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Envie sua pergunta para Susan Pinker

Especialista na área da psicologia do desenvolvimento, Susan Pinker se tornou mundialmente conhecida após lançar seu primeiro livro, O paradoxo sexual, sobre as raízes das diferenças sexuais. A obra foi traduzida para 17 países e venceu diversos prêmios importantes por tentar responder uma questão polêmica: por que mulheres, que têm melhor desempenho na escola e vão à universidade em maior número do que os homens, têm salários mais baixos?

Por meio de pesquisas, a psicóloga demonstra como salários de homens costumam ser maiores não por discriminação do mercado, mas porque eles priorizam mais isso. Frequentemente, defende ela no livro, estas mulheres com seus excelentes currículos optam por assumir cargos de menor responsabilidade ou trabalhar menos para dar atenção aos filhos, à família ou aos seus outros diversos interesses. Afinal, como a própria autora diz, "para as mulheres, a vida não é apenas trabalho, salário e promoções".



Susan Pinker é a próxima conferencista do Fronteiras do Pensamento. A psicóloga canadense encerra o ciclo de conferências em Porto Alegre, no dia 04; e em São Paulo, no dia 06, de onde responderá a Pergunta Braskem, enviada por vocês, nossos leitores e seguidores digitais. Envie sua pergunta para Susan Pinker através do e-mail digital@fronteiras.com até a manhã do dia 28. Divulgaremos a resposta do conferencista no dia 29.




A mais recente obra de Susan Pinker também aborda um tema de interesse geral: as relações na contemporaneidade. Virtuais e reais, há diferença? Sim, e muita, diz a autora em The Village Effect. Ao reunir histórias reais, neurociência e ciências sociais, Susan Pinker mostra como o contato face a face é crucial para o aprendizado, para a felicidade, para a resiliência e longevidade. Ou seja, nossa saúde é mais interdependente do que independente e isso deve ser levado ao pé da letra, já que, diz ela, ser solitário pode lhe matar: “negar-se a ficar próximo de pessoas que são importantes para você é mais perigoso que o hábito de fumar um cigarro por dia, hipertensão ou até obesidade”. 

Importante salientar que, segundo ela, conexões sociais ou virtuais não fazem o mesmo por nós: precisamos de encontros presenciais que unam famílias, amigos e comunidades, já que a proximidade emocional com alguém diminui 15% a cada ano que vocês não se encontram pessoalmente. Esta fascinante questão, tão relevante para a vida de todos atualmente, é tema do artigo abaixo, escrito pela própria Susan Pinker, que tem viajado o mundo para divulgar The Village Effect. O Fronteiras do Pensamento é sua próxima parada!



A importância do contato face a face em nossa era digital | Susan Pinker

Nossa sobrevivência depende de nossas interações sociais, e isso não vale apenas para o nosso obscuro passado evolucionário. Ao longo da última década, grandes estudos populacionais mostraram que a integração social (a sensação de pertencer a um grupo coeso) gera imunidade e resistência. 

O nível de apoio e aceitação que sentimos afeta os mecanismos biológicos que distorcem a expressão genética de uma doença; por outro lado, se nos sentimos isolados, isso “deixa uma marca de solidão” em cada célula, afirma o neurocientista social norte-americano John Cacioppo. 

Por exemplo, mulheres com câncer de mama que pertencem a grupos sociais ativos, expansivos e com relações face a face têm quatro vezes mais chances de sobreviverem à doença do que mulheres com menos relações sociais. E como isso funciona? Uma pesquisa conduzida por Steve Cole na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, mostra que os contatos sociais ativam e desativam genes que regulam a taxa de crescimento dos tumores (e também o nível de linfócitos anticancerígenos em nosso fluxo sanguíneo).

Homens de cinquenta anos com amizades ativas tem menor probabilidade de sofrerem ataques cardíacos do que a maioria dos homens solitários, e uma rede de contatos pessoais funciona melhor que qualquer medicamento para proteger pessoas que já sofreram um derrame contra complicações graves. 

Ao trabalharem com uma grande amostra de britânicos, os pesquisadores australianos Catherine e Alex Haslam descobriram que pessoas com vidas sociais ativas se recuperam mais rápido de uma doença do que aquelas solitárias (suas ressonâncias magnéticas apresentam maior recuperação dos tecidos) e que os idosos da Inglaterra que participam de reuniões sociais mantêm a memória funcionando por mais tempo.

Mas isso não vale apenas para aposentados. Ao monitorarem os hábitos diários de cerca de 17.000 operários franceses nos anos 1990, pesquisadores descobriram que estudar o seu grau de engajamento social era uma boa maneira de prever se eles ainda estariam vivos no fim da década.

Os estudos sobre os benefícios de interações sociais face a face, quase todos publicados durante a última década, levantam uma questão: por que não falamos mais sobre a importância de reunir as pessoas? Um dos motivos é que, quando pensamos no que garante saúde e felicidade, somos obcecados por preocupações mais concretas: comida, dinheiro, exercício, drogas. 

Admitimos que cigarros, sal, gordura animal e sobrepeso podem reduzir nosso tempo de vida, enquanto antibióticos, atividade física e uma dieta adequada são capazes de prolongá-lo. Saber disso mudou a maneira como a maioria de nós come, trabalha e gasta seu tempo de ócio. Mas, apesar das evidências confirmando o poder transformativo do contato social, nossas rotinas se tornaram mais solitárias. 

Desde o final dos anos 1980, quando o isolamento social foi identificado pela primeira vez como um fator de risco para mortes prematuras em um artigo paradigmático da revista Science, o número de pessoas que dizem se sentir isoladas dobrou, ou mesmo triplicou, de acordo com pesquisas realizadas na Europa, na Austrália e nos Estados Unidos.

A questão de como e por que a solidão aumentou foi muito debatida. As comunidades se desarticularam por diversas razões. E embora a Internet nos permita ignorar a geografia quando buscamos pessoas parecidas conosco, ela reduziu ainda mais a necessidade de conversar com nossos vizinhos. 

A maioria das transações comerciais e sociais migraram para o âmbito on-line, onde são mais rápidas e baratas, e, para muitas pessoas, a sala de aula e o local de trabalho também se tornaram virtuais. Se a mídia eletrônica nos informa e diverte, por que forçar um papo furado com outra pessoa?

Sem dúvidas, a computação digital eclipsou o poder cerebral com sua capacidade de buscar, reunir e organizar informações. Mas quando se trata de relacionamentos, nossos aparelhos eletrônicos podem fornecer a ilusão de intimidade sem propiciar a mesma descarga hormonal de um contato real.

Em 2012, a psicóloga Leslie Seltzer, da Universidade do Wisconsin, e sua equipe pediram a garotas pré-adolescentes que resolvessem problemas de palavras e matemática diante de uma plateia. Antes de testá-las, os pesquisadores mediram o nível de cortisol salival das participantes, um hormônio que registra o nível de stress. 

Então, elas foram divididas em quatro grupos. Cada um recebeu um tipo de contato social diferente imediatamente após o teste: um quarto do grupo recebeu uma visita de suas mães, um quarto recebeu uma ligação delas, um quarto leu um texto encorajador e um quarto não teve qualquer tipo de comunicação. 

Após o teste, os níveis de cortisol foram medidos outra vez, assim como os níveis de oxitocina no sangue. As garotas que viram suas mães pessoalmente eram as mais relaxadas após o experimento, conforme demonstrado por sua maior queda nos níveis de cortisol. Um pico de oxitocina, muitas vezes chamada de “elemento químico do abraço”, mostrou que elas se sentiam tranquilas. 

Ainda que em menor grau, o mesmo fenômeno foi observado nas garotas que escutaram a voz de suas mães ao telefone. Mas os textos escritos pelas mães não tiveram qualquer impacto. Nenhum sinal psicológico indicava que as participantes estivessem menos ansiosas do que antes. Na verdade, seu nível hormonal era idêntico ao das garotas que não tiveram qualquer tipo de contato.

Estudos recentes de ressonância magnética realizados pela neurocientista Elizabeth Redcay nos mostram que o contato pessoal é mais eficiente para aumentar atividade em áreas cerebrais ligadas à solução de problemas, à atenção e à recompensa do que conexões à distância. Quando a mesma informação é transmitida através de uma gravação, fica faltando alguma coisa.

Assim como todos precisamos de água, comida e sono para sobreviver, todos precisamos de contato humano genuíno. Aparelhos digitais são ótimos para compartilhar informações, mas não tanto para aprofundar as conexões humanas e a sensação de pertencimento. 

Sociedades mais coesas, como as da Zona Azul da Sardenha, mostram que deveríamos utilizar nossos aparatos móveis para ampliar, mas não substituir, a interação face a face. Isso é, ao menos se quisermos vidas mais longas, saudáveis e felizes.



susan pinker

Susan Pinker é reconhecida por seu trabalho na área da psicologia do desenvolvimento. Autora de livros e artigos sobre ciências sociais, é graduada pelas universidades McGill e de Waterloo e possui mais de 25 anos de experiência clínica e docência. Sua linha de pesquisa busca entender a mente humana no contexto da evolução.

Acesse o libreto especial sobre a vida e a obra da psicóloga. O libreto inclui breve biografia e informações de destaque sobre a conferencista. Também traz a íntegra do artigo acima, A importância do contato face a face em nossa era digital