, 50 ou 100 anos? Como podemos acelerar as partes que são necessárias para aquilo que eu chamaria de partes emancipatórias, as coisas que trarão benefício para os humanos? Como podemos suprimir as coisas que estão obstruindo nosso caminho e como fazemos para avaliar a situação cuidadosamente e não repetirmos nossos erros?

Basicamente, interesso-me pela estrutura do conhecimento: como aprendemos as coisas e, uma vez que aprendemos, o que fazemos com essas informações, em que pontos cometemos erros e o que podemos fazer para não cometê-los novamente? Tudo parece disperso, mas o conjunto de perguntas é o mesmo: como é o panorama da saúde humana hoje e de que forma ele está mudando? O que irá acontecer, como eu disse, dentro de 10, 100, 1000 anos?

Vamos abordar um desses grandes temas. Há 4 mil anos, os médicos da época concluíram que não existia uma cura para o câncer. Há 500 anos, sua causa foi atribuída à “bile negra”, uma substância que jamais encontramos. Há 100 anos, o tratamento padrão eram cirurgias muito agressivas.

Nos últimos 100 anos, fizemos experimentos com variados graus de sucesso para administrar e até mesmo curar o câncer com radioterapia, quimioterapia, terapias-alvo e abordagens cada vez mais holísticas através da prevenção, detecção e, mais recentemente, da imunoterapia.

Agora, está se tornando cada vez mais comum ouvir a ideia de que pode haver uma cura para o câncer no horizonte. Gostaria de saber o que provocou esses avanços científicos e o quão longe estamos da noção de uma cura para o câncer.

Acho que a palavra “cura” já é um sonho há muitas décadas. Há muitos anos, já falamos sobre isso de forma muito aprofundada. Acho que precisamos pensar no câncer como uma espécie de portfólio ou uma espécie de série de abordagens, que jamais será uma abordagem única.

TRATAMENTO E PREVENÇÃO

O mais importante é que deveríamos tentar prevenir o maior número de casos de câncer que pudermos. Antigamente, não éramos capazes de fazer isso muito bem, em parte porque não conhecíamos muitas de suas causas.

Vou lhes apresentar uma ideia muito surpreendente – surpreendente para muitas pessoas: desde a década de 1980, não descobrimos nenhum grande carcinógeno humano químico, algum que tenha grande impacto em humanos. Pensem nisso por um instante: o último foi a fumaça de tabaco.

Descobrimos uma porção deles, mas o número de carcinógenos químicos humanos que podem ser excluídos de nosso cotidiano com um impacto considerável é muito pequeno. Portanto, nossa compreensão da prevenção se estagnou nesse ponto. Agora, estamos descobrindo substitutos.

Pensemos: talvez, existam dezenas de milhares de carcinógenos químicos com um pequeno impacto, como uma morte causada por mil pequenos machucados ou talvez existam razões intrínsecas para que as células se tornem cânceres, sem qualquer ligação com o ambiente, ligadas apenas com as cópias que as células fazem de si mesmas.

Como qualquer máquina copiadora, elas cometem erros. Esses erros são mutações e essas mutações causam câncer.

Então, mesmo que deixemos essas questões ambientais de lado, o câncer ainda existirá devido a esse mecanismo intrínseco de cópias. Se for esse o caso, como fazemos para pensar em prevenções eficazes?

Bom, começamos a pensar sobre prevenção. Nós pensamos: “bem, talvez existam esses substitutos. Talvez o câncer cresça em certos tipos de ambientes e, se não tivermos esses tipos de ambientes no corpo, ele não crescerá. Que ambientes seriam esses?

Sabemos que as inflamações são um deles. Então, ao invés de focarmos em uma causa proximal – trata-se de algo que não podemos impedir de ocorrer, pois não é possível impedir nossas células de se dividirem –, por que não impedimos o corpo de aceitar o crescimento de um câncer?

Esse exemplo é apenas para demonstrar que, em certa medida, nós viramos todo o mundo da prevenção de ponta cabeça.

TOMOGRAFIAS, MAMOGRAFIAS E EXAMES PREVENTIVOS

Um segundo exemplo: nós costumávamos pensar na detecção prematura através de tomografias e mamografias. Há uma estimativa de que, se fizéssemos mamografias na população como um todo, em mulheres, provavelmente daríamos à população feminina, em média, mais 5 ou 6 dias de vida. Esse é o impacto mínimo da mamografia. Mas, hoje, estamos fazendo um tipo muito diferente de prevenção e gostaria de falar um pouquinho mais sobre isso.

Em primeiro lugar, devemos identificar as pessoas em risco. Realizar tomografias na população em geral é um problema Bayesiano. Se, para início de conversa, temos uma probabilidade muito baixa de desenvolver câncer, sempre que detectarmos algo, a chance de que se trate de um falso positivo será maior do que a chance de um positivo real. A plateia aqui reunida deve saber isso melhor do que qualquer pessoa.

Então, devemos refinar o grupo de saída, aumentando a probabilidade Bayesiana de termos um câncer de fato, ao invés de um caroço que, na verdade, não é maligno. De forma semelhante, temos biópsias do sangue, biópsias líquidas, para tentar achar e monitorar o câncer antes que ele ocorra.

Assim, estamos ajustando nosso enfoque lentamente em todos os âmbitos – prevenção, tomografias, novas terapias, terapias imunológicas –, e virando tudo de ponta-cabeça. E novos insights surgiram a partir disso. Nós estamos tentando não repetir os passos em falso nem cair nas mesmas armadilhas do último século referentes ao câncer.

Siddhartha mukherjee

Clique aqui para baixar gratuitamente o libreto especial sobre o trabalho de Siddhartha Mukherjee, próximo conferencista do Fronteiras do Pensamento. O libreto inclui breve biografia, links indicados e informações de destaque sobre o médico indiano, ganhador do Pulitzer por seu livro O imperador de todos os males: uma biografia do câncer. Assista abaixo à entrevista integral com o oncologista, concedida à GS Talks.